sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Demônios de nicotina no porta-luvas de um carro cheio de multas

E lá está você (eu) mais uma vez.. Ferrado, tombado, inseguro, porém renitente. Caminhão carregado de questões.
- Cadê a grana?!
Que grana? Vai trabalhar meu camarada!
- Mas eu sou escritor, já trabalho!
Que escritor?! Erra pra caramba, escreve palavrão, muda o ritmo como quem troca de roupa, usa as palavras de forma desajeitada. E, além do mais, caro rapaz, escritor não é profissão. Leia as entrevistas de alguns grandes autores do momento. Escritor é brincadeira saudável que fulano faz no final de semana, entre uma foda e outra e um passeio revigorante. Você não é; e nem nunca será um escritor do agora.
- Bem, não foi o que me disseram alguns editores franceses..
- Sua publicação lá fora é um erro crasso.
Entrei no carro para refletir em movimento, assim não penso mais em matar alguns caras esnobes com golpes de calhamaço. Dia amarelo, quente, praiano, sufocante. Vou parar de fumar e viver ao menos mais 50 anos nessa merda aqui, para infernizar com páginas e mais páginas de qualquer coisa que brotar na minha mente. O lance é manter o ritmo. Dirijo pela Avenida Dom Hélder Câmara, ligo o rádio. Está tocando uma canção meio pop rock, atual, eu geralmente mudaria de estação por isso. No entanto esses caras são bons, até que enfim. Acendo um cigarro. Em seguida lembro-me de alguns sujeitos babacas no ringue literário querendo eternidade... Jogo o cigarro fora, depressa.
O celular apita no banco do carona, uma sms da minha Jazz. Na mesma hora uma viatura policial passa voando atrás de dois motoqueiros, bem ao meu lado. Ouço disparos, entro numa rua pequena.. O ódio (nem tanto) e o amor me motivam juntos desta vez, acompanhados de um estranho senso de justiça que flutua para bem longe do cerne comum.

Ano esquisito esse de 2013. Desde 2010 eu não publicava tão pouco em um ano, mas em contrapartida um texto meu foi selecionado para representar no exterior uma parte da atual literatura brasileira. Fui indicado a prêmios literários, também.. Voltei a querer de verdade (inteiramente) uma mulher.. Coisa impensável até ontem. Coisas impensáveis aos montes!
Agora eu olho para esse maldito conto traduzido em francês, trezentas vezes ao dia, no mínimo, e ainda acho tudo deveras estranho para um cara como eu. Na orelha do livro os símbolos oficiais dos governos, essa coisa toda... Parece utopia.... Estar tão ferrado e tão bem. Tão doutor e tão vagabundo. Tão seguro e tão bobo. Tão sóbrio e tão etílico.
Tão ridiculamente humano afinal.

(se você nunca dançou sozinho, meu camarada, também nunca vai saber dançar acompanhado. Até a próxima.)
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