terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Reencontrando velhos amigos .3



8 de fevereiro de 2011
Meu tempo por ali estava acabando e eu mal tinha visto a metade das pessoas que deveria. Mas os indesejáveis, esses sim me encontravam em qualquer esquina que eu dobrasse. Eu precisava de notícias dos que ainda estavam por lá, dos que não enlouqueceram naquele hospício como meu amigo Frederico. Eu sabia que Marcelo, Estevão e Fernando permaneciam no mesmo lugar, todos mortos e enterrados no mesmo cemitério da cidade, pensei em visita-los também, quem sabe levar flores, mas tive medo de encontrar alguma cova aberta com meu nome na lápide e acabar ficando por lá mesmo... caras de sorte.
Elas vinham. Oh, sempre vinham ,..as notícias, embaladas, requentadas, deformadas, mal contadas, recontadas, de todos os cantos, de todas as vítimas. Eu apenas parava e ouvia, acompanhava como uma novela, a novela da minha vida. E lá vinha mais um pouco delas.
-Olha só quem os maus ventos trouxeram de volta ao inferno.
-Não se anime muito, estou só de passagem. Você continuará queimando sozinho por aqui enquanto eu dou o fora desse lugar direto para a terra do nunca.
-Está a muito tempo por aqui?
-Mais ou menos, algumas semanas talvez. Mas já estou pra sair fora, já cumpri minha pena por aqui.
-Já viu todo mundo? O pessoal das antigas.
-Bem, alguns. A maioria continua atolada em tanta merda que fujo deles mudando de calçada quando sinto o cheiro vindo ao longe.
-Pois é, eu sempre digo que você e o Marcelo foram espertos o suficiente para comprarem passagens pra longe daqui. Pena que a dele foi só de ida!
 Eu não achava necessário ‘ressuscitar’ nem o assunto e muito menos o defunto.
-Entendo,... mas me fale sobre os vivos. Os que não tiveram colhões para sair daqui de um jeito ou de outro. Ou seja, pessoas como você!
-Hehehe,... sempre o mesmo.

Enquanto ele recitava sua retrospectiva, antigos eventos repassavam em minha cabeça, foi como um verdadeiro exercício para a minha fraca memória que precisou lembrar-se de cenas, fatos, lugares, nomes e o pior de tudo,...de pessoas. Eu não estava certo se queria mesmo isso.
-Você já encontrou o Fred?
-Ainda não, mas pretendo passar na casa dele antes de ir embora. Como ele está?
-Cada vez pior. A esquizofrenia se acentuou muito, tá quase impossível manter um diálogo com ele.
-Ele ainda bebe muito?
-Religiosamente uma garrafa de conhaque por dia!
-Eu adoro aquele cara. Eu costumava passar horas sentado no sofá fumando, só vendo aquele cara falar. Ele era um gênio!
-Pois é. E como um gênio, está tendo o mesmo fim de todos como ele,...enlouquecendo.
-É,... ‘Quem dera eu fosse burro, não sofria tanto’
-Isso é Raulzito, não é?
-Só mais um gênio que enlouqueceu, meu amigo.
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Comentários
3 Comentários

3 comentários :

  1. Não sei se tem algo a ver, mas seu texto me lembrou reencontros de cidade do interior, onde a vida quase nunca muda e todo mundo sabe da vida de todo mundo. Melhor se sentar no boteco, em uma dessas esquinas.

    Gostei daqui.

    MeninaMisteriosa

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  2. Quanto tempo que não passeio em seu blog. O que encontro por aqui tá cada vez melhor :)
    Visite-me também: http://www.superlativo-iap.blogspot.com
    twitter: @jehniz
    bjin;*

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