terça-feira, 25 de outubro de 2011

O lado que ninguém viu da Violência Infantil

É notável que a quantidade de casos de violência infantil vem aumentando nos últimos anos. Basta ligar a TV num noticiário sanguinolento desses que passam bem na hora do almoço que você verá algum pai/padastro drogado/bebado que bateu em alguma criancinha de poucos anos de idade ou até mesmo meses. É triste, mas isso está acontecendo. Não sei de quem é a culpa, como combater ou se isso sempre aconteceu e agora fica mais à mostra devido à quantidade de câmeras ou gosto questionável dos tais noticiários. Não sei. Mas sei que essa não é o único tipo de violência infantil que existe e sei que eu fui vítima de uma delas.
Antes que vocês comessem a me chamar de coitadinho e aos meus pais de monstro, devo avisar que você -leitor(a)- provavelmente foi vítima do mesmo tipo de violência e nem sequer parou pra pensar nisso.

Lembra quando sua mãe cantava aquela canção 'Nana Nenem'? Ela não cantava, meu caro. Ela ameaçava! Vocês podem até ter levado tudo aquilo na esportiva, mas assim que ela cantarolava "Nana nenem, que a Cuca vem pegar..." eu fechava meus olhos e fingia que estava dormindo só pra não ter que encarar essa tal de Cuca. A hora de dormir nunca foi fácil pra mim.
Outra música que sempre soube que era uma ameaça era aquela do boi da cara preta. Maldita música. Cantavam "Boi, boi, boi. Boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta" e faziam uma careta da porra. Claro que eu sentia medo como qualquer criança e apesar de estar quase me cagando , me segurava e fazia cara de quem tá nem aí com aquela ameaça. Até hoje tenho medo dos bovinos. Não me pergunte medo de quê, sei que tenho medo. Deve ser por isso que como carne com um sorriso no rosto, menos um bovino no mundo. 
Outra coisa que me deixava com a pulga atras da orelha eram aqueles contos de fadas. Nunca sabia quando eram fábulas ou baseados em fatos reais. Sempre me colocava no lugar das personagens e acabava me empolgando ao ponto de me sentir na própria fábula.
A estória de Joãozinho e Maria é um bom exemplo. Fiquei aterrorizado quando ouvi aquilo. Tudo finalmente fazia sentido. Consegui instantaneamente entender o que acontecia comigo quando ia à casa da minha avó, tias e amigas da minha mãe. Elas queriam me engordar o mais rápido possível. Só isso fazia sentido. Minha mãe era cúmplice, acho até que ela era a cabeça, só não tinha coragem de fazer tudo sozinha, deve ser algo muito difícil empanturrar o próprio filho de comida até o ponto de abate. É aí que entravam as outras, um rodízio elaborado de anfitriãs, cada uma com refeições gigantescas e sobremesas suficientes pra dezenas de crianças. Eu sabia do plano delas, mas não conseguia resistir. 
Mesmo depois de decifrar toda aquela farsa, eu não conseguia rejeitar aquela comida. Entrei em crise, não sabia em quem confiar. Minha vida se tornou um inferno. Não tinha mais ninguém. Não conseguia viver daquele jeito, tinha que por um fim naquilo tudo. Então, com muita calma, elaborei um plano que, ou me faria fugir de casa ou, devolveria minha paz. Eu tinha que comer um pedaço da parede da casa de alguma delas, se tivesse gosto parecido com o de biscoito, tava fudido.

Minha avó era a próxima no rodízio. Esperei pela hora do almoço como um condenado espera a hora da cadeira elétrica. Chegara a hora da verdade. Enquanto me preparava pra ir pra casa dela me despedi dos meus brinquedos, do meu quarto, meu vídeo game. Poderia ser a ultima vez que os via. 
Banco de trás, minha mãe no volante. Chegamos à casa da véia. Ela na varanda, sorridente, seu plano estava perto do fim, mais dois quilos e eu virava oficialmente obeso. Ritual de sempre, comida até onde a vista alcança, tudo brilhando de manteiga. A melhor refeição da minha vida. Triste, mas gostosa. Uma mordida, uma lagrima. Minha mãe me perguntou várias vezes se eu estava bem. Quase cheguei a acreditar que ela se importava comigo, mas me lembrei que ela se interessava na qualidade da minha carne. "Boi que morre só, não se come" é o que dizem. 
Terminei o almoço. Manjar de ameixa na sobremesa. Chorei mais um pouco, as duas me olhavam assustadas. Peguei a colher e comi o manjar o mais lentamente que pude, devo ter levado quase meia hora pra terminar o pedaço. Terminei e sai da mesa de cabeça baixa. 'Ele está muito estranho, melhor deixar ele só' disse minha avó para minha mãe. 

Fui pro quarto de visitas, peguei uma chave de fenda e meti na parede. Atrás da tinta azul havia um material granuloso, meio amarelado. Farelo de milho? Só havia um jeito de descobrir. Raspei um pouco com a chave de fenda e meti língua. Era barro. Que gosto horrível! Comecei a tossir, tossir fuderosamente, minha mãe veio em ver o que era e me viu segurando uma chave de fenda, a parede raspada e minha língua amarela. Ela me deu água, me deu uma pisa e me levou pra um psicólogo.
Também tenho medo de psicólogos, mas isso é outra estória, conto depois.

Twitter @negodobroz
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Comentários
3 Comentários

3 comentários :

  1. Que loucura!
    Você ainda está tão desconfiado assim?
    No final das contas, elas conseguiram te engordar/comer? rs

    Bjosss!

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  2. Cara,...percebi que se minha mãe não fosse solteira, trabalhasse fora e portanto sem tempo para me contar qualquer tipo de história que não suas desgraças rotineiras do trabalho,... eu poderia ter bem mais problemas psicológicos do que os habituais. rsrs
    Excelente!

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  3. Aí hoje tu enche tua caveira de cachaça pra o recheio ficar elegante... hahaha praticamente patê de fígado de pato! Trés chic!

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