segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Uma conversa de matar

O que relato agora acabou de me acontecer. Enquanto redijo essas linhas, confiro o relógio e posso lhe garantir que tudo ocorreu a pouquíssimo tempo, no máximo há uma hora atrás. Infelizmente a pressa do dia a dia me impede de fornecer maiores detalhes, e logo você entenderá o porquê.
Eu estava em passos apressados em direção a um compromisso. Mesmo com o horário apertado, saí de casa decidido a encarar o trajeto a pé e ainda tinha alguns bons quarteirões pela frente quando fui abordado por um senhor já no final da casa dos quarenta. O homem estava muito bem vestido com cores sóbrias e usava óculos de graus que guarneciam profundos olhos azuis. Tínhamos uma notória diferença de estatura e isso o forçava a olhar pra cima para falar comigo, dando-lhe um estranho ângulo de submissão. 
Quando ele começou a falar, com uma voz quase que sussurrada, logo me preparei para negar mais algum pedido de um morador de rua, alguns trocados, um cigarro, o restinho do meu refrigerante, ou um pouco do que mais se possa carregar com as mãos. 
Sabe como é, se você tem algo, eles vão querer levar um pedaço.
Mas claro que não era o caso, aquele homem certamente precisava de algum tipo de ajuda, mas não das do tipo que eu poderia oferecer. Suas roupas pareciam mais alinhadas que as minhas, seus sapatos bem mais caros e um grande relógio em seu pulso indicava que ele não precisava nem mesmo que eu o informasse das horas, que alias passavam e me deixavam cada vez mais atrasado.

Parei para escutar o senhor, mais por curiosidade do que por sensibilidade, desejando que ele fosse o mais breve possível.
-Com Licença,... Posso te fazer uma pergunta?
-Não sei se pode, mais o senhor pode tentar.
Ele tomou uma bela golada de ar antes de continuar.
-Para onde você acha que vai uma pessoa que comete suicídio?
Emudeci por alguns segundos. 
Eu sempre costumo sair de casa preparado para muitas coisas, mas nunca para algo assim. Aquele pobre coitado precisava de algumas palavras de apoio, e para sua infelicidade, calhou de procurar com a pessoa errada.

Eu senti o destino daquele homem em minhas mãos e o peso da responsabilidade que recaiu sobre as palavras que eu usaria para respondê-lo. E acredite, eu tinha muito a dissertar sobre aquela questão.  Mas diante da pressa da vida moderna, tudo que consegui dizer foi:
-Desculpa amigo, mas no momento estou sem tempo para responder algo tão profundo. Quem sabe em uma outra oportunidade.
Segui meu caminho com um tanto de arrependimento e deixei o senhor lá, parado com suas dúvidas. 
Após alguns passos, parei, arrisquei uma olhada para trás e vi que ele já abordava outro transeunte, provavelmente com o mesmo triste dilema. Queria ter tido mais tempo para gastar com aquele senhor, sinto que deixei escapar uma grande chance de realmente fazer a diferença na vida de alguém.
Agora estou com uma terrível vontade de conferir a parte de obituários dos jornais de amanhã.
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