terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Atuando em um filme ruim da minha vida

Ouvi a campainha. Abri a porta, e olhando na horizontal, não encontrei o visitante, até que um chute na canela chamou minha atenção. Assim que avistei o promotor da pancada, lá embaixo, ouvi:
— Precisa fazer algo por mim — disse —, eu não quero mais continuar com isso. Cansei de atuar.
Meus olhos marejaram ao ver os dele inundados de toda a agonia que só as lágrimas sinceras conseguem produzir. Posso afirmar que me consternei como talvez, jamais se repita.
Desviei meu olhar sem saber o que deveria responder. Então, naquele momento, cocei meus miolos como quem revirava um galpão em busca de algo importante. Sim, eu catava a resposta certa por entre a minha bagunça.
“Por onde anda a merda da sabedoria?”, pensei.
— Por que está com essa arma na mão? — falei.
— Porque é o único jeito — respondeu.
“Que merda”, foi o que me ocorreu.
— Desembucha, garoto, qual é a sua? — disse.
Ele soluçava. Via que não estava em seu estado normal. Acho até que em pouco tempo, poderia se transformar em um monstro. Via fogo em seus olhos. Uma raiva incontrolável.
— Quero que atire em mim — falou encarando meus olhos como se pudesse encurralar até mesmo a minha alma.
Raciocinei em pegar o ferro e ligar para as autoridades.
— Entregue a arma — falei.
Aí ele me deu a volta. Sacou outra pistola da cintura, e a apontou em minha direção. Eu fiquei gelado.
“E agora?”, refleti.
— Está carregada — me disse —, apontando para a que estava comigo. — Vamos, atire e acabe logo com isso.
— Eu não posso. Por que quer que eu o mate? — indaguei cauteloso.
— Ou me mata, ou então, eu matarei a todos — falou convicto, não era uma marmota. Ele falava sério.
— Por que quer matar a todos? — perguntei.
— Porque todos estão matando. A vida é assim, ou você mata, ou eles matam você — respondeu me olhando ainda mais concentrado em meu olhar.
— Não posso fazer isso — contestei observando o chão —, me desculpe.
— Então, covarde, fique sabendo, eu matarei a todos e por último você. No mundo de hoje, manda quem pode, e obedece quem tem juízo. As pessoas não querem ninguém vivo.
— Você bebeu, usou droga? — investiguei.
Ele riu.
— Não. É claro que não! — respondeu com autoridade, fumando um cigarro.
— Bem, mesmo assim eu não posso atirar — insisti e temi.
— Tudo bem, verme, eu vou nessa, mas anote, eu voltarei para pegá-lo — disse e correu para o beco até sumir por entre as lixeiras.
Fechei a porta e sentei no sofá. Quem era aquele menino? O que houve com ele? Para onde ele foi? Que estória é essa de matar todo mundo? Eu tinha tantas perguntas e nenhuma resposta, apenas uma arma carregada, em minha mão.
Corri meus olhos para a mesa e vi o livro que estava lendo, ainda aberto na página em que parei para atender a campainha.
“Às vezes, me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há uma câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim[1].
Coloquei a arma que ganhei debaixo do meu queixo. Sem dó ou piedade, apertei o gatilho. A minha cabeça estourou. Os meus miolos esparramaram-se pela sala inteira. Jorrava sangue das minhas artérias decepadas na altura do meu pescoço.
Procurei o espelho e quando me vi, notei o estrago que um tiro pode fazer na cabeça de alguém. O sangue promove um espetáculo. É algo que chama a atenção e que talvez, seduza a maioria das pessoas. Compreendi que matar faz parte do instinto predatório de quem sempre mandou matar e nunca foi para a cadeia.
“Talvez, o moleque tenha razão”, ponderei.
Por um minuto, quase me arrependi de ter atirado em mim e não nos demais, mas depois, pensando bem, tive certeza de que fiz o certo. Afinal de contas, é muito melhor escrever como uma alma penada, do que atuar como sendo o justiceiro desse filme.
[1] O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio, Charles Bukowski.
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