terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

No bico do corvo, na sombra da morfina

Claus era um homem bonito. Olhava para sua foto e pensava naquilo tudo. O que o levou a fazer uma escolha assim? Nunca pensei me sentir tão desconfortável no consultório do meu marido.
Sentei na poltrona ao lado da janela e fiquei imóvel, chorando. Achava que tudo não passava de um pesadelo, que era apenas mais uma noite em que ele não foi para casa.
Enquanto a equipe tratava de removê-lo, percebia o seu corpo endurecido, retorcido. Não era preciso tocá-lo para notar. Estava tão retorcido quanto sua escolha. Ao menos em meu modo de ver!
Doía saber que para enterrá-lo seria preciso quebrar os ossos de suas pernas e de seus braços para podermos tampar o caixão.

Claus nem mesmo ia para casa, preferia permanecer em seu consultório com suas noitadas regadas a doses cavalares de morfina que a minha companhia e a dos meninos. Nem seus filhos ele amava mais! O último ano foi um caos total.
Não sabia como agradecer aos amigos que trabalhavam na clínica. Se não fosse Fernando e os demais, eu não teria suportado. Quando encontrei Claus daquele jeito, não tive condições de pensar.
Vê-lo naquele caixão, imóvel, doía em mim, mas também doía nas crianças, Lucas, de dois anos, e Carlos, de quatro anos. Embora pequenos, sabia que mais dia menos dia teria de explicar a eles tudo o que não consegui. Tudo o que eles sabiam era que o pai deles havia falecido. Contudo, não encontrei as palavras certas para dizer a eles a causa da morte.
Entendia quando olhava nos olhos dos presentes no velório que havia algo no ar. As pessoas sempre falam de você e poucas vezes falam para você. Muitos me culpariam e diriam que deveria haver algo de errado em nosso casamento. Certamente, a culpada era eu! Que ironia! Que doideira!
O momento do enterro foi caótico. O sol forte e o clima abafado não ajudavam muito. Manter-me em pé o tempo todo, com alguma dignidade foi mesmo muito difícil. Aguentei por mim mesma. Aguentei pelos meninos. Aguentei para acordar de um pesadelo.
Fiz uma prece sincera. Em resumo, disse a Claus que lamentava por mim, que lamentava por ele, que lamentava pelos meninos, mas que ao mesmo tempo, me sentia aliviada. Passei anos da minha vida tentando ajudá-lo a largar a morfina e não consegui. Mesmo assim, minha consciência estava limpa.
Lembrei-me do dia em que achei a seringa e Claus confessou tudo. Ele foi honesto! Mas se houvesse desconfiado de que ele usava morfina, não teria me casado com ele. Acho que ninguém casa com um viciado. Ao menos não, quem como eu, quer viver!
Quando terminou o enterro, cheguei em casa com os meninos, dei-lhes um bom banho, alimentei-os, a vida tinha de continuar, mesmo que em luto. Os dois dormiram, já era tarde. Vendo-os ali, seguros a ninar, sentia que precisava voltar ao consultório. Queria entender. Queria quebrar tudo que havia lá dentro.
Chamei Clara, que trabalhava em nossa casa desde o dia em que casamos, confiava muito nela. Deixei os meninos sob sua responsabilidade e avisei que qualquer problema, deveria ligar para o meu celular.
Peguei o carro, percebia as luzes da cidade e as sombras dos becos de um jeito diferente. Sentia-me espreitada por algo que não sabia dizer o que era. Como se a morfina pudesse se manifestar como quisesse, assumindo formas capazes de me atormentar com violência psicológica e sobrenatural.
Abri a porta devagar. O consultório estava escuro. Dei uma boa olhada antes de ultrapassar a linha da porta. Acendi a luz e entrei. Olhei para a janela ao lado do condicionador de ar e percebi que além de aberta, havia algo ali. Entre o aparelho e a parede.
Senti um medo congelante. Usei o interruptor para ligar as luzes lá de fora. Tudo se iluminou. Os holofotes eram grandes e bonitos, qualquer um que passasse na rua à noite e os visse acesos perceberia quão bonita era a fachada da clínica nova.
Mas em tal instante, a iluminação exuberante mostrou-me algo mais que nada carregava de bonito, mas sim um fatídico sinal que segundo a crendice popular anunciava a morte de Claus. Você deve estar se perguntando o que foi que eu vi, não é mesmo?

Pois muito bem, o que vi foi aterrador, era um corvo, um grande corvo, aprumado em seu ninho, um grande ninho. Parecia uma alma penada! A criatura olhou-me com uma força tão descomunal que senti como se recebesse um pico na alma, como se uma dose cavalar de morfina me atingisse.
Cansada e impressionada, resolvi que o melhor era voltar para casa. Os meninos precisavam de mim. Eu precisava de mim. Fernando e os nossos amigos precisavam de mim. Clara precisava de mim. Os meus pacientes precisavam de mim.
Com a mão na maçaneta da porta, resolvi que não poderia fraquejar. Retornei ao consultório de Claus. Andei calmamente até a mesa de meu falecido marido e abri a primeira gaveta. Estava lá!
Peguei a pistola e notei o silenciador no cano. Conferi o pente e percebi que estava carregada. Olhei firme para o corvo em seu ninho e disparei com o dispositivo de repetição acionado. Vi o fogo de uma rajada incrível.
Pronto, estava vingada! Sabia que ainda era jovem. Que poderia começar uma vida nova. Estava disposta, faria tudo que pudesse para me livrar daquele corvo miserável e de toda a sombra deixada pela morfina.
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. Conto maravilhoso.
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br

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