terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Nascimento de um escritor

Eu tinha uma mente fértil, era brilhante. Eu a amava, fazia tudo por ela, lhe dava atenção, carinho e aquilo que ela mais desejava, tempo. Ela me retribuía… ah, ela me retribuía! Ela fazia algo que poucas mentes no mundo são capazes, me deixava no controle dos meus próprios sonhos. Você consegue imaginar como é controlar um mundo que obedece as regras que você, e somente você, pode criar? Não é apenas um sonho, é um sonho que você controla! Eu conseguia ver além do que os meus olhos podiam mostrar, sentia coisas que nem um milhão de poetas poderiam descrever. Eu era Deus. Foi prazeroso, foi quase perfeito, por um bom tempo.

Mas, certo dia, o castelo ruiu. Descobri que eu não tinha o total controle do “meu mundo”. No meio dos meus sonhos, uma imagem sempre surgia para me atormentar, um terrível… Caderno. Não era um caderno qualquer, era uma agenda. Ou melhor, era um caderno que eu comprara para fazer anotações diárias, ou seja, uma agenda de macho. 
Fiquei desnorteado com as primeiras aparições do tal caderno, prém depois de certo tempo começou a me irritar, aquilo não fazia parte do trato que eu tinha com a minha mente, me senti traído. Eu não queria encontrar um caderno barato nos meus sonhos! Ele ficava cada ver mais poderoso, suas aparições mais freqüentes e dolorosas. A coisa todo ficou insuportável quando aconteceu o seguinte…

Era noite de uma quarta-feira, final da copa do Brasil. Flamengo Vs Manchete, era a final mais surpreendente de todos os tempos. De um lado estava Romário, em sua última partida, do outro estava eu, o capitão e goleiro que estava há 1247 minutos sem sofrer gols. Foi uma partida emocionante, fiz defesas mirabolantes, defendi sete chutes do baixinho, duas cabeçadas e um pênalti. Nada passava por mim. A decisão foi para os pênaltis… defendi todos os 10 e o meu time conseguiu bater os 10 pênaltis para fora. Tudo dependia de mim. Defendi mais um e fui bater. Tomei distância, olhei pro goleiro e bati com tanta forca que a bola rasgou a rede. CAMPEÃO!!! Pela primeira vez, o humilde Manchete era campeão. Como capitão, fui levantar o troféu… mas não era um troféu…. era o…. caderno!

Eu não agüentava mais: cortava o bolo e o caderno estava lá; levantava o cobertor para ir dormir e… Ele estava lá; mergulhava num lago de águas cristalinas e batia em algo, era ele. 
Precisava fazer alguma coisa, ou descobrir o que o caderno significava, ou simplesmente descobrir um jeito de fazê-lo desaparecer. Mas como iria conversar com minha mente? Auto -hipnose, foi a minha primeira resposta. Não funcionou. Falei com uma amiga religiosa, que disse que quando algo a atormentava nos seus sonhos, ela corria pra igreja e o padre a ajudava. Segui o conselho e  fui rezar. Mesmo sem saber rezar direito, rezei. Nada aconteceu. Pensei que não tinha rezado direito, fui me confessar. Contei ao Padre o que acontecia nos sonhos… E ele não me ajudou muito. Na verdade, ele riu. Riu tanto que eu fiquei a fim de dar-lhe um murro. Minha próxima tentativa foi um psicanalista, o problema continuou como estava, mas o meu dinheiro não. 
Um amigo tentou me ajudar, me disse que a resposta sempre está no problema. Não entendi direito. Mas mesmo assim fui até o caderno. Olhei para a capa por um bom tempo, nada chamou a minha atenção. Na contracapa, tinha um adesivo preto com umas letrinhas miúdas. Forcei a vista e depois de muito tempo, consegui ler: free your mind.
No mesmo dia escrevi o meu primeiro conto, o Sr. da foto.
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Comentários
2 Comentários

2 comentários :

  1. Bem interessante. Acho que todo escritor se sente dessa maneira. Com a idéia de um conto martelando sem parar lá no fundo da cabeça e ela irá continuar até que vc a liberte.

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  2. A verdade é que nós impomos limites à nossa mente. O medo, a insegurança, a descrença em nossa capacidade... tantos fatores que atrofiam a capacidade produtiva que temos. Mas, se vivermos o bastante, chegará o dia em que leremos a capa do caderno e, só então, os grilhões serão quebrados.

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