quarta-feira, 6 de março de 2013

Martin, o amante de sangue

Martin (Martin)
Diretor: George A. Romero (A Noite dos Mortos-Vivos. Despertar dos Mortos).
Roteiro: George A. Romero
Ano: 1977
País: EUA
Atores: John Amplas (Dia dos Mortos. Creepshow), Lincoln Maazel, Christine Forrest (Dois Olhos Satânicos), Tom Savini (Maquiador em: Despertar dos Mortos. Sexta-Feira 13 e outros),George A. Romero

Martin é um rapaz que acreditando ser vampiro vai morar com seu tio, um velho cheio de superstições e certezas malucas numa tradicional cidade da Pensilvânia. Calado, tímido e um pouco delicado, carrega questões e impulsos que o levam a matar.
Em Martin, o termo vampiro tem dois significados: Aquele que automaticamente pensamos e, surpreendentemente, uma maneira de traduzir um desvio, uma doença.
Nos minutos iniciais o sobrenatural é jogado para escanteio, pois o “vampiro” se utiliza de drogas injetáveis para ter suas vítimas sob total controle, e uma lâmina, para contar-lhes os pulsos e sorver todo o sangue. A maioria de suas vítimas são mulheres, que sempre estupra antes de beber o sangue. Afinal, trata-se de um adolescente com desejos sexuais que são parcialmente saciados enquanto elas encontram-se desacordadas. Enquanto os demais têm problemas com timidez, espinhas e em como abordar a garota dos sonhos, ele se aproveita dos corpos sem reação quanto à sua forçada disposição. Mas engana-se quem acha que o jovem seja movido unicamente pelo instinto. Seu cuidado para eliminar as provas de sua existência no local e estudar a rotina de suas próximas vítimas, é minuciosa e não deixa dúvidas de sua consciência quanto a seus atos.
Martin aceita ser vampiro, e carrega tal classificação para dar nome ao que sente. À sua doença. Nada de capas, neblinas, voos sob forma de morcego, uma postura sedutora e outros elementos típicos da cultura vampiresca.
Essa doença que o jovem carrega bate de frente contra a fixação de seu tio pela ideia de que sua família é uma árvore de onde brotam vampiros. Fé e razão se chocando todo o tempo. Cruzes, réstias de alho, sinos na porta do quarto do sobrinho, a fim de saber todos os seus passos e exorcismos. Sem perceber, Cuda é totalmente tomado por tal ideia, desejando que sua filha Christina (Christine Forrest, esposa de Romero), jamais tenha filhos para não dar continuidade à maldita prole. Não suportando mais tanta loucura, ela acaba se unindo a Arthur (Tom Savini, um dos grandes nomes da maquiagem do terror), homem que não gosta, mas que lhe dá a possibilidade de sair daquela casa.

Velho e novo se confrontam todo o tempo. Enquanto Martin tenta levar uma vida normal fugindo de todas as tentações, seu tio, de todas as maneiras possíveis, mantém o passado no presente chegando a pressionar o novo padre para que ele siga a cabeça dos velhos, e não traga coisas novas à sua congregação. 
Tudo isso aliado à turbulenta fase adolescente onde acontecem importantes questionamentos sobre a própria pessoa. Martin sabe que é diferente dos demais devido a doença que carrega. Por isso tenta desaparecer em meio à massa, camuflando o que sente. Ciente de que não se trata de um comportamento padrão, ou sequer sadio. 
Ao longo dos dias observa, deseja ter uma vida normal, mas não consegue. E nas poucas, ou talvez única, situação decorrente de uma relação “normal”, as coisas terminam de forma inesperada levando o rapaz a mais questionamentos internos. Dessa forma, Romero, como em muitos de seus filmes volta a apresentar questões sociais e humanas, deixando na maioria das vezes o “sobrenatural” em segundo plano. E diferente destes muitos, o grupo em quem sempre focou transforma-se em um. Tudo num ritmo lento e crescente.
Além disso, o filme foge de efeitos especiais nos apresentando um caminho simples, mas não menos impactante. O passado de Martin, que nos leva a entender parte do que o compõe, é apresentado em flashbacks em preto e branco que merecem toda nossa atenção tanto pela importância na história quanto pela beleza estética. Os planos de câmera e closes bem trabalhados aliam-se à trama de tal forma que acabam por substituir a trilha sonora, muito bem encaixada nos momentos certos.
O momento em que Martin aceita o convite de sua prima para colocar em seu quarto uma extensão de uma linha telefônica enquanto ouve o rádio torna-se, surpreendente, pois Martin passa a desabafar ligando para um programa de rádio onde fala tudo que habita sua mente dando àqueles que o escutam a quase certeza de estar conversando com um louco/vampiro. Por isso acabam-no apelidando de Conde. A cada ligação, maior o interesse da rádio por suas palavras. Logo a impressão que se tem é de que existe uma legião de ouvintes, enquanto não sabemos se o radialista o está levando a sério. Personagem ou não, Martin acaba conseguindo um terreno fixo e firme para despejar todo e qualquer pensamento acerca de sua condição. Vampiro. Adolescente. Ser Humano. Assumir ou desaparecer? Essa sua conexão escancarada e, ao mesmo protegida, com o mundo real, acaba lembrando como Lestat tentou apresentar ao mundo sua vida e a existência de seres como ele na horrorosa adaptação de A Rainha dos Condenados (2002) (Se tiver curiosidade, assista. Mas aviso que  é péssimo!)

Todas as perguntas encontram suas respostas ao longo da história, principalmente durante os créditos finais em sua relação com o programa de rádio.
E, para finalizar, impossível não questionar sobre um filme tão interessante sobre vampiros feito por um diretor que teve como marca registrada os mortos-vivos.
Tenso, curioso, delicado e até mesmo cômico, com direito a uma cena em que a imagem do vampiro é ironizada, Martin é um filme que merece atenção. E dono de um final que surpreende. Ao meu ver, um dos melhores filmes sobre vampiros já produzidos. Além de servir também como um choque para a geração atual que parece gostar da espetacularidade dos vampiros. Se você acredita que todo bebedor de sangue humano é charmoso, misterioso e poderoso, prepare-se para Martin. Alguns vampiros anseiam por uma vida tranquila, mas os seres humanos não o deixam.
E qual o pensamento que tirei sobre? Um diferente ponto de vista, quando bem apresentado, pode acabar com a mais forte das fantasias.
Você pode fazer o download do arquivo torrent do filme clicando aqui, e depois sincronizar com a legenda que você encontra clicando aqui.
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. Vou ser muito chata se dizer que não gostei? Sei lá lendo sua resenha achei tão angustiante...Mas deve ter quem goste né eu já nem sou lá muito fã de filmes não tenho muita paciência para ficar em frente a tv, só quando quero muito mesmo assitir. Ah gostei bastante daqui, nunca tinha visitado seu blog, mas ele me conquistou :)

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