terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Em busca de um covarde para incendiar

Viajava entre Skay e Longe. Eu arrepiava a via 99. Não sei contar ao certo como foi. A impressão que guardo comigo, é que ultrapassei uma película invisível e só, de um lado estavam os vivos, e do outro estavam os mortos.
Acordei com a moto no chão, ainda funcionando. Foi quando pude ver o meu corpo estirado. Havia uma mulher histérica ao telefone e um Cupê fora da estrada, todo lanhado na porta do motorista. Contudo, não havia um arranhão sequer na moto e em mim também não.
Eu me lembro de ir até ela, preocupado com o horário. Não podia me atrasar para o casamento da minha filha, eu não me perdoaria, mas também não queria deixar aquela senhora naquele estado tão nervoso.
Argumentei várias vezes e não demorei muito para perceber que não me via e não me ouvia. Aí eu comecei a me preocupar, mas como não tinha certeza de nada ainda, fui até a moto e me mandei.

Pelo caminho pensei: foi incrível, olhar para trás e ver um corpo como o meu e uma moto como a minha. Será que posso fumar? Grudei no freio e parei no acostamento. Passei a mão no maço e quando me dei conta de que sim, mesmo com a moto parada, senti como se ainda voasse pela estrada.
Eu não ligava para a minha morte, mas para o cigarro sim, eu realmente sou viciado nessa porra, e baforava como quem se vingava do ministério da saúde e de sua advertência: fumar causa enfisema pulmonar. Todo mundo que fuma espera por uma chance assim.
Olhei no relógio. Eu tinha uma hora e cinquenta minutos para percorrer cento e trinta quilômetros e impedir a maior merda do mundo. Não me restava alternativa, além de acelerar.
Cheguei à cidade de Punk uns quinze ou vinte minutos antes da hora e fui direto para a igreja. Os almofadinhas já lotavam a catedral. Parei na porta e procurei avistar o noivo. Enquanto isso, o meu estômago embrulhava por conta daquele cheiro de perfume doce.
Não demorou muito para que eu encontrasse o maldito no altar. Voltei até a moto e abri o tanque. Senti aquele cheiro forte. Usei uma garrafa de cerveja para guardar a gasolina e com a minha bandana, terminei de fazer o coquetel molotov.
Tomei o caminho de encontro ao FDP do noivo. Acendi e joguei. Deu um estouro. Em poucos segundos, o fogo já tomava conta de todo o altar. Virou uma gritaria e uma correria, ninguém entendia o que estava acontecendo. O covarde terminou torrado como um pedaço de osso. Ele merecia. Não posso negar que ver todo aquele caos me fez muito bem, exceto pela parte em que notei a minha filha chorando na porta da igreja.
Sara, a mãe dela, nunca valeu nada. É viciada em heroína e não cuida nem mesmo da própria vida, ela jamais ligou para a nossa filha. E mesmo sendo um motoqueiro casca-grossa, eu fiz o papel de mãe e pai, do meu jeito, mas fiz.
Você deve estar se perguntando: por que esse cara fez tudo isso? Eu explico: o que você faria se a sua filha estivesse prestes a se casar com um covarde que bate nela? Se eu houvesse descoberto antes, já teria me livrado desse merda. Mas a Sara, bem, ela nunca me disse nada. Como eu falei: ela nunca cuidou nem dela mesma.

Foi muito difícil para a minha filha superar o trauma do incêndio e tal, mas ela conseguiu, deu a volta por cima e ficará bem.
Sara está internada em uma clínica para viciados psicóticos. Nunca mais sairá de lá. A heroína cobra um preço caro do seu usuário. É como carcomer seu cérebro e sua alma.
A senhora do cupê bateu as botas recentemente, tive a chance de falar com ela e acertar tudo. Não queria vê-la com peso na consciência. Seu nome é Dick, trabalhava como costureira e bebia muito, a cirrose a pegou.
Você deve estar se perguntando: o que eu faço em minha vida de morto, não é mesmo? Eu fumo e ando por aí, curtindo a minha moto, mergulhando no horizonte sem fim, em busca de covardes e FDP para incendiar.
O próximo da lista é o noivo da filha da senhora Dick. Esse merda não perde por esperar.
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