terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Crônica do Barro/Macaxeira

O sistema público de transporte do Recife, e o da sua região metropolitana, se baseia no uso de terminais integrados de passageiros, geralmente chamados de integrações. Você paga uma passagem ou ao embarcar em um ônibus ou ao entrar diretamente em uma integração -seja ela de ônibus ou metrô, ou mista- e ganha o direito de pegar qualquer ônibus durante o tempo que agüentar desde que só desça nas integrações. Dentre as principais integrações do Recife temos a da Macaxeira, que centraliza num espaço minúsculo uma tuia de pobres que vêem da parte norte da região metropolitana do Recife, e a do Barro, que centraliza num espaço imenso uma quantidade absurda de pobres que vêem da parte sul e oeste da tal região metropolitana. Ligando-as temos duas linhas: 207-Barro/Macaxeira (BR101) e 202-Barro/Macaxeira (Várzea) .

Lá pelo ano de 2003 havia um garotinho que todos os dias, fizesse chuva ou sol, estava na fila do BR da Macaxeira. Cara de sono, calça jeans, bolsa enorme nas costas, camisa azul marinho, sapato branco. As pessoas se matavam pra furar a fila, mas o nosso garotinho a obedecia fervorosamente. Não era raro chegar atrasado à escola por conta disso. Mas ele sempre entrava no ônibus com direito a escolher onde sentar e sempre, sempre buscava um lugar no lado direito, o lado do cobrador, com acesso a janela. Acho que ele gostava do vento, não sei. A viagem era longa e a paisagem não era das mais belas, mas o povo dentro do ônibus fazia aquilo valer à pena. Quase sempre havia algo novo para se olhar, e quando não havia, os habituais passageiros do Barro/Macaxeira já roubavam atenção do pensativo garotinho.
Havia “o pregador”, sempre usando um terno risca de giz surrado, na mão direita uma bíblia preta e a mão esquerda no apoiador de teto do ônibus. Ele gritava, cantava, falava que quase tudo era pecado, que Deus não estava feliz com o nosso comportamento e que o fim estava próximo, bem próximo. O garotinho não gostava dele. 
Havia a garotinha que vendia confeitos e pipocas e repetia o seu texto duas vezes, uma pro pessoal da frente do ônibus e outra pro pessoal de trás. O garotinho secretamente achava que ela era bonita, achava que se ela tivesse tido a sorte de nascer em uma família rica, seria uma modelo. 
E ainda havia o barbudo fedorento, que sempre aparentava estar de ressaca.
O nosso garotinho chegava sempre sorrindo na escola. Estudava, almoçava, estudava pela tarde também e no começinho da noite tomava o caminho de volta. O ônibus continuava apertado, as pessoas continuavam tentando furar a fila, mas o nosso garotinho não fazia questão de ir sentado, apenas queria chegar em casa logo. Vez ou outra ele tinha a sorte de encontrar uma figura que era capaz de faze-lo esquecer o aperto e o calor daquela condução deplorável. Era um homem negro de uns trinta e poucos anos de idade, barba sempre por fazer e que carregava uma pequena bolsa debaixo do braço. Ele seria um cara normal, não fosse o fato de possuir a maior risada do mundo. Sem sombra de dúvidas era a maior e mais bela risada do mundo. Ele começava a rir com alguma bobagem corriqueira e não conseguia mais parar. Houve um dia que ele riu de uma integração a outra. Todos ao seu redor absorviam um pouco da felicidade que saiam daquele cara. Era uma verdadeira benção para aquele povo sofrido e cansado.

Mas o tempo passou. Estamos em 2010. O pregador não é mais o mesmo. O novo pregador grita muito mais e fala cuspindo. O antigo pregador, se ainda pregar, prega no presídio. Dizem que um dia ele se cansou de pregar e foi pra casa mais cedo e ao chegar no lar, viu sua mulher com um “irmão” de fé da mesma igreja. Ele pegou uma faca de pão na cozinha e desferiu doze facadas contra o irmão e trinta e sete contra a esposa. Tomou banho e foi ao bar da esquina onde bebeu cana até a polícia chegar. 
A garotinha dos confeitos teve um caso com o garoto que vendia picolés. Ela ficou grávida e ele não ficou…por perto, fugiu. Ela continuou vendendo confeitos até seu filho nascer. Quando ele nasceu, ela passou a pedir “ajuda”, o nosso garotinho sempre ajudava quando podia. Seu filho cresceu e já consegui pedir a tal da ajuda sozinho na integração do Barro, enquanto ela tenta algo nos ônibus da vida. 
O cara da maior risada do mundo ainda possui uma bela risada, mas nem de longe se parece com a de sete anos atrás. No passado a sua era tão grande que saltava dele para todos que estavam ao seu redor, hoje ele mal tem alegria pra si mesmo. Seus olhos parecem estar sempre vazios e seu corpo cansado.
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E o nosso garotinho deixou de ser um garotinho. Ele terminou o ensino médio, se fez técnico, trabalhou, passou no vestibular, começou a utilizar o Várzea (202) que passa em frente a universidade. Desistiu da universidade, deixou de usar o 202, passou no vestibular de novo, voltou a utilizar o 202 e está perto de se tornar engenheiro. A verdade é que ele tornou-se um homem de olhar distante, que não mais sente prazer em observar as pessoas ao se redor. Ele acha que isso só traz tristeza e por isso está sempre pensando em algo distante. Vez ou outra ele olha pros garotinhos da nova geração… e fica pensando o que os garotinhos de hoje vêem quando olham pra ele e pensa no que eles dirão quando chegar a vez deles pegar o Várzea.
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. eu simplesmente amei o texto, pego o Barro/Macaxeira (BR-101) todos os dias, por falar nisso faz 1h que cheguei em casa através desse ônibus, com certeza mta coisa mudou, mas ainda temos alguns personagens que valem a viagem.

    Parabéns.

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