terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O dinheiro é um bom criado, mas um mau senhor

Gon trabalhava há muito tempo na mercearia do senhor Soc, um velhote avarento e difícil de lidar. Quando o patrão bateu as botas, o leal funcionário não sabia o que fazer, pois não conhecia nenhum parente do falecido e por tal motivo, colocou um anúncio no jornal, para que um possível herdeiro se apresentasse para requerer seu direito.
Certo de sucesso, Gon viu seu objetivo falir. Confuso e sem saber que medida tomar, manteve-se cuidando do estabelecimento, na esperança de um dia ter uma resposta para o seu anúncio.
Certa noite, já muito cansado, Gon fechou as portas da mercearia e foi para o seu insignificante dormitório nos fundos da mesma, precisava esticar o seu esqueleto e descansar, pois mantinha o estabelecimento aberto por doze horas seguidas, diariamente. Sob a luz da vela, ele quase dormia quando viu a maçaneta da porta fazer o seu tradicional ranger enquanto girava no sentido “abrir”.
Com medo, arregalou ainda mais os seus olhos e disse:
— Quem está aí?

Não ouviu nenhuma resposta, mas passos por conta do assoalho de madeira. Munido de toda a sua coragem, passou a mão em um porrete e pensou estar diante de uma tentativa de assalto: “Eu pego ele”, imaginou em silêncio.
Com todo o cuidado, abriu sua porta e analisou o corredor em suas duas direções, estava vazio. Saiu pisando na ponta dos pés e ouviu um som conhecido: “Ele está no caixa”, calculou Gon, que continuou sorrateiro nas sombras e quando chegou até a porta que ligava o corredor ao espaço de entrada da mercearia, teve uma grande surpresa. A vela sobre o balcão acendeu, a caixa registradora estava aberta, e para deixá-lo pasmo, viu nada mais e nada menos do que a alma penada do senhor Soc a contar o dinheiro.
— Patrão! É o senhor mesmo?
Levou uma encarada potente do velhote. Era o mesmo de sempre. O mesmo nariz torcido. O mesmo cheiro de ranço. A mesma energia FDP.
— Não esqueça Gon, tudo isso é meu! Eu não tenho herdeiros. Por toda a minha vida tudo que tive é a mercearia, não vou entregá-la a ninguém, nem mesmo a você — disse o fantasma do senhor Soc.
— Claro, patrão, eu me mantive aqui cuidando de tudo, na esperança de que alguém reclamasse o seu direito. Não fiz nada, além disso. Nunca me passou pela cabeça tomar o que não é meu.
— Mas e o dinheiro que está faltando? Seu mentiroso — disse o senhor Soc.
— Bem, eu tive de comer, de comprar produtos para a mercearia; de consertar a goteira em meu aposento; enfim, a vida segue patrão — alegou Gon, tremendo suas pernas.
Naquele instante, a manifestação mais fantasmagórica possível ocorreu. O velho Soc, de tão apegado ao seu dinheiro, conseguiu apossar-se de seu empregado Gon, que mais surpreso do que nunca, sentia-se tão velho como seu falecido patrão e seu âmago tão pesado como a avareza do próprio.
No mesmo segundo, o agregado ouviu uma voz em sua cabeça:
— Gon, nada mudou por aqui. Eu mando e você obedece. E a primeira coisa que quero, é que mantenha a sua boca fechada e o dinheiro dentro do caixa, do meu caixa. Vá para o seu quartinho, estou cuidando da contabilidade. E amanhã, acorde cedo, como você sabe, eu odeio funcionários preguiçosos.
No mesmo instante, o espírito do velhote deixou o corpo do rapaz e voltou para o caixa, para seguir com a contagem do valor.

Ainda atordoado, Gon não discutiu a ordem e foi para o seu cômodo. Passaram-se anos e realmente nada mudou: o senhor Soc mandava e ficava com o dinheiro, enquanto que o pobre Gon, obedecia e sofria como um bom camelo, dedicado e honesto como sempre foi.
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