sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

No seu maldito aniversário...

E então alguém lhe dá parabéns. Você se lembra de que é seu aniversário. Alguns anos antes você estaria comemorando, planejando coisas legais para fazer, evidente. No passado estaria juntando moedas para passear no Beto Carreiro ou na Disney... Estava pensando em ser como Rocky Balboa ou algum herói bacana das revistas. Então alguém lhe deu parabéns. E tudo me veio
E tudo se foi.

Quando sentado de frente ao cão, seu amigo (talvez o único), e ao bolo de um palmo (de chocolate, e saboroso até) apagam-se diante de você as pequenas velas da antiga expectativa, e percebe-se o tempo traiçoeiro armando com a morte..
A tarde é quente. A garrafa é vazia. A fila da solidão é uma náusea constante e dolorosa.

Amo novamente na expectativa de não apagar todas as chamas como se apagaram as velas do bolo minúsculo. Olho meus livros encalhados e o fim dos meus dias amontoados ao lado das contas e do desespero. Rezo, pedindo desculpas a alguém no céu, figura que eu nunca vi (mas verei), e peço outra chance para ser um homem, e não um escritor (apesar de saber o quão impossível se tornou viver longe do papel).
Seria menos triste se colocasse um chapeuzinho de festa (ou um balaço na testa).. Pois, alguém lembrou. Alguém lhe deu parabéns.
O povo da colina ainda julga sem saber dos longos dias, e de tuas lutas incessantes.. Eles não fazem ideia das feridas (nem querem), para além de tuas conquistas rasas, e de tuas manhãs soturnas e de teus cheques promocionais. Cada um com sua razão, sorriso, tempo, sucesso, dádiva.

É absurdamente cruel viver de pé na fila dos sonhos. É absurdamente cruel desistir no segundo ou terceiro round, e mais ainda é continuar lutando com os braços quebrados. Eu queria tragar aquele cigarro no lugar do velho mendigo. Ele percebe e me oferece um trago, não aceito..

A companhia de luz aparece e corta minha energia. A companhia telefônica faz o mesmo com meu telefone.. E no momento em que eu assopro as velas do bolo minúsculo (imaginem que estou com aquele chapeuzinho de festa) tudo se apaga de verdade, e isto parece ser a tônica da minha vida. Um eterno apagar de quem teima iluminar caminhos.

Amo, sim, pois preciso sentir que a escrita verdadeira, sem rótulos e engrenagens de sedução, não levaram tudo de mim. Ainda sou um homem. Sinto que algo permanece aceso. Sinto que engano a morte e o futuro, dia após dia.
Muitos se lembraram. Eu toquei seus rostos pela tela.
Então alguém me deu parabéns.

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