quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Solução Problemática

ATENÇÃO: Os eventos do conto abaixo antecedem o conto “Hora não Marcada”

Ela tentou fingir surpresa com as batidas na porta da frente, mas de certo que já esperava por aquilo. Desceu a escada de madeira com passos pesados que ecoavam por toda a casa, totalmente despreocupada com o alto barulho que produzia, estava sozinha e a ausência de seus pais foi cuidadosamente planejada para coincidir com a esperada visita.
Parou em frente a porta e se recompôs, passou as mãos pelos cabelo e conferiu o vestido negro, respirou fundo e segurou a maçaneta, mas antes de girá-la não se conteve e conferiu o outro lado pelo olho mágico. Ela encontrou um Aurélio abatido, de olheiras profundas e com um olhar desesperador, esperou até que ele armasse uma nova investida a porta e então abriu.
-Aurélio?!
-Eu preciso falar com você. - Ao dizer isso ele adentrou a casa sem nenhuma cerimônia ou convite prévio. – Não vi o carro do seu pai na garagem, você está sozinha?
-Sim,...Todos foram a uma festa da empresa do meu pai. Você está bem?
-Na verdade não. Acho que preciso da sua ajuda.
Ela o conduziu até a cozinha onde se serviram de uma cerveja, Aurélio virou o primeiro copo de uma vez e logo precisou enchê-lo novamente, ela observava tudo em silêncio, estava dando espaço para que ele se sentisse a vontade e se abrisse. Era visível que ele não dormia há dias, provavelmente estava se mantendo a base de estimulantes, café, drogas de farmácia, talvez até cocaína. A primeira garrafa foi esvaziada sobre o silêncio de ambos, e antes que ela abrisse a segunda, Aurélio parecia já ter conseguido reunir toda força necessária para contar o motivo da sua visita ‘inesperada’.
-Olha,...eu nem sei direito por onde começar...
-Que tal do começo.
-Certo. Escuta... eu sei que provavelmente você deve me odiar, eu já falei muita coisa que deve ter te magoado ...
-Bruxa!
-Como?!
-Foi assim que você me chamou durante todo o ano do curso pré-vestibular,...bruxa!
-É , eu sei. Me desculpa, eu sei que fui um tremendo idiota. Me perdoa, mas é que você vivia vestida de preto, desfilando com aqueles livros bizarros e sem falar com ninguém do cursinho. Espero que me entenda, era só brincadeira, é que eu não acreditava nessa coisa de espíritos ...
-Não acreditava? Porque? Agora acredita?
Aurélio precisou virar mais um copo para continuar com aquela conversa, não seria fácil se humilhar para a esquisitona do curso, mas no momento ela não dispunha de muitas opções, não dava tempo para procurar entender a ironia do destino, tentou driblar as agulhadas de suas palavras ásperas e apelar com seu sofrimento.
-Olha pra minha cara, eu sou a sombra do que era, estou sem dormir há dias...- As lágrimas brotaram dos olhos surtados de Aurélio e lavaram suas olheiras, o choro atrapalhava sua fala, mas ele continuava a falar, precisava continuar se quisesse sair dali com o que veio buscar, uma solução - Eu simplesmente não consigo encontrar outra explicação para o que está acontecendo comigo. Você sempre foi metida com esses lances de feitiçaria, acha que pode me ajudar?

Eles subiram até o quarto dela e levaram a terceira garrafa de cerveja junto. Aurélio se sentiu envergonhado e indigno de ser amparado por alguém que fora alvo de suas ofensas durante um ano inteiro de curso pré-vestibular, mas orgulho estava fora de cogitação naquele momento.
-Pode deitar na cama para descansar enquanto eu procuro o livro certo.
Ele obedeceu prontamente, se esticou na cama e suspirou profundamente. Se não tivesse tão fatigado talvez Aurélio reparasse que todo o quarto fugia e muito do que seria o convencional para uma garota daquela idade.
Ela não demorou muito com os livros, mas foi tempo suficiente para que Aurélio caísse em sono profundo. Com muito cuidado ela tentou acordá-lo, mas mesmo com toda sua delicadeza ele saltou da cama assustado e conferindo o horário em seu relógio digital de pulso.
-Você conseguiu? Achou o tal livro que vai me ajudar.
- Sim. Mas escute Aurélio, bulir com o mundo espiritual é uma tarefa árdua que exige muito do condutor do ritual. Permitir que você faça uma evocação nesse estado seria o mesmo que te dar a chave do carro após uma noite inteira de bebedeira, é muito perigoso.
Ele conferiu novamente o relógio antes de responder.
-Vou ter que correr o risco, se eu passar mais uma noite assim,... eu vou acabar enlouquecendo.
-Vendo o seu estado, não duvido disso. Mas eu tenho uma idéia, é melhor que você durma aqui para se recuperar. Posso te garantir que nenhum mal te incomodará nessa noite enquanto você estiver no meu quarto, e amanhã, com a ajuda desse livro você estará pronto para encarar esse problema de vez.- ela joga o livro que cai na cama ao lado de Aurélio- Sei que leitura não é um dos seus hobbys, por isso marquei a página do ritual para te facilitar a vida. E então? Que tal minha idéia?
Parece que ele esperava essa proposta desde que entrara na casa sem ser convidado!
Na manhã seguinte a idéia já não parecia ter sido tão boa, mesmo no limite da exaustão de Aurélio, ela o estimulou a ponto de fazerem sexo por horas, sabotando a idéia inicial que visava seu descanso. Ele levantou da cama, mas mau conseguia se manter em pé, suas pernas tremiam buscando se firmar.
Meio tonto pela fadiga ele tentava se vestir em silêncio, não seria difícil sair da casa sem ser visto pelos pais dela que chegaram bêbados da festa com o nascer do sol.
-Não se esqueça do livro querido.
Aurélio se desequilibrou com o susto enquanto vestia suas calças, cambaleou alguns passos pra frente e se apoiou na escrivaninha derrubando uma pequena caixa de madeira no chão que se abriu revelando um punhal ornamentado em seu interior.
-Precisa de ajuda para se vestir honey? Rsrsrs!
-Não, pode deixar,... eu só levei um susto quando você falou, estava evitando te acordar. Eu preciso ir.
-Sim,...eu sei.
Prendeu o punhal no cinto e o cobriu disfarçadamente com a camisa, achou que a arma poderia lhe ser útil caso o livro falha-se, em seguida recolocou a caixa de madeira cuidadosamente na escrivaninha.
Foi até a beirada da cama e se abaixou para pegar o livro.
-Prometo que te devolvo.
-Não será necessário,..eu não preciso mais dele.
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Comentários
3 Comentários

3 comentários :

  1. Sensacional!!!

    Afinal o feitiço virou contra o feiticeiro.

    hahaha!!

    Bom restinho de semana!

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  2. *-------*
    UAU!!!
    Ficou muito bom mesmo ^.^





    ;*

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  3. "Aurélio precisou virar mais um copo para continuar com aquela conversa, não seria fácil se humilhar para a esquisitona do curso, mas no momento ela não dispunha de muitas opções, não dava tempo para procurar entender a ironia do destino, tentou driblar as agulhadas de suas palavras ásperas e apelar com seu sofrimento..."


    É por essas e outras que digo : o tempo nos torna traidores de nós mesmo.O que antes era mera idiotice, agora, pode ser a salvação. O tempo é quase como uma criatura louca. E pra entender isso é preciso maturidade, [re] avaliar comportamentos e exercer o que melhor herdamos da raça humana. Ou não. Isso vai da compreensão de cada um . O tempo consome tudo e as vezes o melhor de nos. Somos aquilo que o tempo transforma e quando percebemos isso, entendemos também que quem faz a bruxaria somos nós, ainda que dormindo com o inimigo pra acordar supondo que estamos curados.


    1 beijo...Agora, só um. mesmo.. o outro só quando a tensão passar.

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