sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Aspirando uma carreira de sucesso

Televisão, Tequila e Cocaína

O amigo Geraldo me levou à casa de um produtor de TV.
- Ei, escute aí, ei... Vai querer?
- Não, obrigado.
- Ei, e você, vai ficar de santo também? – Perguntou olhando para o amigo Geraldo com cara de maluco.
- Sim. Fique à vontade.
- José Cuervo... Tequila... Não é nada perto disso, mas vai bem com isso. Manja o lance?
- Hum hum.
- Espere aí dois segundos, é rápido. – Cheirou aquela trilha de cocaína da grossura do meu dedo indicador. Apontou o nariz para o teto, puxou forte. Pupilas escancaradas.
- E então, Moreira, conte logo para o Fritz sobre nosso projeto antes que uma overdose te leve.
- Foda! Foda! Projeto foda, Geraldão. Conceitual e paradoxal! FODA!
- Do que se trata? – Perguntei, já de saco cheio de estar ali (meu saco enche rápido).
- Se trata de um programa de humor literário. Eu vou esquematizar um show de humor, com os escritores contemporâneos mais interessantes do momento, e vocês dois irão apresentar! Cada abertura de programa terá um número musical diferente, coisa bem Broadway. Sacou? Dançarinas e tudo mais.
- Geraldo...
- O quê?
- Vamos embora desta porra.
- O teu amigo não sacou o lance... Tem certeza que não quer um teco? – O produtor fungava forte ao fim de cada frase.
- Não, mas quero a tequila, tem aí?
- Não... Tem uísque.
- Já serve. É até melhor..

O cara trouxe o uísque e continuou explicando sua maravilhosa ideia da transformar escritores famintos por holofotes em humoristas de TV; quanto mais ele balançava os braços, o seu roupão de banho se abria mais, permitindo ver a nauseante selva grisalha de pentelhos cinquentenários. Decidi acender um cigarro e olhar os quadros de mulheres nuas na parede, melhor assim.
- Não fume aqui dentro, cigarro mata!
- E pó no nariz? É saúde? – Perguntei, tragando forte e soprando para o alto.
- Não, mas na minha casa eu faço as regras. Fumaça aqui é no quintal, amizade. Tem cinzeiro lá.
Sai da sala e o cara continuava falando das dançarinas, do cenário, dos patrocínios, dos esquetes de humor, do que poderia fazer com alguns textos já analisados. Estava elétrico.
O quintal do camarada era tão bacana quanto a casa dele, havia uma piscina ornamentada com pedras, iluminação especial, cadeirões... Legal. Mais legal ainda foi encontrar aquela bela morena fumando sozinha e molhando os pés.
- O do ‘roupão aberto’ te expulsou também? – Me aproximei sorrindo.
- É. Ele não gosta de fumaça. Veadagem pura.
- Pois é. Cheio de pelota no nariz e segurando o pulmão dos outros. É teu marido?
- Credo! É meu irmão.
- Por essa eu não esperava. Você não parece nada com ele.
- Ufa, que bom! Quer encher o copo?
- Claro.
Enchemos os copos com mais bebida. Seu nome era Micaela, e ela parecia ser gente da melhor qualidade. Essa garota era das minhas, sozinha bebendo seu uísque e molhando os pés na água. Legal. Sou do time daqueles que conseguem se divertir na solidão (sem dispensar a boa companhia quando se apresenta), e admiro essa mesma qualidade nos outros. A pessoa que não consegue ficar sozinha, nem por curto período de tempo, deve ter problemas sérios em conversar consigo mesma. A companhia dos outros é maléfica quando se torna muleta existencial de uma alma já vazia e inexpressiva. Divertir-se sozinho também é sinal de sanidade.
- Eu sou a 'faz tudo' do Moreira. Organizo as papeladas, agendo os compromissos, faço levantamento de preços, serviços, o que for.
- Gosta do trabalho?
- Não muito. Prefiro escrever. Aliás, tem livro seu lá no meu quarto.
- Ultimamente tenho visto meu livro em muitos lugares... Mas a grana continua curta. Qual é o livro?
- O do cozinheiro ferrado.
- Que lástima.
- É. Você é casado?
- Atualmente não, não quero destruir com as ilusões matrimoniais de mais ninguém.
Ela sorria. Não era um sorriso bobo, mas também não era um sorriso dono da situação, malicioso, nada, era só um sorriso. Sorrisão gostoso de ver e fazer brotar.
O tempo foi passando, o cara do roupão não me chamava e eu não entrava mais, já estava no terceiro cigarro e o papo lá fora com a irmã dele fluía muito bem. De repente os dois aparecem no quintal, o Moreira já de calça jeans e tênis.
- Vou levar o Geraldão pra conhecer o Zezito cenógrafo. Vocês vem com a gente ou esperam aqui?
Olhei para ela esperando alguma coordenada (não vi nada), olhei para o Geraldo e seu semblante dizia: Não me envergonhe, por favor, não me envergonhe mais
Olhei para o Moreira e seu semblante dizia: Amizade, o ápice sexual da tua noite serão meus pentelhos brancos de relance. Minha irmã não vai te dar nada além de doses de uísque.
Fomos, então, os três cuecas conhecer o tal do Zezito cenógrafo, que por sua vez cheirava mais pó do que o Moreira, e também não gostava de fumaça de cigarro.

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