sexta-feira, 3 de maio de 2013

O valor das derrotas

O valor das derrotas
As vitórias invisíveis de Eriberto

Eriberto sempre teve essa enorme dificuldade em ser bom (aos olhos dos outros). Não que ele fosse um camarada mau, transviado, psicótico, relaxado, nervoso ou brigão, o problema é que ele não conseguia ser vitorioso como retratavam os quadros da vitória. Quando moleque, fã das defesas de Taffarel, apostou tudo na carreira de goleiro...  Perdeu para o peso, para a altura, para a pouca habilidade; o máximo que conseguiu foi ser reserva do reserva em alguns clubes de pouca reputação.
Na escola Eriberto tinha aquela puta vontade de desenhar a cara das pessoas, vontade de estudar só redação, desenho, educação física. Matemática? Eterna reunião de pais.
– Seu filho não consegue processar matemática, talvez seja algum tipo de retardo, algo a ser investigado.
- Meu filho não é retardado, ele é criativo, gosta de desenhar e escrever!
A mãe apoiava, mas o resto da família sentia desde sempre o cheiro da derrota no ar. Conforme ele crescia, os outros garotos se prontificavam a lembrar-lhe com murros e pontapés as supostas deficiências, e a permanente dificuldade em ser bom.
Então decidiu que seria lutador, decidiu que quebraria a cara das pessoas no ringue (às vezes fora dele)! Mas logo perdeu a ponta do queixo. Treinou ao limite e foi nocauteado nas competições... Uma, duas, três vezes... Era mais de apanhar mesmo. Foi crescendo na base das derrotas acumuladas, das desaprovações, das pancadas. Depois, mais velho, leu nos livros que a culpa de qualquer desenrolar fatídico em sua existência era sua, e sentiu-se culpado por não ser o homem bom dos livros. Antes ele olhava os adultos (sendo adultos) e pensava: quando crescido eu também saberei dirigir, saberei o nome das ruas, ganharei dinheiro e tudo será mais fácil assim. Ledo engano... Eriberto é péssimo motorista, não guarda os nomes das ruas por onde passa, grana é artigo de luxo, e tudo continua sendo extremamente difícil.
O fanatismo por Taffarel e Maguila ficou no passado... Os heróis foram saindo de cena, para que outros se apresentassem em seus lugares. A ciranda do tempo foi levando a poeira e trazendo mais.

Hoje? Hoje em dia Eriberto percebe que aprovação não é vitória... Vitória é acordar vivo e ser você mesmo, é encher a barriga e a cara sem roubar a carteira dos outros. Vitória, de verdade, é saber que a consciência está limpa, que o pouco que ele consegue ganhar para viver vem do suor do seu esforço, e que ele nunca, nunca sequer cogitou a ideia de ser um vencedor através do sacrifício de um derrotado.
Pensando friamente, Eriberto saiu vitorioso desde o primeiro momento em que não se adaptou ao trivial. 
Eriberto nunca acertou o caminho e o nome das ruas.

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