sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Uma pistola engatilhada, dois cliques e três aspirinas

...quando um simples e-mail consegue salvar uma vida

Lembro que era noite de natal. As coisas não correram bem para mim naquele ano. Profissionalmente sim, o ultimo livro estava vendendo bem (inacreditavelmente vendia bem), mas o resto estava de cabeça pra baixo, em todas as formas que nos fazem formular e reformular a tese do irremediável (antes de pensar com fé novamente e mandar tudo que está te ferrando para a lua).
Hospedei-me num hotel barato, ali pelo Centro da cidade. O meu quarto tinha cheiro de coisa que foi guardada no armário por muitos anos; cheirava a mofo, umidade, e para piorar (com intuito de melhorar) jogaram ali um perfumador adocicado de ambiente, coisa doce demais. Porém, pensando no preço camarada que paguei não posso nem me queixar das baratinhas fodendo na pia do banheiro.

Espalhei alguns livros pela única mesinha do quarto, deixei o laptop ali também, ao lado dele uma boa garrafa de vinho tinto esperando pelo fim. Na mala (uma bolsa velha, para não faltar com a verdade), ainda repousavam aspirinas, paracetamol, um jornal do dia, cigarros, uma barra de chocolates e uma pistola. Lá embaixo na rua berrava uma musiquinha de natal ordinária, lembro que o final da canção dava créditos ao vereador Evengardo Sobrinho, que desejava aos seus eleitores um feliz natal; e depois começava a cantoria novamente, com aqueles sinos badalando estridente nas caixas de som. O natal é mágico, meus amigos. Mágico?? Sim, pois a grande mágica do natal é matar ou curar o depressivo (está mais para matar). O natal é um vazio a ser preenchido obrigatoriamente (com data e hora marcadas) para comemorar o aniversário de um camarada bacana que já se foi; mas eu duvido que ele queira que comemoremos com tanta comida e presentes e o caralho a quatro como acontece. Cada criança, com sua lista gigante de presentes, e os pais, no crediário, no cheque, na mão do palhaço, não mão do banqueiro! O natal é um capitalizador de grana, atualmente é assim e a gente sabe que é, o comercio sabe, mas mesmo pensando desta maneira o natal consegue me fazer refletir/lembrar sobre questões que eu já não gostaria de resgatar; traz lembranças invasoras com suas sinetas, e cores, e cheiros, e sinais 'semidesintegrados' de esperança coletiva. Um carma!
Desci até a recepção e pedi a porção de batata frita que eu vi no cardápio, bife acebolado também. Grande ceia de natal, o jantar dos campeões para o campeão. Comi e depois caí dentro do vinho, lendo o caderno cultural. Sempre me senti um merda por não conseguir fazer idêntico aos grandes pinguços da história literária: Beber de estômago vazio, como se a comida fosse para os porcos e o álcool para os homens. Eu preciso petiscar e, seguindo a lógica ridícula que eu criei agora, seria uma espécie de “metade porco - metade homem”.

Tento escrever um conto sobre um cara ferrado que decide morrer no quarto de hotel, sozinho, na véspera de natal, e quando eu estava conseguindo rabiscar algo recebo uma mensagem no celular. Era uma boa amiga desejando felicidades e aquela coisa toda. Achei legal ter recebido alguma mensagem, legal mesmo. Mas aquilo me tirou o clima derrotista do conto. O meu personagem era abandonado por todos, nada de mensagem de amigos, nada. Já não queria escrever sobre aquele cara. Decido então dar uma conferida no e-mail. Mais mensagens de amigos e parentes, uma porrada de mensagens, e outro e-mail de leitor que, estranhamente, tinha acabado de chegar, naquele instante:
Caro escritor invisível, 
Você deve achar estranho um leitor escrever a ti na noite de natal. Pois então... Eu acabei de comer a minha macarronada instantânea, sozinho em meu apartamento, e com certeza você conseguiu me salvar hoje.
Uma tia minha, de nome Augusta, que sabe que eu adoro ler, e de preferência livros bem diferentes, me presenteou hoje cedo com o teu livro da Invisibilidade. Eu acabei de ler, agora, e precisei ligar meu computador para te dizer: Obrigado por ser isso, obrigado por ter dito toda aquela merda no meu ouvido hoje, e porque eu te juro que se tu não fala um monte no meu ouvido hoje eu tinha morrido! E estamos aqui na mesa, desde então, eu e as tuas palavras. Essas pedras voando, quebrando com as minhas verdades e com qualquer verdade inquestionável. Voando longe, levando a ideia de que podemos realmente facilitar o caminho humano. Só escrevi para dizer isso aí mesmo, amigo; obrigado pelo que tu fizeste por mim, e daqui te desejo um feliz natal.
Pois hoje eu digo que aquele foi o meu melhor natal, e aquele leitor do e-mail (que talvez esteja lendo agora) me foi mais valioso do que qualquer relatório de vendas. Passamos o natal juntos em espírito naquele 2011, e conseguir isso em vida deve ser o mais próximo do ápice que qualquer escritor pode conseguir. Motivo de sobra para seguir trabalhando.


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