terça-feira, 8 de outubro de 2013

Um dia quente e um assassino frio

Bem vindos a estreia da 'Palavra Penada', a mais nova coluna do DpM cunhada pelos dizeres do Afobório. Aqui, como o próprio nome sugere, você encontrará contos e textos que transcendem o senso comum.
Segure a alma dentro do corpo e prenda sua respiração, as próximas frases podem causar danos irreversíveis ao seu cerebelo.
Ele diz e desliga...

Cansada. Abriu a porta. Acendeu a luz. As compras caíram. Ela também. A cabeça partiu-se no meio. Há sangue nas paredes. Nada no lugar. Execução simulada como sendo assalto.
Dá o play. Ressoa Bach. Está nu. “Excelente gosto musical”, disse no tempo em que fuma e sobe suas calças. Sim, é necrófilo. Antes de sair guarda no bolso o disco e algumas joias.
O silêncio é total. Como se houvesse almofadas em seus coturnos chega até a passagem que dá para o saguão. Espiona pela fresta da abertura. Vê o porteiro que dorme com seus pés apoiados no banquinho enquanto baba na gravata.
Respira fundo. A lâmina é reluzente. Ágil e certeiro. Novo crânio é dividido em dois. Mais um cadáver estirado.
Não há ninguém na rua. Seu Chevy Impala 67 está no mesmo lugar. Usa o sobretudo e cobre o machado. Enquanto anda na direção do automóvel não sente remorso, mas uma ereção sim. “Gostosa”, ele recorda a penetração.
Abre o porta-malas. Deposita a ferramenta. Fecha. Está no volante. Dá a partida. Acende um charuto e roda por duas milhas.
Estaciona. Sente o cheiro de gordura vindo da espelunca. Toma o celular na mão. Efetua a chamada.
“Alô”, fala de um jeito apreensivo quando atende. “Meus pêsames. O senhor está viúvo”, ele diz e desliga.
Está feito. Beija a amante. “O caminho está livre”, fala o cinquentão.

Instantes depois o assassino desce do carro. No balcão pede um conhaque. Uma mulher percebe o bolo de dinheiro em sua mão. “Oi, bonitão”, pensa que é esperta.
Duas horas mais tarde, no lado de uma rodovia movimentada, existe uma terceira cachola rachada em duas partes. Está morta. Não resiste e invade seu ventre! É a sirigaita do bar.
Toca o telefone. “Tem de sumir”, diz o cara. “Eu já evaporei”, responde, desliga. Volta até o veículo. Roda por dois dias sem parar.
Um sínico viúvo chora no funeral. A mocinha veste a lingerie. “Hoje tem festa”, ela pensa e sorri. O matador ronca em um motel vulgar de beira de estrada e cheio de baratas. Está tranquilo, dorme. Sabe que fugiu!
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