segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Perturbação Interna - Missa de sétimo dia

O que fazer quando, do nada, você começa a receber e-mails com relatos sinistros de um desconhecido? Bom, eu resolvi publicar aqui no blog! 
Para isso eu criei essa sub-coluna intitulada 'Perturbação Interna' onde venho postando, para dividir com vocês, essas conturbadas palavras que insistem em chegar a minha caixa de entrada.
Faz um bom tempo que não escrevo nada.
E não é porque decidi voltar a tomar os remédios ou por ter alcançado uma cura milagrosa; mas é que fica meio difícil de explicar alguns fatos sem dar maiores detalhes sobre quem sou eu. Depois da internet, qualquer um que saiba digitar “google” virou detetive.
Continuo sem um instante de paz na minha cabeça, não sinto prazer em nada (até tenho, mas não passam de alguns minutos), sempre estou incomodado por algo; mas tento consertar isso com algumas explosões de ódio. Até que, relativamente, funciona. Voltei a escrever porque aconteceu um fato aqui que me deixou muito mal, não sei o que pensar de mim, acho que o melhor seria fazer meu fim do mundo particular e acabar com tudo. Acredito que, depois do que vou contar, vou perder ainda mais a empatia que poderia vir a ter com algum leitor do seu site. Sabe aquele cachorro do filme “Marley e Eu”? Nem assisti o filme, para não passar raiva, pelo trailer deu pra perceber que eu tinha uma peste igual a do filme em casa, mas talvez, bem pior.
Era um vira-lata, porte médio, branco com manchas pretas, e a cara toda branca. Nós o adotamos em uma feira de adoção, uns dois anos atrás. Nosso antigo cachorro tinha morrido, e a gente estava sentindo falta duma animação canina. Não só as crianças, mas eu também gostava de cachorro, sempre gostei, desde pequeno. Mas esse cachorro trouxe um pedaço do inferno para o nosso lar.

Eu sei que cachorrinho novo dá trabalho, mas este já contava com dois anos e não aprendia. Teve um mês que ele conseguiu acumular um prejuízo de R$750,00 entre sapatos da minha mulher, sofá e máquina de lavar. Sim, o filhadaputa conseguiu se enfiar na máquina de lavar. E não conseguiu sair.
Acordamos de madrugada com seus ganidos e até rimos quando conseguimos resgatá-lo, mas a piada perdeu a graça de manhã, quando minha mulher colocou as roupas para lavar e viu aquele utensílio doméstico virar uma montaria de rodeio, trepidando e andando pela lavanderia, até parar com um estouro.
Fazendo as contas, posso dizer que durante todo o ano eu trabalhei quatro meses para pagar os impostos do governo e outros dois meses para pagar os prejuízos desse cachorro.
O que fazer com o maldito (o cachorro) era pauta semanal. Toda semana tínhamos uma conversa séria sobre devolver o bicho para a adoção ou dar para alguém que tivesse criação em alguma chácara, mas as crianças entravam na conversa e o cão continuava na casa.
Nem as funções de cão ele cumpria. Tinha noites que ficava latindo a esmo, só para eu ter que acordar e mandar umas chineladas nele, mas na vez que vi um gato no quintal, tive que eu mesmo espantá-lo, pois o imbecil estava ocupado mijando no tapete da cozinha.
Eu sempre fui contra o abandono de animais, mas nesse dia eu só não fiz isso porque minha mulher ameaçou divórcio.
Mesmo colocando aquelas garrafas pet com água do lado das rodas do carro, tem dias que o lazarento tem a capacidade de mijar nem no pneu, mas na lataria do carro.

Semana passada foi o limite.
Desde que surgiram, os tablets foram meu desejo de consumo, e só no mês passado, depois de muita pesquisa e muitas contas, é que consegui comprar um desses brinquedos para mim.Menti o valor para a minha mulher, falei que tinha comprado um modelo mais barato, mas finalmente tinha meu tablete, podia fazer meus rascunhos e adiantar meus projetos em qualquer lugar que estivesse.
Num final de tarde, depois do trabalho, a mulher tinha ido para o supermercado e os meninos estavam na casa de um amiguinho, cheguei em casa e pretendia aproveitar aquele sossego para testar algumas funcionalidades do tablet.
Já dá para prever o que aconteceu: ficaram de bobeira com a porta da cozinha aberta e o cachorro pegou o tablet.
Nem precisei procurar no quintal, assim que cheguei lá, o cachorro pegou os restos do aparelho e mostrou a merda que tinha feito: A tela parecia estar inteira, mas o desgraçado tinha conseguido roer o plástico do tablet, dava até para ver a placa de circuitos moída em mais da metade da traseira do aparelho.
Quando eu fui pegar os restos do tablet, ele saiu correndo, achando que seria uma boa brincadeira me fazer correr atrás dele por todo o quintal. Eu corri atrás dele, mas não foi para brincar; assim que o encurralei em um canto do quintal, eu encaixei minhas mãos no pescoço do bicho e, durou algum tempo, foi um tempo curto, mas algumas coisas aconteceram, só que não quero fazer sensacionalismo em cima do fato. Vamos resumir que eu matei o cachorro.
Nem me senti tão mal na hora, eu estava tremendo da adrenalina.
Enfiei o cachorro numa sacola de loja, saí rapidamente com o carro, no primeiro terreno baldio que encontrei, dei uma volta com o carro até confirmar que não tinha ninguém de olho e arremessei a sacola com o cadáver num matinho que se formava perto da calçada; nem saí do carro.

Voltei para casa, enfiei o cadáver do tablet no lixo que já estava na calçada, pronto para a coleta dos lixeiros, e quando a família chegou, falei que o cachorro tinha saído enquanto eu guardava o carro e que ainda não tinha voltado.
Mesmo depois de morto, o cachorro ainda me deu trabalho, tive que ficar circulando uns dois dias com os meninos pelo bairro, chamando pelo nome do falecido, fiz cartaz para eles espalharem pelos postes das redondezas, pedir para o pessoal compartilhar foto do bicho pelo facebook, e aguentar a choradeira.
Nesse período, me incomodou a vontade de rir que tentava entortar o canto da minha boca sempre que eu ouvia alguém preocupado, perguntando pelo bicho, mesmo que fossem os meus filhos os preocupados. O menorzinho até chorava. E eu, com vontade de rir.
Eu não sei por que, eu não queria me sentir daquele jeito, eu queria poder chorar junto com ele, mas eu só conseguia segurar o riso. Eu falava “ele vai voltar, deve estar por aí”, e a vontade de rir aumentava.
Até agora o pessoal está triste aqui em casa.
Menos eu.
Eu apenas gostaria de estar triste.
Estou quase pagando uma consulta com o meu psiquiatra, depois de fugir dele por seis meses, só para perguntar por que eu me sinto assim.
Por que eu me sinto assim? Isso é normal? Isso é bom ou ruim?
Estou escrevendo para passar essa vontade de me consultar. Vai que eu não goste da resposta.
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