sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Como despachar um escritor vagabundo na encruzilhada

Agora que a velha morreu, o negócio é tirar o sobrinho vagabundo da casa de trás. As primas conversavam:
- Um camarada que não trabalha, só bebe, fuma e escreve! Como é que faz??
- Escreve o que, hein...?
- Um monte de porcaria! Um jumento desses vai escrever algo que preste, Abigail?!
- É... Pois é... Você já leu alguma coisa?
- Nem perco o meu tempo!
- Coitada da mãe...
- Coitada da família toda, a mãe é uma idiota! Agora ele vai sumir; pelo menos da casa ele some. E que vá para o Diabo que o carregue!
- Quem vai morar lá depois?
- Isso é o de menos... O importante é ele sair. Já falei com o Pai Valdenir de Ogum, deixa esse traste comigo!

Acordei de manhã bem cedo, caminhei para pegar o jornal, e na porta da minha casa havia, digamos, uma festinha montada para o além: pano vermelho, velas pretas, cachaça, bife acebolado (tava cheiroso aquilo lá), farofa amarela, foto 3x4 da época em que eu cursava o ensino médio, moedas, cabeça de cera (uma obra de arte), maço de cigarro (quase fumei aquela porra)... Coisa linda! Seja lá qual for o lance alguém deve ter ficado bem feliz no inferno por ter recebido este mimo.
- Alô Ernesto, sou eu.
- Fala maluco!
- Vou aceitar o teu convite. Vamos rachar o apê, pelo menos por alguns meses até eu encontrar uma caverna pra mim. Essa família de mesquinhos imbecis aqui já deu.

O Ernesto se animou. Desde quando vendeu o apartamento em Madureira e passou a viver de aluguel no Catete, a vida do meu amigo mudou bastante. Já passou até fome para, segundo ele, estar mais perto do núcleo cultural carioca.
- Fizeram macumba para eu sair daqui, Ernesto. Só que eu já quero sair faz tempo. Gastaram pólvora à toa.
Arrumei as malas, as caixas com os livros, o computador velho, algumas garrafas de vinho, meus poucos pertences e pronto. O Ernesto veio me buscar de carro.
- E aí?
- O quê?
- Vamos sacanear o macumbeiro safado hoje ou amanhã?!
- Esquece essa porra, o lance agora é seguir em frente. Preciso escrever mais, trabalhar mais.
- Eu já comprei uma galinha da Angola.
- Pra quê?
- Vamos montar uma macumba, de sacanagem na porta do macumbeiro, com farofa, vela acesa, foto do Vagner Love, bandeira do flamengo e tudo mais.
- Não comece, Ernesto. Você é doente.
- To falando sério!! Vamos sacanear, eu odeio gente que faz isso aí!
- E o meu flamengo tá fazendo o que nessa história??
- Fritz... Toda a macumba que eu vejo tem uma bandeira do flamengo.
Depois de muito conversar, Ernesto desistiu da ideia de despachar a 'macumba teatral' na porta de alguém. Mas agora não sabia o que fazer com a galinha que comprou, e ficou preocupado.
- Ué... Vamos comer a danada. - eu sugeri.
- Não posso; agora a galinha é de macumba. Tem que respeitar esse negócio.. Você mesmo disse.
- Ernesto de Deus... Você é um cara estranho! No entanto é um bom amigo.
- Você também é. Hoje nós vamos ligar para o pessoal e encher a cara! Vai dar um livro novo isso aí.

(Espero arrumar logo apartamento decente. E espero não estressar rápido demais com as loucuras do Ernesto.)

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