sexta-feira, 10 de maio de 2013

A simples capacidade de hipnotizar um idiota

Manequins da vida real
Lorena e a simples capacidade de hipnotizar um idiota

Malditos manequins da vida real... Talvez eu sinta inveja de todos aqueles seres que dominam o tempo, e sorriem ao cotidiano venerando seus fins de semana incríveis, absortos na vaga oração monetária dos dias perdidos. Malditos manequins de atitude acorrentada, arrastando-se de acordo com o que prega a dinastia dos manequins, e eu não sirvo nem para ser um deles na vitrine das horas!

- SENHOR ALLAN “PITIS”, SEDEX!
Cachorrada em coro: au au au au au!
- Bom dia trabalhador..
- Opa, bom dia meu amigo, assine aqui óh.
- Obrigado.
É uma caixa grande. Tomara que tenha dinheiro aqui dentro. De quem será? Livros encalhados? Humm...? Lorena, Vila Valqueire, Rio de Janeiro. Não conheço nenhuma Lorena... Lorena Castilho. Será um ataque terrorista? Alguém descobriu que eu enviei livros ilegalmente para a Coréia do Norte? Que diabos, estou com ataque de ansiedade... É só a droga de uma caixa, abra logo!
Abro a caixa na varanda mesmo. Vinho, isso é bom demais. Outra caixa menor, forrada com tecido azul, dentro dela duas fotos de uma loira atraente vestindo camisola preta, ao lado uma carta de duas páginas. Legal.
Abri a garrafa e fui ler a carta, alguns trechos me chamaram atenção:
“Eu não sei se você é bem do tipo que realmente lê as cartas, se aquelas coisas todas do seu livro são verdadeiras, mas eu precisei enviar essas palavras. Eu sempre fui invisível; as minhas verdades - as que quero sentir - estão guardadas lá no fundo do baú da moral. Pois é... Não é fácil ser a certinha do papai, do porco do meu ex-marido, dos vizinhos, dos meus alunos. Eu sei que tenho asas, mas só de batê-las vem o medo terrível de cair no chão, sabe? O que eu precisava era de um louco como você, caindo de paraquedas em mim, agora. Preciso te ver, e ter a oportunidade de conversar com você.”

Outras partes da carta eram bem mais intensas, dava pra notar toda a solidão em jogo.  Agora eu já não era refém de minha eterna incompreensão sobre os elementos da normalidade, mas refém de Lorena e de sua vida parcialmente jogada fora. Refém de Lorena, e de seu marido porco saciando-se de qualquer maneira (deixando nada em troca), de suas roseiras e gérberas no jardim, podadas com esmero para que as velhas fofoqueiras da rua não a julguem por desleixo, de seus alunos falando ao celular e xingando-a. Refém dos olhos verdes, cansados de Lorena, profundos em uma poça rosada clamando por amor na extasiante camisola preta. Cansada da escola, dos porcos, dos humanos, dos supermercados, dos acordos assinados na juventude que ditam a velhice... E a velhice está logo ali entre mim e ela, espreitando aos poucos, enviando alguns recados. 
E eu queria apenas sugar-lhe o ódio até que todo o amor do mundo desabrochasse nela, em 12 segundos de perda e domínio, juntos em horas roubadas que salvam almas da perdição do tédio. Foda-se o texto inacabado, o berro sombrio, o livro na prateleira, o que eu quero é ligar para a professora e marcar um encontro para ontem.

Mas antes preciso aparar a barba, tirar esse roupão, tirar essa bagunça de livros do chão da sala. E se ela só estiver apaixonada pelo papel? É... A melhor parte de mim está no papel, a pior parte é vivida na carne. Hum... Não sei. Talvez eu escreva sobre isso. Talvez não. Eu preciso agradecer o vinho. Mas não posso arriscar me perder de vista novamente. Onde eu estava mesmo antes de receber a caixa? Onde eu estava em mim hoje nessa porra?

*O Post não acabou aqui!
Por questão de direitos autorais, não foi possível dispor aqui o vídeo com  uma música relacionada ao texto como o autor queria, então clique aqui e a ouça no youtube! =)
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