sexta-feira, 19 de julho de 2013

Um mergulho para a morte


João estacionou o carro na beira do despenhadeiro do morro Santa Cecília, Serra do Poncé, km 114.
- Eu vou com você meu amor. Vamos juntinhos hoje, para algum lugar menos fodido.
O rádio tocava Close to you do Carpenters, no início da programação romântica na estação de rádio local. A chuva fina caia pouco a pouco. João olha para a foto de Eliza mais uma vez, acaricia a imagem com os dedos da mão direita, delicadamente.
- Me responda uma coisa, Eliza, por que a vida nos ferrou tanto, hein? Eu só... Só queria ficar bem ao seu lado. Mas nada pode ser fácil. Nada... Olha como nosso mundo girou de cabeça pra baixo. Eu te amava tanto...
Uma luz resgatou João de seus pensamentos, e ao contrário do que pensou no primeiro instante, quando acreditou ser a luz um carro em manobra, ele se depara com a lanterna de um policial bigodudo, de pé ao lado da porta.
- Abaixe o vidro, por favor, e mantenha as mãos ao volante. O senhor está ouvindo? Abaixe o vidro.
João demorou um pouco a perceber que deveria realmente largar a foto, desligar o rádio e abaixar o vidro.
- Boa noite, Policial.
- O senhor está com algum problema mecânico?
- Não, não, eu só parei pra ver a paisagem e refletir.
- Com essa noite nublada?
- Eu gosto mais quando o tempo está assim.
- Mora por aqui?
- Sim, descendo um pouco a serra, no Parque Atlântida.
- Ok. Documentos, por favor.
- Aqui estão.
O Policial confere tudo minuciosamente, em seguida devolve os documentos de João.
- Bem, está tudo certo aqui, mas antes eu preciso lhe fazer uma pergunta.
- Pois não...?
- Está pensando em se matar?
- Não!
- Mais de vinte pessoas já se jogaram aqui de cima, não quero ver sua cara no jornal local amanhã de manhã.
- Não, não se preocupe comigo. Estou bem. De verdade.
- Está certo, tenha uma boa noite então.
- O senhor também.
O policial sai em sua viatura. João pega a foto de Eliza novamente.
- Essa foi por pouco, meu amor.
Ele sai do carro e abre o porta malas, agora acaricia os cabelos mortos dela da mesma forma que tocara em sua foto minutos antes. A enorme ferida na cabeça faz lembrar toda a cena novamente. Chegou em casa e deparou-se com a mulher e seu sócio na cama. Berravam de prazer, ela parecia se entregar totalmente, alucinadamente a ele. João sacou seu revólver e atirou na nuca do garanhão. Eliza correu apavorada e se jogou no canto do quarto.
- Eu apenas caminhei até ela, devagar e sorrindo.
- NÃO, POR FAVOR NÃO ME MATE!! NÃO!!
- Peguei uma imagem de Santa Sara no criado mudo e golpeei sua cabeça com toda a força possível. Foi assim que aconteceu.

João caminha com Eliza nos braços até a borda do despenhadeiro. Um último beijo naqueles lábios frios com gosto de sangue. E um mergulho final antes da escuridão.
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