terça-feira, 15 de abril de 2014

Ao resgate da Sessão da Tarde de raiz - 'A História sem Fim' (trilogia)

Se as crianças de hoje em dia se orgulham de possuir a saga Harry Potter como um símbolo marcante de sua geração, nós podemos bater no peito e dizer que um dia nós tivemos a trilogia ‘A História sem Fim’ para alimentar a magia em nossas cabeças e transportar-nos para um universo paralelo de fantasia. 
Que apesar de ser uma fantasia destinada especialmente às crianças, podemos dizer que os temas abordados passam longe de ser infantis.
Os filmes são baseados no romance de mesmo nome escrito por Michael Ende, e na época de seu lançamento, o primeiro filme foi considerado o mais caro produzido fora dos EUA. Além das duas conhecidas sequencias, A História Sem Fim também inspirou duas séries de televisão. Uma em desenho animado de 1996, focado nas aventuras de Bastian na terra de Fantasia (diferentes das do livro), enquanto outra em live action chamada Contos da História Sem Fim e contou com 13 episódios.

Os três filmes que já foram presenças constantes na antiga Sessão da Tarde, certamente não passariam pelo exigente selo de qualidade do público atual. Mesmo tendo uma abordagem interessante e um roteiro bem estruturado, os efeitos dos bonecos poderiam ser comparados aos do Castelo Rá Tim Bum. E essa é a única justificativa plausível que vejo para eles não passarem mais na grade de programação da TV, já que nada disso invalida o efeito nostálgico que os filmes causam em quem teve a infância pautada na década de 80.
Como parecia ser de praxe em certas obras cinematográficas daquele tempo, os produtores subestimavam facilmente a inteligência das crianças, ou simplesmente as ignoravam, quando filmavam sequencias sem personagens, conexões e nem mesmo os atores dos filmes anteriores. Imagina como ficariam inconsoláveis as fãs da saga de J. K. Rowling se em cada sequencia de Harry Potter fosse escolhido um ator de diferente para interpretar o bruxo. Pois foi exatamente isso que fizeram com o protagonista Bastian de A História sem Fim. Pode parecer um pouco estúpido falar disso agora, mas isso fazia uma baita confusão na minha cabecinha quando era pequeno. Não era apenas a aparência do personagem que mudava, mas também sua personalidade, e assim eu nunca entendia como aquele garoto nunca levava nada do que aprendia em um filme para o outro.

Como sugere o título dessa coluna, procuramos resgatar aqui a trilogia de ‘A História sem Fim’ para aqueles que pretendem correr o risco de apresentar aos filhos um fragmento de sua infância, mesmo sabendo que será massacrado pelos pivetes quando começar as comparações com os efeitos visuais das produções atuais. 
Mas se você conseguir prender a atenção deles a algumas minucias do enredo, talvez eles saiam com uma lição importante e quem sabe daí não surjam novos leitores ávidos por livros.

A História sem Fim
Bastian é um garoto sonhador, que usa a imaginação como refúgio para os fatos que o entristecem, como as provas de Matemática, brigas na escola e, especialmente, a recente perda de sua mãe. Um dia, o garoto a caminho da escola briga com outros colegas, foge, e acaba parando numa livraria, onde toma conhecimento de um livro chamado "A História Sem Fim". A leitura do livro o transporta ao fantástico mundo de "Fantasia", habitado por um caracol de corrida, um morcego planador, um dragão da sorte, elfos, uma Imperatriz Criança, o valente guerreiro Atreyu e uma pedra ambulante chamada Come-Pedra. O jovem começa a visualizar o que lê. A imperatriz que governa "Fantasia" está morrendo e, junto com ela, todo aquele mundo habitado por criaturas maravilhosas. Um jovem guerreiro é a única esperança para encontrar a cura para a doença da imperatriz e impedir que aquele mundo fosse engolido pelo "Nada".
*Você pode fazer o download do arquivo torrent da versão dublada clicando aqui, enquanto relembra a cena mais triste do filme na cena do vídeo abaixo.

A História sem Fim II: O Próximo Capítulo
Depois do sucesso nos cinemas de A História Sem Fim, que arrecadou mais de US$ 100 milhões nas bilheterias, A História Sem Fim II foi produzida para dar seqüência às aventuras do garoto Bastian Bux e do livro mágico.
Os personagens centrais do best seller de Michael Ende reaparecem nessa história, baseada na segunda parte do romance. Novamente com problemas com os colegas, a escola e seu pai viúvo, Bastian descobre no teste para a equipe de mergulho que tem medo da água. Assim, ele retorna à livraria Coreanders para procurar um livro sobre coragem.
*Você assiste o filme completo e com a dublagem original no vídeo abaixo:

A História sem Fim III: Fuga da Fantasia
Fugindo de uma gangue de garotos, o jovem Bastian esconde-se na biblioteca da escola. Lá, ele encontra o velho Sr. Creander e o livro mágico conhecido como A História Sem Fim. Disposto a esquecer seus problemas, Bastian mergulha na leitura do livro onde a aventura nunca termina e acaba voltando, mais uma vez, para o Reino de Fantasia. Enquanto isso, na escola, o líder da gangue (curiosamente interpretado por Jack Black) encontra o poderoso livro caído no chão e começa a preencher suas páginas com perigos e maldades, transformando Fantasia num verdadeiro pesadelo. Só há uma maneira de salvar o mundo encantado: Bastian precisa retornar ao mundo real e resgatar o livro. Mas as coisas não são tão simples assim. Vários habitantes de Fantasia são transportados acidentalmente com o menino e acabam caindo em diferentes lugares do país. Agora, Bastian precisa encontrar seus amigos, enfrentar a perigosa gangue e recuperar o livro da História Sem Fim, antes que seja tarde demais!
*Você assiste o filme legendado completo no vídeo abaixo:
Gostou de rever este clássico? Lembrou de mais algum filme marcante que gostaria de assistir? Conhece o link pra outro filme que merecia estar nas próximas sessões? Então deixe sua dica e sugestão nos comentários pra desenterrarmos a Sessão da Tarde de raiz.
Quer ver todos os filmes que já resgatamos nesta coluna? Então CLICA AQUI e curta algumas horas de nostalgia. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues (Ruy Castro)

Esse é o tipo de leitura que considero indispensável na prateleira de qualquer aspirante a escritor nacional. Faz tempo que eu namorava o título pelas vitrines das livrarias que visito, mas, ao mesmo tempo, prestava tanto respeito a essa obra que não ousava adquiri-la sabendo que não teria tempo hábil para lê-la. Quando a tivesse em mãos, queria poder sorver cada momento junto suas páginas tal qual faria com alguma personagem ousada criada pela mente brilhante do próprio biografado.
Encontrei esse tempo precioso no início desse ano, em época de pouco movimento no trabalho, quando decidi abdicar de minhas leituras “obrigatórias” e me permitir conhecer mais profundamente um período fundamental da formação da literatura, do teatro, da imprensa, do cinema, do esporte nacional e até mesmo da cidade do Rio de Janeiro, como nós os conhecemos hoje. Tudo isso contado através da vida de um homem que foi uma engrenagem primordial para a consolidação de todos esses conhecidos ícones brasileiros.
Como um menino olhando pelo buraco da fechadura, acompanhei a trajetória desse autor genial relatada no livro O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues (Editora Companhia das Letras, 454 páginas), escrito pelas mãos de Ruy Castro.

Se tem uma coisa que Nelson Rodrigues cativou com a mesma maestria que conduzia suas obras, foi as ideias erradas a seu respeito. O que, a meu ver, torna sua biografia uma peça extremamente relevante para calar os que ainda julgam sua obra baseados apenas nas versões televisivas exibidas pela rede Globo.
A história do criador de ‘A Vida Como Ela é’ começa antes mesmo de seu nascimento, ainda com seu pai Mário Rodrigues, jornalista e fundador de jornais que ficaram marcados na imprensa carioca. Passando pela trajetória do seu irmão Mário Filho, idealizador dos primeiros campeonatos de futebol e da imprensa esportiva do país, e personalidade que empresta o nome ao estádio do Maracanã em merecida homenagem. Até chegarmos a vida de Nelson como ela foi, tracejada de altos e baixos, de sucessos inesperados a derrotas homéricas, de paixões desacerbadas a tragédias “rodrigueanas”. Exatamente como é lembrada grande parte da sua obra.
Muitas vezes adjetivado pelos “idiotas da objetividade” como tarado, mórbido ou até reacionário, pra mim, Nelson é a maior figura representativa de um indivíduo por ele só. Um ser humano falho sem medo de acertar, uma pessoa que tem certeza de seus acertos mesmo sabendo que está falhando.

Não importa por qual faceta você conheça o perfil do Anjo Pornográfico, essa biografia com certeza irá abordá-la de forma limpa, imparcial e apresentará muitos outros aspectos pelos quais você deveria conhecê-lo.
Com uma leitura tão altruísta, a gente se envolve tanto com a vida do biografado, que às vezes acaba esquecendo-se de avaliar a escrita do autor da obra. Mas por fim, não deveria ser mesmo assim em uma biografia? O narrador ficar oculto na coxia, quase que sussurrando a história para a plateia, sem nunca interferir em seus acontecimentos? Pois isso Ruy Castro já provou que sabe fazer com competência em trabalhos anteriores.
E a convicção de que a obra cumpriu o seu papel, ocorre quando você termina a leitura, fecha o livro e sai sedento atrás de livros, matérias, filmes e todo tipo de material ligado a Nelson Rodrigues, e talvez compreenda por que, infelizmente, não encenam mais as suas peças.

Para conhecer em detalhes a vida do Anjo Pornográfico, clique agora no banner abaixo da nossa parceira Submarino e compre o seu exemplar. Depois volte aqui e conte a sua própria experiência com o livro em nossos comentários.

domingo, 13 de abril de 2014

Por trás da canção 'Exagerado' do Cazuza

Eu não sei dizer se esse programa já era de conhecimento público, ou se eu sou o único que ainda desconhecia o 'Por Trás da Canção' exibido pelo canal BIS, o fato é que acidentalmente descobri alguns episódios no youtube e achei brilhante o formato da atração que, basicamente, consiste em contar as histórias por trás de algumas músicas famosas do nosso repertório nacional.
No caso, para o blog, eu procurei escolher a minha canção favorita dentre as já apresentadas pelo programa, Exagerado do Cazuza. Mas também poderia citar outros episódios interessantes e divertidos trazendo músicas do Djavan, Skank, Fernanda Abreu, Luiz Melodia e até a inusitada "Ex-Mai Love" de Gaby Amarantos.
Veja abaixo o capítulo completo que conta como surgiu o clássico do eterno 'Exagerado', e clique aqui para conhecer os outros episódios do show.

sábado, 12 de abril de 2014

5 Trechos bizarros que você não esperava encontrar em livros clássicos

Eu sempre fui encucado com certas classificações de livros. Principalmente quando ela define uma obra como ‘intelectual’. 
Que fatores, além da qualidade básica da escrita, faz alguns livros serem mais valorizados do que outros? E se os leitores têm gostos diferentes; quem decide esse tipo de coisa, afinal?
Em resumo, podemos dizer que ‘livros intelectuais’ são aqueles que abordam temas significativos e profundos. Mas se você prestar atenção, algumas dessas obras possuem trechos surpreendentes que poderiam facilmente fazer parte de alguma comédia pastelão.
Abaixo separamos cinco livros clássicos, considerados ‘intelectuais’, que contêm partes estranhas que talvez tenham lhe passado despercebido:

✔  O Conto do Inverno , de William Shakespeare
Obviamente Shakespeare é um mestre da linguagem. Ele passeia entre diferentes situações com facilidade, salteando, como ninguém, entre cenas insanas e a alta tragédia. Alguns estudos definem suas peças como: Uma meditação sobre a morte. Ou ainda: Um julgamento do coração humano. Mas há uma coisa que ninguém consegue explicar...
O momento que você não esperava: Ursos. Shakespeare não era conhecido pela sua direção de palco. Normalmente, dar a deixa de entrada e da morte dos personagens, era tudo que se limitava a fazer. Mas em O Conto do Inverno, há uma encenação que diz: "Ele sai, perseguido por um urso." Nenhum urso foi mencionado anteriormente na cena, e não havia absolutamente nada que justificasse isso. Uma situação digna de fazer parte dos filmes da franquia ‘Todo Mundo em pânico’... Mas estamos falando em algo escrito pelo mestre do idioma Inglês.

✔  Ulysses, de James Joyce
Esta obra-prima literária é verdadeiramente um épico de quase 1.000 páginas, e não há dúvidas de que está na prateleira dos “intelectuais". A obra é embalada com referências literárias e composta de uma escrita densa. James Joyce disse uma vez que colocou o suficiente no livro para manter os professores ocupados por centenas de anos. Até agora, ele tem tido razão.
O momento que você não esperava: Merda. Literalmente. Logo no início da narrativa, um dos protagonistas é introduzido em algumas páginas inteiramente dedicadas ao coco.

✔ Chapeuzinho Vermelho (O original), de Charles Perrault
Como tantos outros contos de fadas que são tão onipresentes em diversas culturas mundiais, há muitas versões diferentes desta história. Em algumas um caçador salva a Chapeuzinho Vermelho, em outras, ela salva a si mesma. Às vezes ela é apresentada com uma menina astuta, ou então, como ingênua, e em outras simplesmente como uma estúpida. Em uma das primeiras, e mais famosas versões do conto, o lobo diz a ela para subir na cama com ele, é aí que ela...
O momento que você não esperava: Primeiro, ela faz uma pausa para tirar as roupas, embora o lobo nunca ter mencionado nada sobre ela se despir. Ela faz isso de livre e espontânea vontade. Se ela sabia que era o lobo, ou se achava que era a sua velha avó que estava sobre a cama, não faço ideia. Mas de qualquer forma,... O que você está fazendo Chapeuzinho Vermelho? O que você está fazendo?

✔  Watchmen, de Alan Moore
Ok, essa é, tecnicamente, uma graphic novel, mas a partir do momento que ela é considerada um diferencial dentro do gênero, acho que vale a sua inclusão nessa lista. Esta história é, sem dúvida, um tour conduzido por uma narrativa não linear que salta décadas com facilidade e cria personagens ricas e complexas que não têm medo de ser profundamente falhos.
O momento que você não esperava: Uma das personagens fica nua e transa em pleno planeta Marte. Faz todo o sentido no contexto da história, mas ainda parece algo saído de uma comédia intergaláctica feita por nerds para um trabalho de faculdade.

✔ A Filosofia na Alcova, de Marquês de Sade
Este pode ser um contraponto dentre os outros itens desta lista, afinal, os livros do Marques de Sade não ficaram famosos por citar assuntos profundos ou significativos. A obra de Sade sempre foi considerada um tabu infame, não apenas para a sua época, mas também para os padrões de hoje em dia. E se você está se perguntando o porque de eu ter incluído um livro desse autor na categoria ‘intelectual’, acho válido lembrar que ele influenciou muitos pensadores e filósofos do século passado.
O momento que você não esperava: No meio de todo o seu erotismo explícito, Sade consegue encaixar uma ruminação longa, sofisticada e progressista sobre a filosofia e a moral de uma verdadeira república, filosofando sobre o fato da religião ser o ópio do povo.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Conheça a Editora Gente e o Selo Única, os novos parceiros do DpM

Atenção 'malditos' leitores! O DpM acaba de ser selecionado como blog parceiro da Editora Gente e do seu selo de ficção Única. Ou seja, a partir de agora vocês poderão encontrar os livros do catálogo da editora resenhados aqui no blog, além de participar de futuros sorteios e promoções desses exemplares.
Conhecendo a Editora Gente e o Selo Única... 
A Editora Gente tem como maior objetivo contribuir com o desenvolvimento humano, por isso dedica-se a publicações nas áreas de autoajuda, educação e gestão. Está no mercado desde 1984 e tem o orgulho de ocupar um espaço destacado no mercado editorial brasileiro.
A Única Editora trabalha seu selo de ficção, e entra no mercado editorial nacional com a missão de provocar experiências. Suas obras apresentam histórias para serem vividas pelo leitor, e apresenta personagens – reais ou não – que oferecem mais do que suas próprias vidas, que oferecem suas essências. Uma única filosofia composta de muitas opções e de muitas contravenções. O possível e o impossível são um só.
A única exigência é não ter limites.
Para firmamos essa parceria de vez, pedimos aos nosso leitores que curtam a página da Editora Gente e do Selo Única no Facebook, e quem quiser já ir se preparando para a overdose de qualidade literária que vem por aí, pode clicar aqui e dar uma conferida no expansivo acervo da editora.

Como apagar um pequeno raio de sol

Suzane era uma loira baixinha, linda, dona de um sorriso radiante e inesquecível. Seus pais a apelidaram de “o nosso raiozinho de sol”. Esperta, elétrica, alegre, e muito responsável, a garota jamais fugia de seus compromissos e obrigações, e os executava com aquele belo sorriso no rosto que a caracterizava.
Aos dezoito anos começou namoro com Edgar, rapaz gente boa da mesma idade, espinhento, viciado em jogos de computador e vídeo games. Camarada de paz, sujeito legal.

Suzane, o raiozinho de sol, estava para se formar em matemática, e ainda morava com os pais. Edgar, agora programador de games, já morava sozinho num confortável apartamento no bairro da Glória, Rio de Janeiro. O casal gostava de passar os finais de semana juntos no apartamento de Edgar, assistindo a filmes, séries, e também pedindo comida pelo telefone e namorando embaixo das cobertas. Às vezes até rolava um vinho nos dias mais frios.

Oto, o vizinho militar viúvo que morava no mesmo andar do rapaz, nunca entendeu como a bela moça namorava aquele bolo de carne podre (era assim que ele o chamava nas sombras) feio, molenga, e sem jeito de macho.
- Mulher dessas é boa pra homem de verdade, não pra fedelho veado! Isso aí é mulher pra macho!
Oto sempre olhava pelo olho mágico e, de vez em quando, saia ao mesmo tempo em que o casal para sentir o cheio de Suzane no elevador, observá-la de perto em cada detalhe. Edgar tratava o vizinho muito bem, e sentia pena dele desde que soube que sua esposa morreu com um câncer no útero. Mas o outro o tratava como um simples soldado raso.

Lá estava o casal no apartamento:
- Ed, você tem tara por botas de couro, não tem? – Ela quis saber.
- Não gatinha.. É só uma personagem dos games.
- Sei não, você coloca pôster dessa mulher usando botas de couro pela casa...
- Eu gosto do jogo, só isso.
- Sei não..
Suzane pegou parte da grana do seu estágio e comprou um belo par de botas de couros. Para combinar, apostou em uma minissaia de couro preta, e uma blusinha que deixava parte da barriguinha branca de fora. Logo ela, que sempre usava seus vestidos recatados, florais, ou a calça jeans que serve pra tudo, agora estava mais ousada. Sentiu-se bem assim, poderosa, de certa maneira mulherão, apesar do tamanho.

E lá se foi o raiozinho de sol aprontar uma surpresa para o namorado, o primeiro e único homem de sua vida até aqui. Para seu azar, pois a moça o detestava, Oto estava subindo pelo mesmo elevador com duas sacolas de compra do mercado. Aquele homem calvo, peludo, alto, fedendo a colônia de pinho, levava algo de assustador (sombrio) no olhar. Mesmo quando sorria não sorria. Mesmo quando falava não dizia.
- Boa noite moça! – Ele disse abrindo a porta do elevador.
- Boa noite.. Obrigada.
Os dois entraram no elevador. Suzane olhava os números se alternando na passagem dos andares, e Oto olhava sua botinha de couro. Oto olhava sua barriga, suas pernas. Ela percebeu o olhar do homem. Encarou-o com semblante enraivecido, mas ele sorriu de maneira cínica.
- Você é tão bonita quanto minha falecida esposa.
- Sou namorada do seu vizinho e dispenso elogio de estranhos.
- Namorados.. Aquele garoto não sabe o que fazer com tudo isso.
- O senhor está me desrespeitando!
- E você também está! Quer o quê? Se vestir como puta e jogar papo de santa?? Conheço mulher.
- Puta?? O que o senhor sabe da minha vida pra dizer isso??
- Sei que mulher que se veste assim tá querendo pau, tá querendo macho! E eu to aqui!

O elevador parou no andar, Suzane tentou sair o mais rápido possível de perto de Oto, mas ele a segurou com uma gravata bem ajustada. Enquanto o militar a levava, imobilizada, até o apartamento, a outra vizinha, Dona Gertrudes, viu toda a cena pela fresta da porta. Três horas depois Oto libertou Suzane, com o nariz quebrado, uma perna e um braço torcidos. Estado deplorável. Nem de longe aquele raiozinho de sol.
- Se contar pra alguém, morre. Vagabunda filha da puta. – Disse levantando o zíper da calça.

O casal deu queixa na delegacia. Edgar mudou-se dali três dias depois. E Dona Gertrudes entendeu que a moça estava vestida como piranha (palavras dela no processo), justamente para que aquilo acontecesse. Oto era um respeitável homem de família. A mulher tem que saber se comportar, disse a velha.
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quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Lista de Leitura dos 7 Pecados Capitais: PREGUIÇA

Continuando com a nossa Lista de Leitura dos 7 Pecados Capitais, o sexto pecado escolhido para ser desmembrado em livros no nosso inventário, quase não chega ao blog por efeitos do próprio vício. Ou seja, por pura PREGUIÇA
Talvez o pecado mais difícil de ser reconhecido pelo portador, que na maioria das vezes declara-se 'cansado' para alguma tarefa, no intuito de disfarçar seu esmorecimento e falta de vontade.
A preguiça é o mais auto-destrutivo de todos os pecados mortais. E na literatura, as coisas normalmente não funcionam muito bem para os preguiçosos. Eis a prova...

✔ Hamlet, de William Shakespeare
A preguiça é muito bem representada pelo príncipe Hamlet nesse que seria o caso mais famoso de indecisão, e falta de ação, de toda a literatura. 
Quando ouve o fantasma do pai dizer que sua morte não foi um acidente, mas sim assassinato, Hamlet passa a ser atormentado pela dúvida: o fantasma do velho rei diz a verdade ou seria um demônio tentando fazê-lo cometer uma loucura? Sobretudo porque, como afirma o fantasma, o assassino seria Cláudio, irmão do rei, que acabara de se casar com a mãe do jovem príncipe. 
Confundido e torturado pela dúvida, Hamlet não consegue decidir o que fazer. Resolve então investigar a morte do pai e para isso, finge-se de louco. Assim, ninguém desconfiará da terrível suspeita que lhe aflige o coração.
Na adaptação é o próprio Hamlet quem conta a história dessa busca e dos caminhos que o levaram a finalmente vingar a morte do pai, mas com um custo terrível.

✔ Razão e Sensibilidade, de Jane Austen
Razão e Sensibilidade está focado nos relacionamentos de Elinor e Marianne Dashwood, duas filhas do segundo casamento do Sr. Dashwood. Elas têm uma jovem irmã, Margaret, e um meio-irmão mais velho, John. Quando seu pai morre, a propriedade da família passa para John, o único filho homem, e as mulheres Dashwood se veem em circunstâncias adversas. 
O contraste entre as irmãs, mostrando Elinor mais racional e Marianne mais emotiva e passional, é resolvido quando cada uma encontra, à sua maneira, a felicidade. Marianne e Elinor representam polos opostos do universo ético de Austen - enquanto Marianne é romântica, musical e dada a rompantes de espontaneidade, Elinor é a encarnação da prudência e do decoro.

✔ Pigmalião, de George Bernard Shaw
O Pigmalião da mitologia antiga apaixona-se pela estátua que ele próprio esculpiu. A peça Pigmaleão, de Bernard Shaw (1856 – 1950), conta a história de Eliza Doolitle, uma vendedora de flores ambulante na Londres do início do século 20. Sua linguagem é uma afronta à língua inglesa, seu vocabulário, paupérrimo e de baixo calão, e sua pronúncia, uma desgraça. Um eminente fonético impõe a si mesmo um desafio: reeduca-la e faze-la passar por uma dama da sociedade.
O pai de Eliza é um preguiçoso, chantagista, bêbado, e alguém orgulhoso de sua falta de ética e ambição. Quando ele descobre que sua filha está sendo mantida na casa de um homem estranho, tudo que ele quer é uma pequena recompensa de Higgins, o suficiente para mergulhar na bebida por um dia ou dois. Mas esse é apenas o início dessa comédia deliciosa em que o autor denuncia as diferenças sociais e de classe.

✔ A Revolta de Atlas, de Ayn Rand
Na mitologia grega, o titã Atlas recebe de Zeus o castigo eterno de carregar nos ombros o peso dos céus. Neste clássico romance de Ayn Rand, os pensadores, os inovadores e os indivíduos criativos suportam o peso de um mundo decadente enquanto são explorados por parasitas que não reconhecem o valor do trabalho e da produtividade e que se valem da corrupção, da mediocridade e da burocracia para impedir o progresso individual e da sociedade.
Ou seja, enquanto outros trabalham duro para construir grandes coisas, um grupo simplesmente senta-se, sorri, esfrega as mãos e se beneficiam de sua própria inaptidão.

✔ O Hobbit , de JRR Tolkien
Os hobbits são seres muito pequenos, menores do que os anões. São de boa paz, sua única ambição é uma boa terra lavrada e só gostam de lidar com ferramentas manuais. Este livro tem como personagem central o hobbit Bilbo Bolseiro. Ele vive muito tranquilo até que o mago Gandalf e uma companhia de anões o levam numa expedição para resgatar um tesouro guardado por Smaug, um dragão enorme e perigoso.
Os dragões são as mais preguiçosas das criaturas míticas. Smaug , e outras feras aladas como ele, encontram um tesouro, sentam-se sobre ele e tiram um cochilo de dezenas ou centenas de anos. E só porque eles são enormes, escamosos, cuspidores de fogo e podem atacar a partir do céu, fica meio complicado para os homens (ou anões, elfos, hobbits, magos, etc) pegar suas riquezas de volta. Mas nós sabemos que no fim, uma vida de preguiça raramente é recompensada.

✔ Canoas e Marolas, de João Gilberto Noll
Na ilha, há um rio caudaloso e encorpado. Há um menino com jeito de índio, a vagar pelas ruas. E há um homem em busca de Marta - a filha desconhecida. São estes os elementos que o talento de João Gilberto Noll combina para construir sua narrativa sobre a preguiça. No seu texto de incomparável poesia, Noll dá um novo tratamento ao tema, mostrando o mais indolente dos pecados capitais como uma grande metáfora do desalento e apatia do homem contemporâneo.
Escrito durante um período de isolamento em uma ilha de Santa Catarina, essa é mais uma obra do autor já conhecido por confrontar o leitor a convenções sociais estabelecidas, em obras incomodativas. Deve mesmo ser muito difícil escrever sobre a preguiça, ainda mais de encomenda.

✔ Da Preguiça Como Método de Trabalho, de Mário Quintana
"A preguiça produtiva é na verdade o método de trabalho da poesia", escreve Quintana. Ela cria o tempo lento - observador, reflexivo, imaginativo - que possibilita o nascimento (ou renascimento) tanto do poema quanto da conversa inteligente entre amigos. O elogio do poeta à preguiça combina-se à rejeição de qualquer discurso grandiloquente.
Trata-se de um espaço-tempo antieconômico e antiutilitário, que permite o abalo no bom senso, abrindo novos horizontes de percepção, dentro do devaneio, da insônia e do sonho. Buscar uma ética da simplicidade é tão forte para o poeta que ele chega a desejar um mundo em que o espaço poético fosse povoado apenas por autores anônimos. No entanto, este é um livro em que a assinatura singular de Quintana apresenta-se em potência máxima, expondo suas múltiplas ramificações, assim como desvendando suas próprias condições concretas de existência e sua rede de relações intelectuais e afetivas.