quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Cidades pequenas e suas pessoas menores ainda

Durante a minha adolescência eu fui arrancado da minha maravilhosa cidade natal e, contra a minha vontade, obrigado a morar em uma detestável cidade do interior do Rio. E esses foram meus próprios anos de chumbo. Ou melhor, meus anos de aço. 
Tive que me esforçar muito para tornar aquele período, tão importante para a formação e autoafirmação de um ser humano, realmente produtivo em um lugar moribundo como aquele.
Dessa bagagem não trago boas lembranças, mas colecionei alguns bons amigos que ainda hoje cultivo muita estima, e mesmo estando distante ainda mantenho contato e torço pelo dia que também conseguirão fugir daquele Alcatraz. Antes que seja tarde demais.

Sim, porque a cidade pequena, especialmente esta onde residi e qual só pretendo voltar morto, com o passar dos anos vai te oprimindo em imperceptíveis doses homeopáticas e transformando você, e seus sonhos, no tamanho de sua praça principal, aquela com coreto logo em frente a igrejinha.  Tem-se uma espécie de prazo limite de até 27 anos de idade para ‘sartar de banda’ de um lugar como esse, se demorar mais que isso você começa a atrofiar e enraizar nessa terra excessivamente adubada. 
E só mesmo fugindo para as colinas mais altas é que se pode assistir em detalhes todos os nuances dessa segregação.
Conhece alguém que nunca saiu da cidadezinha onde vive? Seja por medo, frustração, complexo de inferioridade ou incapacidade pessoal? Eu mesmo tive uma namorada que ao ter que fazer uma viagem para me encontrar, acabou realizando de uma vez a sua primeira visita a um estado diferente, em uma região diferente, e de avião ainda por cima. Quando chegou, a primeira coisa que fez foi me agradecer por ter lhe proporcionado essa experiência, de acordo com ela, maravilhosa. Foi legal ouvir isso, embora eu esperasse ouvir algo assim só depois do sexo. 
O namoro acabou faz tempo, o mesmo tempo que fiquei com essa questão na cabeça. Ela já havia ultrapassado a tal regra dos 27 anos e era um animal demais domesticado pelos padrões do interior. Percebi que seria muita crueldade força-la a viver na enorme selva em que eu já habitava na época. Acabei devolvendo ela para a gaiola onde havia encontrado.

Mas mesmo que sua fuga tenha sido bem sucedida, você precisa sempre manter os olhos abertos, pois a cidade pequena é um monstro cambaleante que está sempre querendo te puxar de volta ao seu seio troncho. Tenha cuidado com as pessoas que ainda mantém contato por lá. Entenda que eles não tiveram a oportunidade de conhecer outras pessoas, outros lugares, outras culturas e opções de vida, e suas realidades sempre ficarão reduzidas as jocosas fofocas que rolam na pracinha principal em frente à velha igrejinha. Sempre.
E se quiser realmente se manter longe e maior que tudo isso, aconselho que corte as conversas sobre os últimos acontecimentos desinteressantes desse antigo coreto o quanto antes. Ou provavelmente passará por situações do seguinte tipo...

- E aí cara? Beleza?
- Opa! De boa. ‘Tamô’ aí na atividade!
- Não te vejo desde que tu saiu daqui! Como está a vida aí na cidade grande?
- Ah, uma correria louca, cara. Muito trabalho. Ritmo frenético, né. Tu imagina como é.
- Hehe, pode crer, imagino sim. Uma loucura. Aqui continua a mesma coisa cara.
- Não esperava nada diferente disso.
- Quando tu vai dar um pulo aqui pra rever os amigos?
Aqui é o princípio de toda a armadilha. Repare que o seu ‘colega’ sempre tenta te puxar de volta aquele lugar maldito, mesmo te avisando previamente que aquilo continua a mesma merda de sempre. Ele sabe que aquele lugar não é novidade pra nenhum dos dois, mas ainda assim acha mais sensato você voltar pra lá para um possível reencontro do que ele sair daquela cidadezinha de bunda para te visitar em seu novo lar e passar pela experiência de conhecer um lugar diferente.
Voltemos ao diálogo...

- Dar um pulo aí? Eu já conheço esse lugar como a palma da minha mão. Você que tinha que tomar vergonha nessa cara suja e sair um pouco daí para descobrir que o mundo é maior do que o único shopping da cidade.
- Tá certo, tá certo. Você sempre com esse pragmatismo sobre a cidade pequena.
- Ficou maior quando voltei pra cidade grande.
- Escuta cara, preciso te contar uma coisa. Você lembra do Vitor?
- Não. Que Vitor?
- Um de óculos e cabelo cacheado. Ele trabalhava em uma empresa que ficava no mesmo corredor que a nossa na época em que trabalhamos juntos.
- Hummm,... Não estou lembrado. Acho que não conheci esse cara.
O papo bem que podia parar por aí, mas é claro que ele vai insistir em te lembrar sobre esse ilustre desconhecido. Seu ‘colega’ não percebeu que ao contrário dele, você viajou, conheceu outras pessoas e lugares e provavelmente até exerceu outras atividades, e tudo isso vem ocupando cada vez mais espaço em seu cérebro, reunindo mais memórias, e consequentemente mais coisas a serem lembradas. Pra ele é muito fácil lembrar de uma pessoa que querendo ou não ele é obrigado a reencontrar ‘acidentalmente’ toda vez que vai ao centro da cidade.

- Claro que conhece, pô. O Vitor, cara. Ele é até primo daquela menina, a Elaine, que fez estágio em uma outra empresa que funcionava bem em frente a nossa sala. Dela você lembra não é?
- Também não.
- Cara, a Elaine. Não é possível que tu não lembra. Aquela morena baixinha que...
- Vamos ficar nisso a noite toda. Eu realmente não me lembro dessas pessoas. E se eu me esqueci desses indivíduos, acredito que tenha tido um bom motivo pra isso. Mas diga afinal, o que tem o tal Vitor?
- Eu ia dizer que ele morreu.
- Que merda , heim! E por falar nisso, com quantos anos você tá mesmo cara?
- Acabei de fazer 27 esse ano. Por que?
- Sério. Você vai precisar de um bom plano de fuga.
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