terça-feira, 5 de junho de 2012

De mal com a morte

Sempre me achei emocionalmente muito diferente do resto da humanidade. Sou capaz de chorar litros com um filme, ficar meio mixuruca por alguma fêmea ou outra, mas acreditava ser incapaz de ser incomodado com a morte dos outros. Quando vejo um motoqueiro espragatado no chão, nem me dou o trabalho de olhar. Gente que levou tiro e se encontra debaixo de um lençol fuleiro só me faz pensar “mereceu”. E até as pessoas com as quais tenho contato não me despertam fortes sentimentos ao partir. Me sinto meio incomodados por ser assim. 
Só fico mal com a morte de alguém quando penso nela por alguma razão, aí sim eu realmente sinto a sua falta. Músicas, atividades, lugares, comidas, cheiros... tudo isso me faz lembrar alguém que ficou para trás. Foi por isso que com o passar do tempo eu desenvolvi a teoria de que eu não tenho um coração de pedra, eu apenas divido a dor que irei sentir em pedaços menores ao invés de encarar tudo de uma vez.

Não sei porquê faço isso. Ou se esta minha teoria está certa. Sei que foi isso que tomei como verdade até um dia dessas. O que me fez voltar a pensar no assunto 'morte', foi ver uma pessoa próxima lutando com todas as forças contra uma doença extremamente filha da puta. É algo complicado de se ver. Algo que me fez pensar em muitas coisas. Vida, morte, filhos, amigos, amor, arrependimentos, prazer, Deus(es). Odeio pensar nessas coisas. Só me deixa cheio de questionamentos. Fiz o certo? Amei quem devia amar? Fui justo? O que vou deixar nesse mundo? Estou preparado para partir? Existe algo depois da morte?
Questionamentos não são ruins, o problema são as respostas. 
Sou pragmático demais para não responder essas questões com o que eu creio ser a verdade. Acho que só existe essa vida. Se existir algum tipo de Deus, certamente não é nada do que as religiões pregam, e eu não tenho sido uma boa pessoa. Nem de longe. Não sou um cara legal. Não dou valor a minha existência, perco tempo fazendo coisas que nem gosto. Me importo com pessoas que não se importam comigo. Sonho com coisas belas e não tento realiza-las. E o pior de tudo, evito fazer coisas que eu realmente gosto por razões estúpidas, dinheiro, saúde, medo de parecer ridículo.  Ajo como outra pessoa para satisfazer pessoas que não são nada para mim. Como comidas sem gostos para prolongar uma vida que não gosto. 
Enfim, estou no caminho errado.

Sinto vontade de ir trabalhar usando a camisa do meu time de coração, rir de piadas infantis, tomar café sem adoçante, beber uma cerveja no almoço, mandar umas três pessoas por dia irem tomar no c*, comer mão-de-vaca, ouvir brega quando sentir vontade de ouvir brega, falar sem medo 'eu te amo' e 'eu te odeio', jogar bola na chuva... e escrever sem medo de ser julgado.
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Comentários
2 Comentários

2 comentários :

  1. Grande texto, uma análise perfeita a respeito da tênue linha que separa apatia de vontade, obediência de anarquia, conformidade de revolução.

    O que teu texto mostra é o desejo, inerente a todos, por mais que a maioria o refreie, de extravasar sua própria sangria, ao invés de sentar morto para sempre esperando o comercial acabar.

    Todos temos vontade de usar begônias gigantes na lapela, comer chantili com feijão, gritar músicas do Garotos Podres na orquestra. O que for. Só alguns de nós, entretanto, cruzam a linha. O resto está aí, comendo capim de marca e esperando o mundo acabar no barranco.

    Grande abraço.

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  2. Me identifiquei muito c/ o texto, arrisco a dizer que ajo assim há muito tempo em minha vida.Sou daquelas pessoas que gosta de um velório,me sinto bem, ali reencontro pessoas que há muito ñ via(parentes,conhecidos. etc..)Em minha terra costumamos "beber" o morto, e até hj ñ existe lugar melhor p/ mim do que 1 bar, portanto a morte ñ me incomoda, ñ interfere....

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