sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sambando na Cova dos Artistas

Sambando na Cova dos Artistas
Ou Quando a Poesia de Cartola Fodeu Ernesto em Madureira

E lá estava o cara de espiga de milho do Ernesto, embriagado, acendendo um novo cigarro na guimba do antigo. Enfumaçava minha sala andando de um lado para outro, depois resolveu falar (infelizmente) o motivo real de sua aflição.
- MADUREIRA!
- Que bosta, Ernesto, o que tem Madureira...?
- Se o mundo acabar na sexta eu vou morrer sem nunca ter morado em outro lugar...
- Vá chupar gelo, cara... Faça-me o favor...
- Não serei respeitado pelos sobreviventes, Pitz! Um poeta como eu perdido nas cavernas da ignorância! Terrível! Fodido! Passista! MADUREIRA!
- E Cartola...?
- Que Cartola?
- O da Mangueira...
- Que tem ele?
- Era mais poeta que você.
- MAS EU SOU LOIRO! NEM PRA SER FAVELADO OU SÍMBOLO DE CULTURA CARIOCA ENLATADA EU SIRVO! NÃO SE PODE SER EUROPEU DEMAIS NA TERRA DO BRONZEADO PERMANENTE!
- Está dizendo que Cartola só fez sucesso por ser negro...?
- Estou dizendo que não quero morrer em Madureira. O resto é a tequila falando sozinha.
- Entendo.
Ernesto é filho de portugueses, magro, e pálido com seus cabelos lisos puxados para trás caindo (fixo-bagunçado-sebosos e com gel) até a altura dos ombros. Os olhos são pequenos, de um verde querendo reviver cinza, pregados com força dentro das enormes cavidades cranianas destinadas aos olhos. Cara estranho, eu acho, encerado, meio boneco, mas a mulherada até que dá mole. Sempre de calça jeans surrada, tênis all star preto, alguma camisa trazendo dizeres como “Salvem as Baleias” ou “Salvem a Palestina”, barba por fazer. Quase um Jesus moderno.
- Não te incomoda viver aqui em Piedade?
- Às vezes...
- Explique o teu “às vezes”.
- Quando a água acaba sem nenhuma informação da Cedae eu fico puto por morar aqui. Eu sei que isso acontece para não faltar água nos hotéis e na parte da orla, mas... É assim que funciona... E quando acaba a luz no subúrbio sem nenhum aviso: é a mesma coisa. Segurar de um lado para abastecer o outro. Essas coisas todas aí me aborrecem! É injusto, obsceno!
- Só...?
- Não, tem a questão cultural também, mas aí o papo vai se arrastar até o rabo do seu finado tatatataravô nas caravelas.
- Portugal, escravidão, primeira república...
- Descanse a boca e beba algo, rápido.
Serviu tequila nos dois copos. Bebi. Serviu mais duas.

- Eu não acho justo morrer sem conhecer o mundo. Não consigo tolerar a ideia de ter passado a vida em um lugar só. Meus pais enterraram a gente lá naquele bueiro! Casa, comércio. Agora eles morrem e eu tenho que seguir sendo confeiteiro em Madureira. Mas eu sou poeta, sempre fui! POETA!
- Posso te pedir uma coisa?
- O quê?
- Vá embora.
- Mas o que eu fiz, cara?!
- Nada, só quero ficar sozinho. Esse papo de bairro, mundo, tribo, essa merda de assunto está me doendo o juízo. Sacou? Não se pode puxar o mundo com barbantes. Use isso tudo e faça uma corda.
- Não entendi.
- Felicidade real é estado de espírito, cara... Não vê o Adriano, jogador de futebol. Prefere a favela! Ofereceram a ele palácios romanos e ele preferiu uma gelada com os amigos dele numa piscina de plástico.
- Maluco.
- Todos nós. Eu prefiro os palácios, mas entendo o Adriano.
- Ainda quer que eu vá embora?
- Por favor!
- Se o mundo não acabar a gente marca uma boa lá em casa. O Gurgel escreveu um livro de poesias sobre a crueldade das ruas do Rio. E tem uma amiga minha que está com uns contatos legais aí.
- Amém.
Caminhei com ele até o portão. Nem perguntei se estava em condições de dirigir.
Ligou o Pálio preto e manobrou. Antes de seguir falou da janela:
- O Cartola é produto de exportação. Quero ver fazer o que a gente faz aqui no pé do morro. Em cima é mais fácil. Exportação, meu amigo. Exportação. A favela vale mais do que o entorno hoje em dia.
Acho que não é Madureira que ferra com o Ernesto; é Cartola. O que destrói Ernesto Olivares é a sombra dos grandes poetas. A sombra dos julgamentos incessantes que ele faz de si em relação aos outros. E a certeza de que a sombra aprazível dos mortos é imortal. De resto é um camarada legal, até com boa capacidade de escrita.
(Se o mundo não acabar nos vemos na semana que vem. (in)Feliz Natal amigos malditos)
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