terça-feira, 24 de setembro de 2013

Coisas que um carioca nunca vai entender em SP (parte 4)

Eu já completei dois anos residindo na terra da garoa e acho incrível como ainda sou surpreendido pela grande diferença cultural entre São Paulo e Rio de Janeiro.
Parece que a cada bimestre que passo por aqui descubro uma nova liturgia paulistana a qual preciso me adaptar. Algumas coisas são bem simples, como por exemplo 'A Carência Policial Paulistana', mas outras são tão complexas que chegam a interferir drasticamente na rotina de um carioca que escolheu morar em Sampa.
Então, em uma tentativa de compreender a origem, razão, ou motivo de certos protocolos sociais dos paulistanos, estou aqui listando as coisas que com o tempo descubro, aprendo, mas não entendo, em SP.
Vamos ao item 4 desta lista...
4- São Paulo e sua falta de noção espacial!
Você deve saber que São Paulo é a maior cidade do país, e certamente uma das maiores metrópoles do mundo. Sob sua selva de pedra, não somos mais do que meros insetos circulando incertos por suas ruas, que parecem nunca ter a quantidade, ou largura, suficiente para comportar o excesso de veículos que congestionam suas vias. Porém, por mais povoada que fique, creio que sempre haverá espaço para os seus transeuntes em lugares públicos e calçadas que, no caso, aqui são chamadas de 'passeio'. Claro, exceto em dias de manifestação popular e de parada gay.
Mas por alguma razão desconhecida, parece que os cidadãos paulistanos não conseguem lidar com toda essa área disponível para os pedestres. Talvez passem tanto tempo pensando onde irão estacionar seus carros, que parece que não sabem se posicionar como um simples pedestre quando saem do automóvel.

Digo isso pelos seguinte exemplos:
Aqui, se você tiver a sorte de pegar um coletivo vazio, logo te cortam o prazer de sentar em um banco sozinho. Certamente o próximo passageiro irá escolher sentar justo ao seu lado, mesmo que todos os outros lugares estejam vagos. O que leva uma pessoa a fazer isso? Será SP tão frio que os moradores buscam calor humano dessa forma?
As vezes, caminhar pelas calçadas fica impossível quando o grupo sem noção da frente, formado por quatro ou mais pessoas, fazem questão de fazer uma formação lado a lado compondo um paredão que cobre todo o espaço, te obrigando a andar no ritmo deles ou se arriscar a ser atropelado cortando o bando pelo lado da rua. A vontade que tenho é de dar um berro nas orelhas dessas pessoas e me aproveitar do momento de susto para atravessar no meio deles e seguir em frente.
Quando chove ou garoa, o que ocorre quase que durante o ano inteiro, as pessoas com guarda-chuva insistem em disputar espaço embaixo das marquises com os outros que não possuem este aparato, ou esqueceram em casa, e precisam desse abrigo mínimo para se protegerem da chuva. Resultando em um monte de olhos furados pelas arestas das sombrinhas. Custa deixar o lado da marquise pra quem tá se molhando?
E por fim, fique de olho nessa sua bunda quando estiver em uma fila na Terra da Garoa. As pessoas por aqui não respeitam aquele limite mínimo de um palmo que eticamente se mantem do 'coleguinha' da frente nesse tipo de ordenamento. Quem vier atrás, vai entrar sem dó na sua retaguarda.
A minha primeira experiencia nessa situação foi traumática. Veja o caso.

Estava eu com minhas compras na fila do caixa do mercado, quando de repente uma senhora obesa e com o carrinho cheio, se posiciona atrás de mim. Tão próxima, que sua bolsa de couro em formato retangular encaixou entre minhas pernas, exercendo uma leve pressão no meu,... Lá mesmo onde você está pensando.
Vendo que a senhora não se tocava que me violava com sua bolsa, me arrastei alguns centímetros a frente. O suficiente para fugir de seu alcance. Mas assim que a gorda notou meu movimento, rolou para o pequeno espaço que conquistei, me atochando novamente.
Suspirei fundo e tentei de novo. E mais uma vez a velha gulosa consumiu a pouca distancia que eu apartei entre nós.
Até que me enfureci...
- Com licença, mas a senhora por acaso está tentando me enrabar?
- Como???
- Desde que a senhora chegou na fila, que está me encochando com essa bolsa. Já tentei chegar pra frente, mas parece que a senhora gosta do meu perfume, tá grudada no meu cangote.
- Ai, que grosso. Desculpa, eu não percebi...
- Não percebeu porque não é a sua bunda que está sendo cutucada. Pois se a situação se invertesse, com certeza já estava fazendo um escândalo, me acusando de tarado, e exigindo uma fila exclusiva para mulheres como fizeram com os vagões de trem e metrô. Então, por favor, vê se dá um passinho pra trás aí!
A senhora se moveu pouco mais de meio metros para trás, e disse:
- Aqui tá bom, o nervosinho? Esse tanto de espaço está dentro do seu parâmetro?
- Eu não sei. Se eu soltar um peido daqui, a senhora consegue sentir o cheiro daí?
Porque isso nunca acontece no Rio de Janeiro...
No Rio se vive em um estado de paranoia constante, e um contato tátil involuntário entre desconhecidos nem sempre será encarado como uma simples coincidência. Se acaso alguém esbarrar 'casualmente' em você na cidade maravilhosa, o mais correto a se fazer é tatear os bolsos logo em seguida e conferir pra ver se todos os seus pertences ainda estão lá. 
Esse é o tipo de coisa que faz o carioca manter uma distância segura das pessoas ao redor em ambientes públicos.

E para quem retrucar dizendo que estou exagerando com as palavras, cito o 'golpe da saidinha de banco' ao estilo carioca. Onde o olheiro ao invés de usar um celular para avisar aos compassas do alvo a ser roubado (por isso a criação da lei ineficaz que proíbe o uso de celulares dentro das agencias bancarias), o bandido apenas simula um 'esbarrão' e no processo marca a vítima colando uma espécie de adesivo na roupa do coitado que sai do banco sem saber que está marcado para ser roubado pelo comparsa do bandido que aguarda na próxima esquina.
Enfim, o fato é que eu sempre confiro os meus bolsos e procuro adesivos em minhas roupas toda vez que esbarro em alguém após usar o caixa eletrônico, e fica complicado conviver com esse 'TOC' quando se mora em uma cidade onde, não tem jeito, todo mundo se encosta.

Veja também outros itens dessa lista:
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. Sou paulistana de nascimento e sempre vivi na cidade. Achei muito bacana os textos e me diverti com a maior parte. Só não entendi de onde veio a idéia que chamamos calçada de passeio, pois nunca ouvi isso em todo tempo que vivo aqui.

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