sábado, 9 de abril de 2011

Oferta sem Procura.

Eu esperei o miserável por cerca de uma hora, esse era o problema de quando eu cumpria o horário marcado, as outras pessoas nunca tinham a mesma complacência. A atendente na portaria havia me oferecido um lugar na sala de espera para que eu pudesse aguardar sob o ar condicionado, mas preferi recusar a oferta e esperar do lado de fora, onde eu poderia fumar.
Logo que o carro luxuoso dobrou a esquina ao longe, eu já soube que estava nele o culpado por eu estar de pé, e com apenas meia xícara de café no estômago, naquela hora da manhã. Sem me decepcionar, o veículo diminuiu a velocidade quando passou por mim, e ao invés do condutor, eu só pude ver o reflexo de minhas olheiras no vidro escurecido. Ele estacionou, e de dentro saiu um homem gordo de cabelos brancos, fui ao seu encontro.
-Bom dia. Eu vim a respeito da vaga.
-Ah sim, claro,claro. Você é o rapaz que o Laurindo me indicou?
-Creio que sim senhor.
-Vamos entrar. Já está esperando faz muito tempo?
-Não muito,...senhor.
Entramos na sala de espera da atendente e inconscientemente trocamos olhares que fingiam ser aquele o nosso primeiro contato.
-Bom dia Dona Rosa, o Júnior já chegou?
-Bom dia Senhor Juarez. Ele ainda não chegou.
-Obrigado.- virou-se pra mim- Então você espera um pouco até meu filho chegar. Ele que cuida dessa parte na empresa. Senta aí e fique a vontade, ele já deve estar chegando.
Ele se dirigiu a uma porta no corredor e eu me sentei no sofá da sala. Me senti um idiota por voltar ao marco zero da situação e decidi naquele momento que eu não gostava muito do tal Júnior.
O clima entre os funcionários mudou quando o carro de Júnior, ainda mais luxuoso que o do pai, estacionou na garagem da empresa. As risadas cessaram e os empregados aumentaram o ritmo de trabalho, deduzi que eu não era o único que não curtia aquele cara por ali. De dentro do carro saiu um gordo de cabelo castanho, ele cruzou a sala de espera sem sequer notar que minha bunda ocupava um dos lugares no sofá, apenas Dona Rosa parecia feliz em vê-lo, pois sorriu ao desejar um ‘bom dia’ para o chefe mesmo recebendo o silêncio como resposta. Deduzi que ele deveria traçar aquela morena de alguma forma.
Já se somavam duas horas de espera quando o telefone sobre a mesa tocou, e na chamada os patrões solicitavam a minha presença.
Quando entrei na sala fui recebido pelos dois, pai e filho, eles me esperavam do lado oposto de uma enorme mesa. O pai tentou me receber com simpatia, mas o filho queria mostrar firmeza, estava decidido a impor um respeito de chefe antes mesmo que se acertasse que eu ficaria com a vaga ofertada. Não me incomodei com sua atitude, ele queria se portar como meu superior, e eu já o odiava como tal, estávamos quites.
Júnior falou bastante. Durante os próximos 40 minutos ele procurou valorizar o trabalho, tentava de todas as formas me convencer de que eu estava perante uma oportunidade unica na vida, a de trabalhar para a empresa de seu pai que começara com um simples comércio no centro e hoje já contava com 3 filiais espalhadas pela cidade. O assunto já se diluía e ele não chegava na única parte que me interessava daquela balela toda.
Quando pai e filho se entreolharam e se ajeitaram em suas cadeiras, eu percebi que chegara o momento.
-Bem, o que nós pagávamos para o rapaz que trabalha com a gente anteriormente, era isso...
Com a caneta rabiscou alguns números em um papel e o empurrou em minha direção, na hora percebi que um valor que não podia ser dito em voz alta não poderia ser um bom sinal. Olhei para o papel, mas continuei estático.
-A gente pode colocar um valor a mais aqui, por você ser indicação do Laurindo...
Ele retomou o papel e acrescentou cerca de 5% ao valor escrito anteriormente, fez alguns rabiscos indicando uma conta e anotou o resultado final. Dito isso, não tínhamos mais o que conversar, agradeci e dei o fora dali, ficou combinado que eles me ligariam.
Voltei para casa a pé, porque não achei que valesse a pena gastar dinheiro para o ônibus novamente.

Cheguei exausto e faminto, no caminho comprei alguns pães e agora devorava um deles recheado com ovo. Já faziam três horas desde que eu tinha cruzado pela ultima vez a sala de espera. Mas tamanha era a minha ansiedade que acabei ligando para a empresa.
-Alô?! Junior? Eu sou o cara que esteve aí mais cedo.
-Opa! Que bom que você ligou, eu já ia te ligar. Gostei de você rapaz, a vaga é sua.
-Verdade? Bem,..hãn,..puxa. Mas na verdade eu liguei pra dizer que infelizmente eu não vou querer o emprego.
-Como assim? Mas porque? O que aconteceu?
-Acho que o padrão da sua empresa não se encaixa no meu perfil. Tenha um bom dia.
Fui dormir para tentar recuperar o pouco que me roubaram naquele início de dia.
Feliz por ter escapado de um mal ainda maior.
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Comentários
2 Comentários

2 comentários :

  1. Oferta sem procura é realmente um bom título hahahha

    Cara, há algo mais odioso do que entrevista para emprego ou trabalho? rs

    A crônica, só pra variar, está deliciosamente bem trabalhada... Adorei!!!

    E além de odiar o junior amei o final... Dos males o menor!!!

    Beijocas-sempre-fãs rs

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  2. Entrevistas de emprego são maçantes!

    É um um conjunto de desgaste físico, emocional e psicológico que a galera dos direitos humanos ainda nem se deu conta!

    Redações nas quais eles avaliam até como está sua vida sexual (é sério isso) e pessoas muitas vezes menos qualificadas que você (geralmente de consultorias terceirizadas), te entrevistando.

    Não é fácil!!

    Muito interessante o ponto de vista do texto. Às vezes as pessoas querem tanto um emprego e querem tanto ser "aprovadas" pelos avaliadores que se esquecem de fazer o mesmo e avaliar se a empresa se encaixa no seu perfil.

    Muito bom!

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