sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Do fundo de um quarto escuro da casa dos fundos

Uma casinha de fundos para que o sol das minhas virtudes morra em paz

A empregada gritou meu nome pela janela da casa da frente. Nada bom.
Aqui é um terreno grande com duas casas dentro dele, e eu vivo na casinha dos fundos. Na frente é a casa que pertencia ao meu bisavô (homem que me apresentou os primeiros livros).
- Seu Jonas, socorre aqui que a Dona Elmira tá passando mal!!

A família já esperava por isso. Os médicos deram péssimo diagnóstico: meses, poucos meses, câncer avançado. Contudo não é fácil esperar pela morte de alguém, assim como quem espera por um ônibus sentado no ponto, passivo, ainda mais se for alguém que você ama.
Mas aí o cara cruza o mesmo caminho que percorre desde que aprendeu a andar, e repara que a casa velha, guardiã do último tijolo do seu passado mais distante e do (meu) futuro mais presente, silencia e treme no ritmo do nosso batimento cardíaco. E ao olhar a tia avó revirando os olhos sem saber o próximo passo fora daqui, não via mais a doença nem a velhice, via apenas os sonhos que ela o permitiu sonhar.
- Quero transformar os meus rabiscos em livros. O que acha?
- É claro, meu filho! Conte comigo! Você tem cabeça boa pra isso aí.
- Quero ir à Marte, minha tia. O que a senhora acha?
- Você é um homem inteligente, talvez consiga! Vamos começar pela Lua, que é mais perto.
- Minha tia, e se eu tentasse comer a Cindy Crawford?
- Ah, vai conseguir!
- Lutar contra o Lennox Lewis??
- Vai ganhar!
Nada era impossível ao fantástico Jonas Fritz, grande sonhador compulsivo, embalado por alguns (dois) parentes igualmente sonhadores que o acompanharam em suas ilusões. 
Até que atraquei minha última ilusão na literatura, esta mãe dissimulada que acolhe aos piores, oriundos de algumas (muitas) inimagináveis derrotas da alma camufladas como experiências salvadoras ou renovações heroicas. Um foda-se para todos nós e nossos topetes ridículos. Qualquer sol de fim de tarde em um casebre de fundos no Alasca traz mais calor do que nossas belas palavras a tostar nas areias do deserto comum... Um deserto entre as pernas, um deserto na mente, um deserto entre nós..
A Ambulância chega, o primeiro atendimento é feito ali mesmo. O piso de tábua corrida range (mais triste, desta vez), a cachorrada dispara latidos neuróticos. O tempo está mudando. Os velhos se foram. Os velhos estão indo! A casa que esteve aberta por cem anos é fechada pela primeira vez, e eu sinto nos ombros o peso cruel de cinco gerações ao fechar sozinho aquela porta. Meus mortos estão tristes hoje. Ontem mesmo estavam vivos, na lembrança da casa. Vivos na lembrança da tia querida. Vivos em cada enfeite de estante, porta retrato, marca nos móveis, detalhes, ranger de tábuas.

O tempo está mudando..
Desculpe-me por não ser o "sucesso" que a senhora sempre imaginou, apesar de discordarmos sobre a lógica do sucesso. Torça por mim aí do cosmo.
(Preciso beber... Minha grana só deu para uma garrafa de conhaque nacional, então é o que teremos para hoje. Desejem sorte ao meu fígado.)
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