sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Jardineiro Infiel

O Jardineiro infiel
No espaço do meu quintal cabem confortavelmente uns seis carros. Só, no canto, currado pela parede, agoniza um mini canteiro podre repleto de boldos secos, uma aroeira velha que ainda abriga lá seus passarinhos fujões, e umas dracaenas finas, longas, de aproximadamente uns 4 metros cada.
O lance é que o canteiro me deprime... O bairro escroto me deprime, na verdade. Mas aquele canteiro isolado em um mar de cimento, servindo de parque temático para mil espécies de formigas e cupins, pedinte de merda, um adubozinho de vaca qualquer. Putz, aquela coisa parecia comigo. Era um canteiro que ninguém fazia questão de ter, nem olhar, e poucos, analisando cuidadosamente, o chamariam de canteiro. Era mais um cemitério de flores e raízes, como os muitos bairros iguais abandonados na parte estranha da cidade chamada maravilhosa. Um saguão de almas cegas à espera de julgamento (lá vou eu com as frases de impacto).

E então era uma vez uma garrafa de almadén perdida na gaveta de legumes da geladeira, e uma grana de direitos autorais jogada no meu bolso. Fui bebendo o vinho com a grana no bolso, lembrando a porra do quintal. A casa era uma merda, fato, mas não aproveitar o espaço enorme do quintal só piorava tudo. Aquilo poderia ser o meu refúgio! Tudo bem que os novos vizinhos sempre colocam o 'TOMARNOCUCARALHOBUCETA!' antes de suas frases (se comunicam aos gritos em qualquer circunstância), e a vizinha do outro lado berra 'ME LEVA DAQUI! SOCORRO!' para Deus ou para o Diabo, desesperada... Dizem que é Alzheimer. Eu acho que é o corpo sem alma. A alma já saiu, está em outro point, foi passear em Andrômeda, ou Plêiades, voou daqui... O corpo ainda grita querendo ir junto, lógico, mas para a carne humana a terra torna-se absolutamente literal, e seu destino é ser devorada pelo solo. 
Meu canteiro gostaria de um corpo enterrado nele. Seria, talvez, o adubo que ele tanto pede. Enfim, ainda com os gritos e funks, e merdas, de boca estourando os miolos, o muro alto preserva meus olhos e minha “tranquilidade”. O quintal poderia ser um belo refúgio, se fosse bem utilizado.
Corri até a loja de materiais de jardinagem mais próxima, e tive que sair de lá em um táxi. Terra adubada, húmus, tesourão, kit completo para poda e cultivo, oito garrafas de vinho (era promoção na loja ao lado, precisei comprar), sementes, mudas, flores, árvores frutíferas, plantas leguminosas, inseticidas naturais: uma festa.
- O que você está fazendo, agora?
- Jardinagem.
- É sério?!
- É Geraldo, eu já plantei pitanga, laranja, menta, coco anão, caju, manjericão, orégano, tomilho, salsa, pimentão, abobrinha, tomate, amora, tuia, palmeira... até roseira eu plantei.
- Qual o motivo?
- Sei lá... O quintal como está me deprime. Mandei quebrar um pedaço grande do chão, estou trabalhando o solo e plantando a minha reserva florestal particular.
- Legal...
O sol se pôs como em uma cena rara de cinema; o céu ficou alaranjado, revoadas de pássaros passavam sobre minha cabeça procurando abrigo antes do anoitecer. A segunda garrafa estava vazia. O telefone lá dentro tocava sem parar. Minhas roupas sujas e o corpo repleto de terra denunciavam as ações do jardineiro infiel. As mudas se esticavam, pareciam gostar da terra nova. O cheiro era bom. Fiquei feliz.
Enquanto terminava de regar o canteiro, distraído com a beleza das plantas novas, ouvi o filho escandaloso do vizinho falando com o pai:
- Ih, hoje o malucão aqui do lado passou o dia plantando coisa no quintal, de novo...
- Hum... Deve ser um pé de maconha ou um canavial.
- Tá vendo! Foi o que eu pensei...
Arrumei as coisas e entrei. O meu dia até que foi legal. A última semana não foi das piores não.
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