terça-feira, 30 de abril de 2013

Perturbação Interna - Nota 10

O que fazer quando, do nada, você começa a receber e-mails com relatos sinistros de um desconhecido? Bom, eu resolvi publicar aqui no blog! 
Para isso eu criei essa sub-coluna intitulada 'Perturbação Interna' onde venho postando, para dividir com vocês, essas conturbadas palavras que insistem em chegar a minha caixa de entrada.
Em meu e-mail anterior acabei deixando escapar minha profissão. Algumas das informações que passo são modificadas, detalhes como parentescos ou nomes, não tenho interessa algum em me identificar, mas realmente sou professor.
Professor de História, com vários projetos de utilização de histórias em quadrinhos para o ensino de história. Projetos que insisto em levar adiante apesar dos insistentes fracassos.
O pessoal não faz ideia de como está a educação nacional.
Acabei de ver uma notícia, com pais pedindo intervenção numa escola porque o professor pedia dinheiro para o xerox das provas, com os repórteres dando todo o apoio, achando um absurdo alguém cobrar algo em uma instituição público. Na reportagem inteira não teve ninguém com um pingo de inteligência para perceber que o sistema de ensino está tão sucateado que as escolas não têm nem tinta para impressora, obrigando os professores a passarem pelo ridículo de mendigar centavos dos alunos para pagar a cópia das provas. Os idiotas só reclamavam que o professor “antiético” extorquia dinheiro para os alunos fazerem as provas.
Acho que esse fato explica um pouco o porquê desse meu estado de nervos, estado de pânico, desespero e desesperança.
Experimentem passar ao lado de uma escola, e só de ouvir a arruaça dos estudantes, tente diferenciar o horário da aula do horário do intervalo. O barulho é o mesmo. E durante a aula um professor é obrigado a ficar dentro da sala, tentando dar aula ou fazendo de conta que está ensinando alguma coisa.
Nos últimos meses eu criei uma pequena terapia para suportar tudo isso.
Todo dia, antes de sair de casa, assisto vários daqueles vídeos de cabras cantando, aqueles virais da internet, em que no meio do clipe, quando o cantor soltaria uma nota mais alta, entra uma cabra berrando. Tenho uns três remixes aqui que são meus preferidos.

Na escola, no intervalo entre as aulas, eu preparo uma groselha. Levei uma garrafa de xarope de groselha, que deixo na geladeira da sala dos professores, misturo com água gelada do bebedouro, e, discretamente, pego o frasquinho de álcool gel, que fica lá para o pessoal desinfetar a mão, e dou umas duas ou três esguichadas no copo.
Misturo bem com a colherinha de café, até dar uma dissolvida no gel e bebo.
Durante as aulas, se tornaram padrão as conversas e a gritaria. Se o professor chama a atenção, os alunos reclamam que você está atrapalhando a conversa deles; se você avisa a direção, você é chamado de incompetente; e se você põe ordem na classe, no dia seguinte vem o papaizinho e a mamãezinha reclamando e fazendo denúncia de que o professor destratou o filhinho deles.
Quando os gritos começam, ao invés de me estressar, eu me sento e, preparado pela minha terapia de cabras e groselhas, começo a imaginar os alunos com cabeça de cabra, balindo no meio de alguma música… é até divertido.
Mas para as cabras não basta berrar, elas querem também ficar passeando pela classe e jogando objetos uns nos outros; aí eu imagino uma voz de demônio, daquelas graves e retumbantes, falando: “NOW DO THE HARLEM SHAKE!”, e vejo todos em chamas, estrebuchando e borbulhando, e aqueles que correm deixam rastros de fumaça preta para trás.
Eventualmente o inferno foge do controle (aliás, nunca esteve sob controle), aparece inspetor e coordenador para ver o que está acontecendo, não sei quem começa a discutir com não sei quem, nem percebo se é comigo, levanto e vou para a sala dos professores, beber mais um pouco de groselha.
Antes eu pesquisava novas maneiras de adaptar a matéria para histórias em quadrinhos, tenho um trabalho muito legal sobre o golpe sujo que foi a Proclamação da República, tenho até umas aulas que explicam porque todas as comemorações cívicas nacionais são grandes picaretagens, mas agora não tenho motivação nenhuma para me empenhar nisso. Fico apenas buscando vídeos engraçados, o das cabras já estão perdendo a graça.
Estou gostando agora de um vídeo em que o Hitler canta o Gangnam Style.
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. Gostei da sua "coluna".
    Só comentando a parte do professor que foi acusado de pedir dinheiro para a xerox.

    Meus professores pediam... E isso foi nos anos 90. Acho perfeitamente normal, mesmo não sendo...
    Imagina hj em dia? Realmente ser professor no Brasil não é fácil...

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