sexta-feira, 17 de maio de 2013

Tá lá mais um corpo estendido no chão!

Ou aquele defunto fresco na minha esquina

Havia muito a ser dito entre nós. Eu e aquele defunto fresco na minha esquina. Porém o maior (se não o único) problema de estar já defunto é não continuar falando com os vivos.

O defunto não bebia... Mas eu não quero ficar aqui chamando o desencarnado de defunto, pois seu nome era Flávio, seu apelido era Delito, e em quatro anos de adolescência marginal deve ter levado, na faca e na pistola, umas sessenta cabeças para outra dimensão. Matava; como quem bebe um copo de água revigorante no calor do verão. Matava, e assim nutria mais e mais sua infinita sede de matar.
- Viu a merda que deu aí de madrugada, professor?
- Vi... Mas o cara tava pedindo.
O dono da barbearia parou ao meu lado e ficamos lá, ainda surpresos, admirando parte da massa encefálica alojando-se no paralelepípedo.
- O pessoal do armazém falou que não foi polícia, não...
- É... Tem bala demais na cara. Deve ter sido alguém que ele fodeu antes, crime de vingança.
- Deve ser.
O barbeiro saiu para atender seu primeiro cliente do dia, e eu ainda estava parado olhando Delito, ou melhor, o que sobrou dele. Filho da puta... Já deve estar lá no inferno agora, sendo recebido com honras militares. E o Diabo, sim, este punheteiro rubro adorador dos piores instintos humanos, lhe dará uma estrelinha de bom menino pregada na ponta do pau, uma enorme suíte com vista para o vale dos suicidas, e o direito de reencarnar em um deputado federal brasileiro. Ora, meus bons leitores, se o tal Diabo é a representação do caos total, da treva, da maldade, como poderia ele castigar um filho querido que o representasse tão bem aqui? O Inferno é o paraíso dos maus!
Enquanto eu estava na rua da frente pensando nos livros, nos desenhos, no karatê kid, Delito pensava em assaltar carro forte para comprar vídeo game e casa na praia. Enquanto eu, o medroso da rua da frente fazia cursos, ralava, enfrentava transito e dificuldades para ganhar uns trocados, Delito roubava e armava suas jogadas, revendia de tudo, gastava com drogas, bailes, orgias. Eu, na rua da frente vestido de promoção.  Delito, na rua de trás, cuja família desconhece o menos básico do básico (fora o feijão e as entranhas do popular), vestia um conjunto importado no valor de três mil reais.
Nossas mães se conheciam, conversavam. Boa família tinha o rapaz, boa família. Pedreiros, diaristas, motoristas de ônibus. Alguns livros velhos na prateleira, uma bíblia aberta na sala.
- Eu queria muito que o meu Flavinho fosse médico.
E o ordinário olhava para o alto sorrindo pra mãe... Devia ter uns oito anos, mas sorria de sacanagem, sabendo que o mais próximo que chegaria da medicina seria quando desse a sua entrada definitiva no IML.

Agora o que resta é o defunto Delito, ontem Flávio, mais um Zé Bosta que poderia ter morrido bem antes de fazer tudo o que fez. Aqui está a carcaça de outro rato urbano, um detrito capital amante das grandes marcas, esgoto dos projetos inacabados do passado, coisa ruim que nem as minhocas gozarão por nojo!  Aqui caro leitor, neste pedaço de inferno recheado de balas, sucumbiu mais um fantoche das trevas. Escrevam, por favor, em sua lápide: “Eu, um nada de lugar nenhum decidi ser porra nenhuma e assim morri jovem, numa bela manhã de sábado, sem saber o real motivo de um dia ter saído das bolas de meu pai”.

- É pão de forma, manteiga e duzentos gramas de mortadela, Chefia?
- Mortadela bem fininha.
- Pode deixar. O senhor já viu o defunto ali na esquina?
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