terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A Garota Morta em Vida

Eu estava molhada e tremia de frio ao tempo em que andava pela alameda alagada, mas me sentia bem porque sabia que em meu bolso havia a junk, a fórmula mágica pra resolver todos os meus problemas e frustrações. Essa sensação pela droga eu entendia muito bem, o que eu não entendia, ou pelo menos me esquecia, era de que ela era a fonte de tudo de ruim que me cercava. Os viciados estão sempre no mesmo círculo doentio, porque pra ficar feliz, você precisa conseguir uma coisa que vai te dopar e te fazer pensar que está tudo bem, até que essa coisa acaba e o seu mundo rui mais uma vez. A droga é o veneno e o soro. Entende?

Cheguei até uma casa abandonada e vi que os degraus da fachada decadente impediam que a água entrasse e por isso, estava seca em seu interior, tão seca quanto as minhas veias e a minha alma de zumbi paranoide. Procurei um canto sombrio mais ao fundo em que pudesse me camuflar no breu e conseguisse cuidar da porta. Sentei e em minutos estava com a minha seringa improvisada montada. O mundo da junk é destrutivo por isso, você economiza até na seringa pra poder tomar mais um pico, uma agulha, um conta-gotas, um isqueiro e algo pra derreter a parada são as coisas que você precisa. Nossa... Que situação desesperadora tomava conta da minha vida. Eu tinha de achar alguma coisa pra derreter a cocaína. Procurava na escuridão por um pedaço de vidro ou de lata pra fazer de colher.
Eu nem parava pra pensar em todo o tipo de bicho asqueroso que havia ali, ignorava a chance de me infectar com doenças fartas e brutais. Mas também, não sei se encontraria pelo meio daqueles escombros deprimentes, uma chaga maior do que aquela que eu injetava em mim. “Achei!”, disse contente. Era uma lata de refrigerante, na verdade, um pedaço dela, provavelmente algum outro viciado usou uma parte ou até mesmo aquele mesmo pedaço pra esquentar sua própria porção de junk. Só que isso não me importava. Eu precisava dela e quem precisa de cocaína tem pressa. Quando injetei, senti aquela sensação fervente em minhas veias e no mesmo instante, eu me achava pronta pra dar alta da minha depressão. E como era bom sentir aquilo dentro de mim.

Eu não tinha noção do tempo em que estava ali, mas já encontrava dificuldade pra achar um espaço livre em minha pele que pudesse meter a agulha. Só o que sabia era que me sentia confortavelmente entorpecida e feliz, se é que posso usar esse termo pra simbolizar a minha euforia infernal de viciada. De repente, não mais que de repente, vi o meu contato usando o mesmo degrau que usei pra escapar da água, plantado na entrada como se fosse a própria morte e seus abutres caçando o meu corpo e a minha alma. “Merda!”, pensei. Fiquei quieta e mesmo com toda a vontade do mundo de me picar mais uma vez, hesitei, eu sabia que a chama do meu avio chamaria a atenção dele e me delataria.
O relógio parecia parado por causa da minha necessidade, então quando vi que ele não estava mais ali, pensei que estava segura, acendi o avio pra derreter mais uma dose. Perdida na minha paranoia, senti que fui puxada com força por uma mão agressiva e tombei no meio da imundice que cobria o piso. Era ele, o enfermeiro, o meu contato. “Toma”, me disse. Eu não sabia o que responder, o olhava com a droga em sua mão. Eu não disse nada, então ele foi claro: “Quero a minha grana”. Eu não tinha grana e nenhum objeto que pudesse interessar pra ele. Se ao menos eu fosse homem eu poderia oferecer o meu tênis, mas eu não era um homem. “E agora?”, pensei.  Mais uma vez, revirei meus bolsos, mas só encontrei a junk. Eu estava em maus lençóis e tinha de pensar em algo rápido se quisesse me safar. “Anda, passa a grana”, ele me disse, depois de um intervalo bem curto, completou: “Tenho que dar plantão no hospital”.
Nesse momento eu tremi, pensei em tentar fugir, mas sabia que isso ia dar merda, então decidi dizer a verdade: “Cara, eu achei que não viesse mais, por causa da chuva, então adiantei o meu lado”, falei. Os olhos dele se encheram de cólera e eu vi em seu olhar sinistro as próprias chamas do inferno. Ele me segurou pela garganta com toda a sua força, naquele instante levei a minha mão em seu braço e ele gritou. Eu sabia que havia apertado em suas feridas de viciado. Por causa da dor, ele me largou, mas mesmo assim conseguiu acertar o meu rosto com um tabefe daqueles. Eu caí e antes que pudesse ficar de pé, estava coagida pela sua faca reluzente. Um tremor tomou conta de meu corpo, eu sentia todo o medo do mundo e sabia que teria de dar um jeito de pagar. Eu o chamei, e se você chama uma entrega, tem que pagar. Não tem saída! Foi quando tomei a iniciativa: “Posso chupar, se quiser”, falei. Eu sabia que muitas garotas faziam isso pra ganhar a sua dose diária de junk. E pra falar a verdade, por mais que isso soe de um jeito horrível pra você, essa era a minha única chance, naquele momento. Tinha consciência de que ele não iria embora sem nada, um sujeito como ele só se interessa por grana, droga, sexo e sangue.

Ainda com a faca na mão ele foi me conduzindo sob a ameaça da sua lâmina pontiaguda até a parede, e me beijou. Eu sentia o gosto de remédio e ópio em sua boca molenga e nojenta, talvez tão nojenta como a minha, só que era diferente, porque por mais que eu me sentisse imunda, a imundice dele ainda assim me era algo alheio, me parecia cheia de um mal maior que o meu. Não sei se pode entender, mas essa é a melhor maneira que eu encontrei pra falar sobre isso. É claro que eu queria reagir, afinal, chupá-lo não significava beijá-lo, mas eu sabia que não era o momento certo pra ter escrúpulo, mesmo porque, compreendia que depois que o pesadelo de ceder a ele terminasse, teria a chance de sumir de seu alcance, ao menos por um tempo, um dia ou dois, no máximo. Ele apertou meu peito com força, eu senti uma dor concentrada e precisa que me fez perder o tempo do beijo. Era asqueroso demais aquilo, mas eu fechei os olhos e procurei não fazer nenhum movimento brusco demais que pudesse irritá-lo ainda mais. Colaborei e quando ele segurou em minha nuca e forçou-me a ficar de joelhos eu não resisti e abocanhei aquele pau mole que cheirava ruim. Um pedaço de nervo sem qualquer rigidez ou sinal de ereção. Mas isso não importava pra ele. Era o pagamento! Foram os quinze minutos mais longos de minha vida. E quando ele me soltou, agradeci a Deus. Ele me passou a junk e disse: “Você pode se dar bem com isso, garota”, e foi embora.

Guardo tal dia comigo. É como se algo houvesse morrido dentro de mim. Por que embora as minhas veias estivem quentes de junk, eu me sentia fria em meu espírito. Depois de entregar tudo que eu ainda tinha a ele, não havia mais nada ao meu alcance que, não fosse mais uma dose. Foi a primeira vez que fiz isso. O meu corpo era uma moeda de troca, uma moeda que invariavelmente carregava comigo, eu tinha noção de que estava na lata do lixo. Se eu havia feito o que fiz não era por outro motivo que não fosse realmente o meu fim. 
Depois de chupá-lo, me sentia mil vezes pior, como o fantasma de um zumbi paranoide, uma alma penada que fervia e flamejava pelos confins da junk e sua dor, interessada em mais um pico e só!
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