segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Com a melhor das intenções

Acabávamos de virar a esquina do mercado. Eu e Casimiro compenetrados em uma calorosa discussão sobre futebol, ou sobre qualquer outra coisa banal. Caminhávamos em passos largos e gesticulávamos os braços de forma frenética enquanto discutíamos, disso eu tenho certeza porque Casimiro quase derrubou um tipo estranho que surgiu pelo caminho quando acidentalmente esbarrou no ombro do homem.
Casimiro desculpou-se pelo ocorrido. O tal ‘fulano’ de roupas simples, barba mal feia e dentes mal tratados exibiu um sorriso compreensivo e pôs-se a falar.
-Tudo bem meu jovem. Provavelmente a culpa é minha, como pode ver eu sou cego e estou a mais de meia hora tentando pegar um moto-taxi aqui. Você pode me ajudar?
Não posso confirmar a história da cegueira, mas com certeza aquele cara possuía algum tipo de deficiência na vista. Seus olhos eram tortos de uma maneira engraçada, o que lhe concedia uma inofensiva aparência estúpida,... Mas até aí ele poderia apenas ser estrábico. Também desconfiei da ausência de bengala ou de um cão guia que comprovassem o que dizia.
Casimiro, um tolo de bom coração, olhou em minha direção em busca de aprovação. E eu, um tolo sem coração, imediatamente balancei a cabeça em forma de negação.
Repudiando minha indicação, Casimiro rendeu-se ao pedido do ‘ceguinho’.
-Tudo bem senhor, vamos ajuda-lo.
Opa! Vamos quem cara pálida?! Ai porra Casimiro, porque tu nunca me escuta?!
Sem muita opção, acendi um cigarro e esperei pelo pior.

E passou um, e passou dois, e passaram-se três moto-taxis e nenhum teve a complacência de nos atender. Alguns até diminuíam a velocidade e ameaçavam parar, mas estranhamente aceleravam logo em seguida como se estivessem apenas pregando uma peça de mau gosto.
Nem era tão tarde assim, imagino que por volta de sete da noite. Estávamos em um lugar bem iluminado, em uma avenida principal e o mercado ao lado funcionava em pleno vapor com um intenso fluxo de entra e sai dos clientes. Não dava pra entender todo esse receio dos moto-taxistas em pegar um passageiro.
Enquanto eu mentalmente amaldiçoava a boa ação de Casimiro, ele parecia já ter estabelecido uma espécie de vínculo com o desconhecido. Atenciosamente escutava as ladainhas do homem que não cansava de vitimar como era sofria sua vida de deficiente.
-É impressionante meu amigo, esses canalhas não param pra um pobre cego. É um tremendo descaso com o deficiente. Um absurdo...
-Eu entendo o senhor. Estou vendo a dificuldade que passa...
Sinceramente, eu não me comovia. E Casimiro fazia questão de me mandar olhares repreensivos por essa minha falta de sensibilidade.

Finalmente uma moto encostou.
O piloto levantou a viseira do capacete e exibiu uma expressão desconfiada. Casimiro foi se adiantando em guiar o ‘ceguinho’ até o assento da garupa e explicar a situação para o taxista.
-Obrigado por ter parado companheiro. Já faz um tempo que estamos tentando pegar um moto-taxi aqui, e não tem um espírito de luz que pare pra gente. E olha que o passageiro é esse senhor deficiente visual...
Ao ouvir essas palavras, rapidamente o taxista deu um pequeno impulso na moto movendo-a coisa de meio metro à frente no exato momento em que o homem estava prestes a tocá-la, deixando o ‘cego’ a ‘ver’ navios. 
Logo em seguida disse alto e em bom som.
-Deficiente é o caralho! Esse cara aplica golpe nos moto-taxistas. Todo mundo já manja qual é a dele. É um safado.
Abaixou a viseira e arrancou com a moto.

Casimiro ficou nitidamente destruído, havia depositado tanta esperança naquela sua boa ação e agora se via sendo feito de palhaço, no centro de um picadeiro, tendo sua gafe assistida de camarote pela pior das plateias. No caso, apenas eu.
Não aceitando sua derrota, o golpista ainda tentou uma manobra evasiva.
-Heim?! O que aconteceu? Não vai dar pra ele me levar?... O que foi?
Casimiro me olhou sem reação, e só então eu resolvi tomar algum tipo de atitude perante a situação. Esse era um daqueles momentos em que ter um coração só atrapalha.
-Ele disse que tu é um tremendo ‘um-sete-um’!! Além de cego tu ficou surdo também?!
Demos o fora dali e ficamos assim, Casimiro decepcionado, o golpista frustrado, o moto-taxista poupado, e eu com aquele detestável sorriso de vitória nos lábios.
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