quarta-feira, 15 de junho de 2011

A péssima localização do balcão de um bar

O lugar não era lá muito agradável, mas era limpo o suficiente para se dar um check-in no foursquare sem constrangimento.A prova disso é o fato de todas as mesas do lugar estarem ocupadas por homens que pacientemente aproveitavam seus horários de almoço para degustarem suas refeições, o que me forçou a me contentar em sentar no balcão. Eu sabia disso por causa de suas vestimentas, sapatos engraxados, calças bem alinhadas e blusas sociais limpas e passadas, algumas até acompanhadas por gravatas. Seus pratos eram enormes, assim como a garrafa de refrigerante que dividiam, talvez proporcionais ao tamanho de suas fomes, ou de seus fardos, quem sabe.
Eu estava no balcão, de bermuda e chinelo, na pior das posições sociais de um bar, servido apenas de um hambúrguer, acompanhado de uma lata de refrigerante e o meu tradicional mau humor. Do outro lado, onde ficavam as mesas, o som dos talheres em contato com os pratos e dentes era onipresente, corta, engarfa, come, corta... o mesmo lado de onde vi surgir pela beirada da calçada uma menina maltrapilha, de certo uma pedinte que corria seus olhos pelo ambiente à procura de uma vitima para sua mendicância.
Através da lente dos meus óculos escuros percebi quando o olhar da garota voou baixo por entre os bem apessoados que devoravam seus pratos ‘executivos’ e pousou no balcão, em minha direção, e por alguma razão estúpida e insensata a figura maltrapilha se arrastou pela rua contornando toda a esquina do lugar para me abordar. Pelo reflexo de uma TV desligada que estava na minha frente, eu observava ela se aproximar pelas minhas costas, ainda sem acreditar no que estava prestes a acontecer.

- Ei, moço! Paga um Guaraná pra mim?
Ainda fitando apenas o reflexo da TV, respondi:
-Você tá com sede? Então bebe água que é de graça.
-Então me dá um pedaço do seu sanduiche?
Respirei fundo.
Nesse momento senti que aquela pobre criança precisava de alguma orientação ou então não sobreviveria muito tempo nesse mundo cruel.
-Porra! Mas porque diabos dentre todas as pessoas desse lugar, você acabou concluindo que eu era a pessoa mais indicada para te ajudar? Ta vendo aquele careca ali? Presta atenção, aliança de ouro, relógio no pulso, chave de carro sobre a mesa e terno postado sobre a cadeira, ele não comeu nem metade do que pediu e já está palitando os dentes, ele sim poderia quebrar seu galho com a bela sobra do bife com fritas que ele pediu. E, olha! Ele tem um belo par de sapatos bem engraxados, agora olha pros meus pés, o que vê? Chinelos! Chinelos porra!! O que me diz disso?
-...

Ela apenas me escutava estática enquanto olhava para todos como se tivesse a procura de algum tipo de socorro.
-Escuta,... a única exigência para se ser pobre nessa vida, é ser inteligente. Ou você fica mais esperta ou é melhor encontrar uma maneira rápida de ficar rica.
-Err,..desculpa. É que eles –apontou para os atendentes da lanchonete- não me deixam chegar até as mesas, eu só consigo chegar em quem está aqui no balcão.
-Oh sim, os malditos balcões. Péssima localização.

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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. geralmente prefiro o balcao. exceto quando estou sozinha e nao quero ser incomodada rsrss.

    eh q o balcao as vezes passa uma ideia de "disponibilidade", vc nao acha? ;)

    beeeijo
    .
    .

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