quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Diálogos Impossíveis

Pode não parecer, mas trabalhar com literatura traz uma grande desvantagem. Com tanto material pra ler, analisar, e escrever, dificilmente se encontra tempo para apreciar uma leitura por deleite particular, ou seja, um momento seu para ler algo por simples recreação e sem compromisso profissional.  Eu me reservei esse raro direito neste mês de ‘férias’, e depois de tanto tempo conhecendo coisas novas, fiz questão de marcar um reencontro com um antigo parceiro de leitura.
Optei pelo último livro do glorioso Luís Fernando Veríssimo que já faz parte de uma sequência de publicações que reúne o melhor de suas crônicas publicadas em suas colunas jornalísticas do Zero Hora e Estado de S.Paulo.

Durante certo período difícil da minha vida, os exemplares anteriores dessa ‘coleção’ foram a única companhia saudável que eu consegui encontrar e cultivar ao meu redor, e por isso achei que seria bacana revisitar as histórias do Veríssimo com um estado de espírito diferente. Não usei nem metade do mês que reservei, em poucos dias eu já havia concluído a leitura de ‘Diálogos Impossíveis’.
Posso dizer que este livro está longe de superar seus antecessores, mas ainda assim possui a pegada consagrada do autor. Nesse, novamente Veríssimo nos leva as mais diversas situações do cotidiano, do plausível ao improvável. O diferencial fica mesmo por parte de seus personagens, que se antes embarcavam sem pudor nas loucuras da narrativa do escritor, agora me pareceram relutar para manter suas sanidades diante das situações insólitas em que são expostos.


Um bom exemplo pode ser visto a seguir em um trecho selecionado de um conto do livro onde o herói mascarado Batman e o Conde Drácula batem um prosaico papo em uma clínica geriátrica já pelo fim de suas respectivas carreiras...

"- Não somos muito diferentes - diz Drácula.
- Somos completamente diferentes! - rebate Batman. - Eu sou o Bem, você é o Mal. Eu salvava as pessoas, você chupava o seu sangue e as transformava em vampiros como você. Somos opostos.
- E no entanto - volta Drácula com um sorriso, mostrando os caninos de fantasia - somos, os dois, homens-morcegos... Batman come o resto do seu iogurte sob o olhar cobiçoso do conde.
- A diferença é que eu escolhi o morcego como modelo. Foi uma decisão artística, estética, autônoma.
- E estranha - diz Drácula. - Por que morcego? Eu tenho a desculpa de que não foi uma escolha, foi uma danação genética. Mas você? Por que o morcego e não, por exemplo, o cordeiro, símbolo do Bem? Talvez o que motivasse você fosse uma compulsão igual à minha, disfarçada. Durante todo o tempo em que combatia o Mal e fazia o Bem, seu desejo secreto era de chupar pescoços. Sua sede não era de justiça, era de sangue. Desconfie dos paladinos, eles também querem sangue.
- Se eu ainda pudesse fazer um punho você ia ver qual é a minha compulsão neste momento - rosna Batman.
Mas Drácula não perde a calma.
- E veja a ironia, Batman. O Morcego Bom passa, o Morcego Mau fica. Um não quer morrer e morre, o outro quer morrer e não morre. Ou talvez não seja uma ironia, seja uma metáfora para o mundo. O Bem acaba sem recompensa e o único castigo do Mal é nunca acabar."

Uma excelente leitura rápida, prática e divertida para quem vive sem tempo para ler. Os contos são breves, do tipo que não passa de duas páginas para chegar a sua brilhante conclusão e sempre acabam com gostinho de 'quero mais'. E pra quem não conhece o autor, atesto a qualidade da sua escrita  dizendo que já consegui calar uma ex-namorada tagarela, que não lia nem bula de remédio, oferecendo um livro do Veríssimo para ela ler. Foram as únicas horas de silencio que já consegui arrancar daquela mulher.

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