domingo, 13 de janeiro de 2013

Me salve Jorge dessa paranoia!

Era um desses raros momentos de relaxamento, daqueles que se aproveita a solidão no lar para ouvir algumas músicas no máximo volume por puro 'desbunde‘ com o resto do mundo.  Os trajes costumam ser o mais simples possível, para os homens basta uma cueca samba-canção. Já o das mulheres é algo que eu não saberia dizer por que acredito que nenhuma delas se permitiria ser flagrada com tanta intimidade.

Como um retirante carioca em terras paulistanas que sou, também senti saudades da terrinha. E na falta de uma praia coloquei o novo som do Seu Jorge no ‘talo’ na tentativa de reproduzir o swing das ondas de Ipanema. 
Inspirado pelo ‘Músicas para Churrasco’ até queimei uma carninha em minha mini churrasqueira elétrica, ideal para os apartamentos claustrofóbicos de São Paulo. Uma verdadeira festa de uma pessoa só.
Minha festa particular já alcançava o seu ápice de euforia quando as caixas de som começaram a executar a próxima música do Álbum. Intitulada ‘Vizinha’, a canção narra a história de uma nova moradora que chega abalando as estruturas sentimentais dos machos de uma vizinhança. Em especial o autor daletra, que jura ter a ‘cantada’ perfeita para sair na frente dos concorrentes e faturar a tal vizinha com o seguinte refrão, ‘Vizinha, eu não sei o seu nome. Vizinha, você também não sabe o meu. Vizinha, se você for Julieta. Vizinha, o meu pode ser Romeu’
Até aí tudo bem, uma declaração singela e até bonita pelo seu tom de popularidade. O problema foi quando fui contagiado pelo ritmo e junto com o alto som que emanava do aparelho, comecei também a cantar o refrão em plenos pulmões.
Cara,... Foi aí que me bateu uma paranoia sinistra.

E se realmente houvesse uma nova moradora no meu prédio em algum dos andares dentro do alcance da poluição sonora que provinha do meu apartamento? 
E se por ventura essa mulher existisse, e aquela música sendo executada naquela altura com um louco repetindo o refrão sem parar, fosse realmente encarada como uma tentativa de flerte? 
E se aquela solteirona inveterada que mora no fim do corredor ignorasse a parte da música em que se especifica ser uma ‘vizinha nova’, e por azar começasse a achar que o meu ato fosse uma indireta pra sua pessoa? 
E se qualquer uma dessas possibilidades ocorresse e virasse mais uma das inúmeras fofocas de portaria e acabasse chegando no ouvido da minha mulher?

Eu, que coisa de quinze anos atrás durante a minha adolescência ouvia sem pudor os refrãos do Planet Hemp sem nunca me preocupar em ser chamado de ‘maconheiro’ pelos vizinhos só porque berrava ‘Legalize já, Legalize já, uma erva natural não pode te prejudicar!’ no meu quarto ainda na casa da minha mãe, nesse dia me vi acuado feito um verdadeiro subversivo pela ousadia das palavras de Seu Jorge e acabei abaixando o som e encerrando a tal ‘festinha’.
Afinal estava ficando tarde e minha mulher já estava pra chegar.
***

Abaixo você pode ouvir a música citada no texto:
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