sexta-feira, 8 de março de 2013

A Confissão do Invisível

Até parece que foi ontem... A maior parte das crianças brasileiras fazia catecismo. Ir à igreja aqui era sinônimo de frequentar um templo católico. Lembra? Eu mesmo fui batizado, depois fiz o meu catecismo na Paróquia dos Divinos Salvadores - com o exemplar e venerável Padre Consantini, que não é pedófilo nem filho da puta, diga-se de passagem, e amém. 
Mas hoje a religião do brasileiro está mais diversificada, podemos notar o amplo crescimento dos templos evangélicos, as novas tendências, formas de buscar a tal proteção espiritual. Enfim, houve realmente essa quebra na 'quase hegemonia' católica. O motivo? Tirando os escândalos ao longo do tempo? No máximo da minha pretensão, acharei aqui alguma coisa sobre religião: e eu acho que ‘o povo’ quer se sentir imediatamente protegido. Ele não quer uma lanterna na escuridão, penitência, dúvidas, o que ele quer são lâmpadas de 100W, um deus poderoso para expulsar demônios, e que traga dinheiro (procure Mamon),traga fartura imediata, e para isso não necessita ser justo ou bondoso, não se trata de questões do tipo sentimental ou honestas, o mais importante é que a ‘energia superior’ os proteja no núcleo maior de nossa materialidade. 
A verdade é que nenhuma religião pode oferecer o conforto carnal que precisamos. O conforto pleno está no espírito, habitando nossos ferrados ‘corpinhos humanos’. É só o que eu acho..

Se o povo precisa sentir a mágica segurança da fé em acordo com sua evolução, a Igreja católica deveria acompanhar a tendência dos leigos (fiéis), e seguir trilhando ao lado das necessidades deles...?  Talvez, mas a igreja preferiu seguir sozinha com suas tradições. Como o velho pastor, já cansado, que deixou o rebanho de lado e foi descansar. E assim parte do rebanho se foi, percebendo que a cerca estava aberta.
- Sua benção, Padre. Eu quero me confessar.
Abriu parte da cortininha vermelha do confessionário.
- Pois diga, Allan.
- O senhor se lembrou de mim?!
- Sim, lembro-me de todas as ovelhas, mesmo as desgarradas.
Bosta... Senti vontade de chorar só por que o padre velhinho lembrou o meu nome. Idiota.
- Bem, eu... bem... Padre Consentini, eu pequei contra minha fé católica, não sou um verdadeiro cristão há muito tempo.
- Mas você voltou. O espírito santo também se revela nas vontades humanas.
- Talvez... Mas o que me trouxe aqui foi a saudade das suas boas palavras. Tenho bebido em excesso, praguejado contra a minha própria vida... Estou em rota de colisão, padre. O senhor sabe que eu escrevo livros?
- Sim.
- Então, lá eu peco mais ainda, escrevo tudo sem conseguir controlar a fúria de meus pensamentos. As palavras me atropelam e eu fico parado!
- Você escreve contra Deus?
- Não, não, acho que não. Mas fico tentando entendê-lo, e sei que esse deve ser o maior dos pecados. Não consigo me conformar, lembro-me da infância, da vida toda, e é só um recorte de infernos malucos! Me desculpe, Padre.
- Continue.
- Eu só queria ser feliz por alguns dias. Poder viver do que realmente amo; levantar a cabeça e sorrir para o sol. Eu não sou um sujeito mau, padre. Eu sempre desejei o bem de todos, nunca pedi nada de ruim contra alguém.
- Quem é correto nunca fracassará e será lembrado para sempre. Salmos, capítulo 112, versículo 6.
- Sim, mas eu não sou correto.
- Não há maldade em você, Allan.. Isto é sinal de correção, é Jesus fazendo morada em seu coração. Continue escrevendo seus livros e deixando a mente trabalhar com bastante fé nos próximos dias.  A casa de Deus estará sempre aberta para você. Deixe que Deus julgue suas dúvidas. Apenas ore pelo bem, e se arrependa por seus pecados.

Consentini mandou que eu rezasse três Pai Nosso e três Ave Maria, me perdoando os pecados. Fiquei feliz em ouvir aquilo. Absolvido. Perdão. – Eu em nome de Deus te absolvo. Legal.
Fiquei sentado sozinho lá na igreja fazendo as orações, o padre passou ao meu lado e ofereceu o silêncio da igreja para quando eu estivesse em busca de paz para escrever meus livros. Agradeci. Mas não voltei. Ainda não.

Saí de lá pensando sobre os rumos da fé humana. Os rumos da própria igreja. E o rumo das pessoas que ainda procuram cegamente (dois mil e treze anos depois) um rastro genuíno daquele que seria a maior esperança do mundo inteiro. Somos um povo engraçado, interessante estudo para outras civilizações avançadas que ainda virão.

(Boa sorte ao próximo Papa. Espero que seja o brasileiro D. Odilo)
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