sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Uma pausa para o cigarro alheio

Como sempre, eu estava com pressa. Nem sempre para chegar ao meu objetivo, mas simplesmente para evitar ao máximo qualquer contato com as pessoas lá fora. Para isso eu conto com a estratégia de levar o meu dinheiro contado, uma garrafa de refrigerante e um maço de cigarro, oito reais e uns quebrados cuidadosamente separados em moedas de cinco centavos. O suficiente para que eu efetuasse a minha compra em um tempo hábil com o mínimo de desgaste social desnecessário.
No caminho executei meu último cigarro. Acendi e sorvi a pureza do primeiro trago.Procurei uma lixeira por perto para depositar a embalagem vazia e percebi que tudo nas proximidades era de certa forma um lixo.
Com os dentes um vira-lata contribuía rasgando um enorme saco preto e espalhando todo seu conteúdo a procura de comida. Pude ver uma embalagem de sorvete, algumas velhas revistas de fofoca , restos de comida e um absorvente feminino usado, imaginei que pertencesse a alguma solteira que descarregasse toda a tensão sexual em comida.
O cão escolheu o absorvente como aperitivo. 
Formei uma pequena esfera disforme com a embalagem do cigarro e a atirei bem no focinho do bicho que recuou e me olhou assustado.
-Me desculpe amigão, mas você sabe o que dizem! ‘O que é do homem o bicho não come’!
Acho que ele entendeu a premissa, pois saiu dali as pressas com o rabo entre as pernas e por pouco não foi atropelado por um carro ao atravessar a rua.

Foi então que me apareceu esse sujeito. Eu o rotularia como um ‘Punk de Butique’ mas aposto que existe um termo mais moderno para definir o tipo. Algum termo que eu com certeza desconheço. 
Suas roupas, embora customizadas, eram de fino trato. Ostentava um tênis de cores berrantes e sem nenhuma marca de desgaste, provavelmente os retirou da loja ainda essa semana. Pelo Corpo exibia tatuagens e piercings que deveriam ter custado por volta de três meses do meu aluguel.
Eu não tinha nada a tratar com alguém daquele tipo. Então o que ele poderia querer comigo?
-Com licença amigo.
-Humm...
-Você pode me arranjar um cigarro destes?
-Está sem sorte. Esse foi o último, pode perguntar pro vira-lata do outro lado da rua.
-Então você poderia me dar o finalzinho desse ai que está fumando?
-Desse? Mas eu acabei de acender.
-Eu espero.
Aquela resposta parecia uma piada, mas pelo seu olhar era certo de que estava falando sério e realmente pretendia ficar ali postado esperando o ultimo suspiro do meu ultimo cigarro.
Resolvi entrar no jogo.
-Ok. Que seja então.
E durante três longos minutos foi assim. Eu fumando meu cigarro enquanto ele esperava pacientemente pela sua vez, observando o tabaco queimar em silencio.

A brasa já se aproximava do filtro quando ele não resistiu e quebrou a monotonia.
-Aí,...esse finalzinho tá bom pra mim. Já quebra um galho.
Formou uma espécie de garra com os dedos indicador e polegar para receber a parte do cigarro que, teoricamente, lhe cabia.
Puxei o último trago com todas as forças dos meus prejudicados pulmões e arremessei a guimba em direção ao absorvente. O olhar do sujeito acompanhou o trajeto desiludido. 
Fui sensato e expliquei  minha atitude.
-Sabe de uma coisa amigo,...mudei de idéia.
Segui meu caminho, afinal eu ainda tinha que encarar a mulher do caixa da padaria...
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Comentários
3 Comentários

3 comentários :

  1. Excelente texto!! Ri alto no final!!

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  2. Muito interessante, consegue criticar sem escrachar... O fim é inesperado, fico imaginando a cara do rapaz... rs

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