quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Onde procurar os segredos de um parlamentar

A campana já durava uma semana, tempo mais que suficiente para que ela catalogasse toda a rotina do corpulento Deputado Estadual Luiz Pedro Caldeira da base governista. Agora por exemplo, bastava que ela esperasse sentada em seu escort XR3 branco conversível por mais alguns minutos até que o político terminasse seu almoço no restaurante italiano habitué, e logo ela teria as condições perfeitas para executar seu plano.

O nobre Deputado não dispensa em ter sua digestão em um luxuoso prédio da área nobre da cidade. Ela espera que essa seja a perdição de seu alvo. O que ele faz lá dentro é um mistério, mas também irrelevante para os interesses de Suzy Ventura que acabou de ligar o carro fora de linha para seguir o moderno sedan de Luiz Pedro que parte por uma transversal em direção à seus segredos.  A mulher de pele morena e pesados cabelos negros maneja o volante com maestria seguindo o rastro do Deputado, três curvas à esquerda e mais duas à direita e os veículos adentram por uma rua vazia beirada por um morro pedregoso de um lado e o muro sinuoso de uma antiga indústria do outro, situação prevista pela perseguidora que se prepara para agir conforme tantas vezes ensaiou mentalmente. Era a hora e local exato para a abordagem. Praguejou pelo que estava prestes a fazer com a lataria do Escort. Odiava a idéia, mas estudou os passos do deputado por tempo suficiente para saber que esse era o único momento e a única maneira de chegar perto do inacessível político. Simulando uma falta de prática ao volante que certamente não condizia com Suzy, ela guinou o carro em uma infeliz ultrapassagem que culminou em uma abrupta batida lateral entre os veículos. Luiz Pedro freou o sedam imediatamente enquanto Suzy seguiu com o Escort por mais alguns metros enfeitando o acontecimento com derrapagens de pneus e parando com o carro atravessado logo à frente, bloqueando a rua.
O deputado sai do sedan batendo a porta, visivelmente irritado. Primeiro olhou para o estrago da batida, coisa pouca, mas ainda assim estava motivado em fazer valer sua posição política para pressionar o culpado a pagar por todo o prejuízo, por menor que fosse. Todo o ar que Luiz Pedro arrecadou nos pulmões para esbravejar ficou inútil depois que ele viu a condutora do outro veículo sair do carro com a bolsa na mão e uma postura grandiosa de quem era a dona da rua. Luiz Pedro soltou o ar na forma de um enorme suspiro.
-Tudo bem com você mocinha?! Foi apenas um susto. Pode deixar que eu arco com as despesas, inclusive as suas se me permite.
O gracejo foi sumariamente ignorado por Suzy que sacou da bolsa uma pequena pistola negra e executou o político com dois tiros certeiros no peito. Luiz Pedro caiu feito uma pedra sobre o asfalto recém recapeado graças aos esforços da oposição do governo.

Uma olhada rápida ao redor e certificou-se de que não havia feito testemunhas. Guardou a arma e iniciou imediatamente sua busca, não sabia por quanto tempo aquele trecho permaneceria deserto.  Começou pela pasta que Luiz Pedro trazia no banco traseiro do sedam, passou pelo porta-luvas, porta-malas e demais compartimentos do automóvel e nada. Correu no corpo estirado de deputado e vasculhou seus inúmeros bolsos, celular, carteira, cartões de crédito, chaves de casa e mais nada. Pensou em como é terrível quando se procura algo que não se sabe exatamente o que é.
O tempo urgia, se o pagamento não fosse tão bom ela já tinha desistido desse serviço estúpido. Tentou se acalmar e relembrar da conversa com o contratante na procura de alguma pista que indicasse o que exatamente ela deveria encontrar.

“-Tá querendo me sacanear? Como eu vou roubar uma coisa que eu não sei o que é e nem onde está?
-É por conta dessas dificuldades extras que você está recebendo o triplo do que de costume.
-A grana não vai valer de nada se eu não conseguir executar o serviço por falta de informação.
-O que eu sei é que vale muito, e olha que eu nem estou falando de dinheiro. Com certeza ele deve guardar em algum lugar bem seguro e longe de suspeitas, e como precisa carregar pra lá e pra cá, cofres estão descartados.
-O miserável deve levar sempre consigo, em algum lugar sem muito destaque. Como ninguém sabe que existe esse objeto, de certo ele deve estar tranqüilo achando que ninguém está procurando por isso.
-Vejo que já está se aprofundando no serviço. Não esquece, é importante que continuem achando que o objeto não existe...
-E pra isso acontecer, o Deputado não pode ficar vivo para dar queixa do roubo.
-Exatamente.”
 ***
Suzy fita o corpo por alguns instantes e resolve apostar em um palpite.
Ela desafivela o cinto e desabotoa a calça de sua vítima. Com um pouco de dificuldade e uma expressão de nojo ela arrasta a veste do homem na altura do joelho, respira fundo e começa uma minuciosa revista na roupa íntima do defunto tentando sufocar a cena inusitada mentalizando a gorda quantia de dinheiro oferecida por esse trabalho que ficava cada vez mais complicado.
-Vamos lá Deputado, onde mais você guardaria essa preciosidade se não com os bagos que o senhor nunca honrou?... hupft...Arghhh, achei! Achei! Pelo menos eu acho que sim.
De um bolso secreto, mal costurado na cueca pelo próprio Deputado, a assassina saca uma pequena caixa dourada de fino trato. Com um movimento do polegar ela destrava o fecho e a tampa abre revelando um pen drive no formato de uma chave.
-Mas que porra é essa!?
Ao longe o barulho de um motor anuncia que um novo veículo começa a trafegar pela rua a tornando menos deserta. Suzy guarda sua descoberta entre os seios e corre para o Escort branco implicando em uma fuga alucinante. Pelo retrovisor do conversível ela ainda pode ver quando um jovem casal alheio ao caso se desespera ao topar com a cena do crime que ela acabara de abandonar.
Mantendo uma mão no volante, com a outra ela sente a pequena caixa entre os peitos, satisfeita pela missão cumprida, mas ainda incomoda por ter se arriscado tanto por algo que não se sabe bem o que é.
O celular alerta sobre uma chamada do contratante. Ela imagina que o canalha já deve ter ouvido sobre a morte do deputado pela freqüência da policia e está louco para colocar as mãos sobre essa preciosidade.
‘O que eu sei é que vale muito, e olha que eu nem estou falando de dinheiro’
Ela desliga o celular sem dar chance para a ligação. Pega um retorno na estrada e muda de direção decidida em descobrir o que se pode encontrar dentro da cueca de um parlamentar.
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Comentários
5 Comentários

5 comentários :

  1. putz! Sem comentários... Vou indicar essa leitura para um amigo.

    Beijos

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  2. O nome do autor? Não está implícito em 'dito pelo MALDITO' ?! :P

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  3. Bem interessante, tem continuação ne?

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  4. ótimo texto!! Espero continuação! ;)

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