sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Quando eu quase fiquei famoso

E então eu estava lá e queria ser um grande ator. Lembro que interpretar era tão gostoso quanto trepar ou beber, ainda melhor do que olhar as teias de aranha se formando no teto e as garrafas jogadas pelo quarto entre um e outro morto gritante, um Fante, um Buk, um Dostoievski... Um Hunter Thompson... Um corno desses que me espanca o juízo hoje em dia... A droga do Morris West para quase elucidar tudo com fé, mas..., esqueça a confusão dos meus mortos de papel; voltemos ao Estúdio de TV na Barra da Tijuca.

O lance é que eu queria mesmo ganhar grana como ator àquela época, estava nessa há 5 anos, levava jeito, principalmente para os papéis engraçados; fazia as pessoas rirem com minhas caretas, e olha que nem eram caretas forçadas não. Era só eu mesmo com cara de burro excitado, imbecil  tonto, tapado. O povo gargalhava no teatro, era bom demais sentir aquilo. E eu também decorava o meu texto antes dos outros atores. Enquanto eles ainda se debruçavam sobre o papel eu já sabia todas as falas. Era um filho da puta. Na verdade eu era mais como um “artista analítico”: analisava bem o que a plateia queria para sorrir e entregava o pedido deles na bandeja da minha criatividade, e para tanto precisava estar com o texto afiado. Às vezes falhava. Geralmente funcionava.
Mas então (se o vinho barato não me foder a história sai), eu estava naquela porra de estúdio, ansioso por finalmente receber a chance de interpretar um bom personagem de TV. Foi uma amiga (essa doida nunca soube que eu a amei) que me indicou ao diretor, e ele resolveu dar uma chance para o camarada engraçado do teatro. O elenco era bom, algumas feras com bagagem na estrada, e eu lá no meio... A mais famosa era uma coroa que havia trabalhado em outra emissora, numa novela de grande sucesso nacional. Os homens pertenciam ao subgrupo dos famosos, atores de comerciais, outros com participações pequenas em novelas e seriados, todos sedentos como eu na busca por um lugar ao sol. Além da coroa, o elenco feminino se completava com duas gostosas e uma humorista (encantadora), uma baixinha elétrica com uma linha de humor bem parecida com a minha, e que inclusive seria minha dupla (amante) no seriado. Identifiquei-me com a baixinha, também era atriz de teatro e fumava cigarros da mesma marca que o meu. Legal... Dividimos um pouco de nossos questionamentos e ansiedades sobre tudo aquilo que viria pela frente. Seriado em rede nacional, inexperiência diante das câmeras, medo do diretor (isso passou rápido, o cara foi ótimo). Tinha uma árvore em frente ao local de ensaios e reuniões - acho que um Ipê amarelo, não me lembro que porra de árvore era aquela lá, mas dava uma sombra com um banco embaixo.
Ficávamos embaixo da árvore fazendo fumaça e conversando nos intervalos.

Confesso que tinha alguns preconceitos com as comediantes mulheres, não conseguia rir do que eu chamava de humor calcinha, mas aquela garota estava em outro nível. Era boa mesmo. Em nosso terceiro encontro profetizei: se o seriado não vingar, você vinga. Com certeza vai entrar na TV.
- Ahhhhhh... Tá me cantando, gatinho? – Disse em zombaria. Gostava de sacanear.
- Também; mas é fato, garota. Você é a melhor humorista que eu já vi.
No teatro eu era alguma coisa, até dirigi alguns espetáculos infantis, dois espetáculos adultos, mas na TV eu era só um pulha na fila de espera, minhas opiniões sobre a atuação de um ou de outro (na perspectiva da câmera) seriam nulas.

Todos os atores possuíam carro, alguns moravam ali pela Barra, Recreio, outros na Zona Sul; acho que só eu naquele tempo chegava de ônibus vindo da longínqua Piedade catando as moedas para a passagem de volta. Se os ensaios e gravações terminassem de madrugada, provavelmente eu seria o único a correr risco de vida para conseguir dormir em casa. Eu odiava ser um pobre rico, não odiava a pobreza em si (exceto pela criminalidade em torno dela), mas detestava a ideia de não ser respeitado no meu bairro pelos mesmos motivos que me fizeram ser respeitado em qualquer outro lugar que apreciasse cultura (lá vai o Tony Ramos do Morro do Urubu). É um erro primário, dor de cotovelo geral, falta de cerebelo, não sei, foda-se. Era um garotão pobre de tudo, sacaneado em seu lugar de origem, mas rico de ideias, de textos, de sonhos, de cultura. Lembrar-se de mim como jovem ator é um pesadelo: eu era apenas um faminto, derrotado na menor das palavras desferidas que não fosse as que estivessem nos textos. Um idiota.

E os ensaios continuavam. Eu abria minha boca e o diretor sorria, dava um orgulho danado. As cenas onde eu deveria tentar ser sexy, um galã latino fajuto, estavam fluindo de vento em popa! O povo tinha que segurar a gargalhada para depois do corte final, aplaudiam e tudo. Legal. Havia um sentimento de vitória berrando dentro de mim. Eu queria dizer ao mundo que não era somente um imbecil suburbano com mania de grandeza, não, eu era um artista em pleno auge e prestes a conseguir o sucesso! Queria gritar minha vitória nos ouvidos dos canalhas até que seus c*s estourassem! Dane-se o mundo, estou gravando com os grandes, um diretor aprecia meu trabalho e o futuro parece promissor. O que pode dar errado? Eu consegui vencer, e talvez a sorte estivesse sorrindo para mim definitivamente. Um seriado de humor, a dupla perfeita, o personagem perfeito; seria a grande virada.
Uma briga entre produção, direção e sei lá mais quem (um golpe no meu crânio)... Assim recebi a notícia de que o projeto fora cancelado. A maioria não se importou e seguiu caminho, mas lembro de o mundo da baixinha e o meu quase terem desabado. A expectativa era grande. Ficamos na porta do estúdio fechado conversando, voltei a repetir que ela iria arrebentar na TV, mais cedo ou mais tarde (o que realmente aconteceu). Ela não acreditou, para variar. Tudo parecia complicado demais, como o projeto sendo cancelado de repente. Ela não merecia aquilo, sua arte era sincera, o que ela queria era simples, plausível. Mas eu mereci o cancelamento do projeto. Não pensei nada além de merda desde o primeiro momento em que a vida me apontou como vencedor. Pensei revanche, vingança, “olhem para o artista fodão”! Olhem como eu posso ser melhor que a escória! Apreciem seus otários! Eu merecia me ferrar, como todo o cara escroto merece... A baixinha não.
Caminhei até o maldito ponto de ônibus - pensando que ainda teria de fazer isto inúmeras vezes. 
Voltei de pé dentro do veículo lotado até Cascadura, lá eu desci para pegar outro ônibus até Piedade. Aproveitei para tomar duas cervejas e comer um pastel de vento na praça. A garçonete me olhou dentro dos olhos. Era uma senhora ainda bonita, seus traços finos podiam enganar o tempo mantendo-a jovem. Deveria ser a dona da pastelaria.
- Você vai conseguir, rapaz! Nunca perca a fé. Não sei quem é você, mas meu santo é forte e está me dizendo.
- Obrigado, Dona. O pastel está ótimo.
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