terça-feira, 25 de março de 2014

A presença é muito forte...

Eu lembro que chovia muito. O céu era cortado por raios, do mesmo jeito que o meu coração foi retalhado pela vida. Sim, eu tenho amarguras tal qual você!
Na poltrona, pensava em morrer. Minha mãe dizia que o pensamento tem mais poder que a palavra. Só que a gente precisa de palavras pra pensar. A agonia que me consumia era enorme. Não sei exatamente como explicar, mas eu tive depressão desde criança. Nosso encontro aconteceu cedo.
Sou a alma cansada de um corpo surrado. Vê-lo dentro de minha casa foi devastador, apavorante. Havia lido nos jornais. Porém, algumas coisas a gente nunca espera que aconteçam. Não é mesmo? Santa ironia.
Achava que era algo da minha cabeça. Que eu estava enlouquecendo, e que tudo fazia parte do meu calvário. Sempre fui descrente. De tudo. De todos. Principalmente de mim mesma.

Estava parado em minha frente com sua foice enorme e seu manto negro. O rosto realmente era uma caveira. Embora o capuz, eu vi. Naquele instante, pensei em Deus. “Ajuda!”, me veio na mente. Como se eu fosse uma pessoa com merecimento. Como se eu avaliasse Deus.
Eu vi o Diabo com a cara da Morte! É intimidante. Pensei imediatamente que podia perdoar aquele amigo que se esqueceu do meu aniversário. Que não conseguiu me ajudar quando precisei que comprasse um livro.
Imaginei que podia ter levado uma vida com maior fortaleza. Em um momento cabal, as coisas ficam muito claras. Isso é um soco na cara aqui, na eternidade. Ninguém consegue mentir ou disfarçar do lado de cá. É um mundo tão limpo e leve quanto sujo e pesado. Depende de quem você foi quando encarnado.
O seu espírito só é criança, adulto ou velho aí na Terra. Aqui somos todos milenares. E a Terra é uma, de um total de seis dimensões. Você habita o lugar conforme o seu grau de evolução. Afinal, temos tantos anos quanto tem o universo. A população mundial flutua conforme acontece a reencarnação e a desencarnação.
Você deve achar que sou louca. Se nunca entendi minha depressão, hoje posso dizer que a compreendo. Era ele, o Ceifador em sua entidade. Por toda uma vida ele me desejou. Eu o vi pela primeira vez com oito anos. Só não roubou minha alma antes porque ele não tem meios de fazer. Tive sorte. A entidade do Ceifador age indiretamente. Quando o vi enquanto anjo das sombras, fiquei sem chão. Destruída. Mas quando o vi enquanto assassino, tive minha cabeça decepada pela foice do homem, não da entidade.
Aos trinta e dois anos de idade ele me alcançou. Era a única forma de me trazer de volta pra eternidade. Viram que eu colocaria fora a minha reencarnação mais uma vez, e resolveram interceder. Isso só acontece em casos extremos. Imagine quem sou eu. Pense no quanto eu tenho de aprender.
Sua entidade me agoniou de uma forma incrível, mesmo quando esgotou o prazo que o além lhe concedeu. Sua presença ficou em mim. Desde os oito anos eu o carreguei comigo, acreditando que era depressão. Nossa, chorar e chorar no escuro sem entender o motivo. Pensar em um espectro que você viu sem poder contar a ninguém. Porque você percebe que se insistir receberá o diagnóstico de esquizofrênica, e isso é demolidor.

Meu espírito podre só me trouxe problemas. Eu precisava conhecer a virtude. E depois de uma vida terrena de mimos e tudo mais, eu ainda achava que sofria. Que tudo era merda. Santa vaidade. Eu queria tudo e não dava nada. Tinha tudo e nunca estava bom.
Eu fui salva inúmeras vezes. Sabe quando você tem lapsos luminosos e, por algum motivo, eles te perdoam e te dão mais uma chance? Pois é. Pra ver o quanto é milenar o meu espírito. Bastava que a entidade do Ceifador se apresentasse de tempos em tempos pra mim, de acordo com o que lhe é permitido, pra que eu melhorasse meu comportamento terreno. Eu agia como uma boa cretina. Intuitivamente, eu atuava falsamente em meu benefício. Pense em que tipo eu sou. Que vergonha.
No período em que começaram os assassinatos eu me encontrava extremamente depressiva. Angustiada. Tudo por conta de besteiras. Miudezas do cotidiano que todos temos que resolver, sem que ninguém precise cair de cama por isso. Eu aprendi a me ver como sou.

O matador em série era notícia em todos os jornais. Tratavam dele como o Ceifador. Era sabido que ele vestia-se como a entidade e matava com uma foice. Ele assinava suas mortes com a degola, deixando um bilhete: “O Ceifador toma almas por direito”.
Foi como encontraram o meu corpo, degolado, com o bilhete depositado por entre meus seios. Morrer foi rápido. De um golpe só. Tenho consciência da força e da imagem do raio no céu, que brilhou através da janela, às costas do meu assassino, no exato instante em que me degolou. E que ironia: o homem que me assassinou pensava ser a própria entidade.
Quando o vi, gotejando chuva sobre o tapete da sala, eu realmente me arrependi. Só que desta vez não tive o perdão que tantas vezes ganhei. Um dia a gente precisa pagar. Nossa, eu cheguei ao ponto de urinar. Senti o líquido quente escorrer pelas minhas pernas até molhar os meus pés. Estava petrificada.

Meus familiares já haviam desencarnado quando o Ceifador me pegou. Ao menos eles tinham conhecimento pra entender. Quando estamos aqui na eternidade, temos condições de compreender o que não sabemos sequer que existe quando estamos no planeta Terra.
“Mais uma alma levada”, dizia a manchete do jornal que noticiava a minha partida. O Ceifador era uma celebridade a intrigar todo mundo. A imprensa vendia jornais como o Allan Poe vendia livros pra seus leitores.
Aqui reencontrei o espírito de minha mãe; ou melhor, que foi minha mãe na Terra. Ela e seus anjos vieram me buscar no limbo. Isso foi muito importante pra que eu me ajuizasse mais. Ele, o espírito que foi minha genitora terrena, me orientou e conseguiu uma permissão especial pra mim. Coisa não muito fácil de acontecer. Uma exceção pra uma missão extraordinária. O meu espírito precisava. Eu já havia jogado fora milênios como encarnada. Mas a bondade me beijou e eu tive como compensar meus erros.
Naquela noite, o detetive encarregado da investigação sobre o caso do Ceifador comia um hambúrguer e ouvia o jogo do seu time no rádio. Estava parado com seu carro nas sombras de uma grande árvore, ao lado da rodoviária da cidade. Eu o vi daqui do alto, e fui enviada até ele dentro de um tubo de luz. Logo que me apossei dele, comecei a agir. Eu não tinha muito tempo.
Fiz uma sujeira danada. Ou melhor, a minha intervenção fez uma sujeira danada. O hambúrguer foi parar no banco do carona, e o sujou de maionese. Sem que o detetive tivesse total consciência do que acontecia, eu o levei direto ao esconderijo do Ceifador, meu assassino.
Orientada pelos mais sábios da minha dimensão, eu tinha de equilibrar as minhas faculdades e, ao mesmo tempo, deixar que o detetive agisse de maneira correta. Por isso me limitei a levá-lo até o local. Eu nunca dirigi enquanto encarnada.
Quando estávamos chegando, deixei que o homem desligasse os faróis. Agora tinha de deixá-lo assumir o comando. O esconderijo era um galpão abandonado, perto do parque industrial, e ficava na margem da cidade. Havia uma grande entrada, que estava parcialmente aberta. Uma parca iluminação desenhava a fenda entre a porta e seu marco.
Em instantes, senti aquela agonia de novo. Uma aflição pesada, a mesma que experimentei pela primeira vez aos oito anos de idade, e que se transformou em meu fim quando meu assassino, denominado o Ceifador, me pegou. Mais ativa e mais preparada, sabia que era a entidade, o espectro.
“O que posso fazer?”, pensei. Ele, o Ceifador, é um demônio poderoso, entende? Instintivamente comecei a rezar e a andar em sua direção. Vi que isso o incomodou. Eu podia notar o tubo de luz radiante que me envolvia. Provavelmente, a entidade do Ceifador percebeu a oportunidade de sequestrar uma alma, e veio pra disputá-la. Mas qual delas ele queria? A do detetive ou a do assassino? Eu tinha de tentar descobrir quem havia recebido a marca da morte. Eu tinha de pensar e agir com velocidade.
Observei que o detetive sacou a arma e tomou a direção que contornava o galpão. Claro, ele queria saber se havia mais alguém do lado de fora. Eu o vi desaparecer nas sombras. Fiquei agoniada. Eu ainda não tinha controle sobre o meu espírito ao ponto de fazer grandes intervenções, e precisava dos meus amigos iluminados.
Imediatamente anjos de luz passaram a surgir em quantia ao meu redor. Naquele momento eu sabia que os conhecia. Era como se eu os reconhecesse. Que paz eu senti! Que força!
Não demorou e anjos das sombras também se fizeram presentes, rodeando a entidade do Ceifador. Todos permaneceram em sua volta, buscando enfrentar a luz. Vi que a Entidade funesta deu um passo em frente. O embate começaria.
Senti que os anjos de luz colocaram suas mãos em meu ombro. Que energia divina. Eu me senti muito quente. Eu me senti a ferver!

O espectro do Ceifador e seus anjos sombrios recuaram. Estava dando certo. “Se concentre, não perca a concentração”, disse um dos anjos de luz que me energizava com a ajuda dos demais. Então eu fiz força, eu busquei palavras que por toda uma vida esqueci. “Sorte e luz, sempre!”, pensei.
De repente, vi que o detetive apareceu ao lado da porta. E num movimento astuto, penetrou no interior do galpão. O assassino em série que se denominava o Ceifador reagiu, surpreso pela tocaia. Uma troca de balas violenta teve início. Surgiram, juntamente com os projéteis, faíscas incandescentes que também ultrapassaram o zinco, que fazia parede a envolver o galpão.
O detetive escondeu-se atrás de uma prateleira velha, enquanto o assassino abrigou-se detrás de um monte de ferro-velho depositado no lado oposto. A minha adrenalina subiu. Posso dizer que foram os cinco minutos mais longos que vivi no planeta Terra. Podia sentir que os tiros tinham o intuito de realmente matar.
Ao silenciar os tiros, permaneci calada, mas me mantive a rezar. A entidade do Ceifador e seus anjos ainda estavam ali. Os olhos da caveira brilharam. Ao seu lado, notei a presença de um jovem bonito. Alto, forte. Olhos claros, todo crivado de balas. Acho que havia um pente inteiro de balas em seu peito. O meu assassino estava desencarnado, sinistramente alvejado.
Então, naquele instante, pensei no detetive que ainda não havia saído do galpão. Eu me senti aflita. “Continue a rezar. Se concentre. O pensamento é forte, mas precisa da palavra”, eram os conselhos da minha mãe terrena. Uma energia ainda maior acendeu em mim. Eu me sentia gigante em força, em luz.
Vi várias viaturas chegando. Sim, o detetive havia chamado reforço. Percebi quando o carregaram pra fora e partiram. Em seguida, observei que alguns homens postaram-se em frente da entrada do galpão. Um deles fazia uma ligação. Em minutos, apareceu uma turma diferente. Poucos segundos depois, saíram com um saco preto. Era o corpo do assassino que a imprensa chamava de Ceifador.

Devolvi meus olhos pra entidade do Ceifador. Seus olhos estavam vermelhos, assim como os do espírito do assassino morto pelo detetive, e os olhos dos demais anjos das sombras. Em silêncio, sem uma única palavra, todos eles sumiram diante de mim e de todos os anjos de luz que me protegiam.
Eu me sentia calma. Eu me sentia iluminada. Eu me sentia feliz! Como nunca antes. Não estava feliz porque havia conquistado algo material, mas radiante por saber que tinha contribuído com as pessoas. Eu havia evitado a morte de muitos.
E, no mesmo instante, o detetive deitado na cama do hospital precisava de mim. Ainda não havia acabado a minha missão. Remissão é algo grande. Sem saber como explicar, me vi ao lado da maca e dos médicos. A sala estava cheia. Enquanto a equipe do hospital lutava pra salvar o valente detetive, eu via aquele aparelho com a linha da vida, que teimava em querer sossegar. “Reze. Se concentre”, me disse de novo aquele anjo de luz. Fiz o que ele mandou. Com toda a força.
Só que eu não esperava que a entidade do Ceifador, e que o espírito do meu assassino denominado também como Ceifador, surgissem ali, juntamente com os anjos das sombras. Que batalha! Notei que o médico que comandava a cirurgia rezava em silêncio. Percebi que os enfermeiros e os instrumentistas que o ajudavam também oravam em suas mentes. Era luz no hospital. Era divino.
Foi quando o aparelho compassou ao bater estável do coração do homem. Ele estava salvo. O detetive estava realmente salvo. “Missão cumprida”, eu pensei. Mas não, porque a entidade do Ceifador me encarou com toda a sua agonia e disse: “Venceu a batalha, não a guerra. Pois, quem luta e foge, ‘vive’ pra guerrear outro dia”. E sumiu, levando todos os seus acompanhantes espectrais.

Voltei de alma lavada. Vi que o jornal estampava a morte do assassino batizado de Ceifador, e comemorava a vida do detetive. Eu me senti tão bem. Estava em um campo vasto e rodeado de flores.
Usando meus poderes, abduzi um exemplar do jornal até minhas mãos. Eu queria ler na íntegra, eu queria ter tal recordação. Contudo, logo que li a matéria, uma gota vermelha surgiu sobre o papel, como um ponto central. Instantaneamente, ela passou a crescer. Era sangue; sangue que aos poucos cobriu todas as palavras do periódico como se fosse uma nascente.
Embora não sentisse agonia em meu interior, a identificava ao meu redor. Quando subi meus olhos, quem eu vi? Sim, a entidade do Ceifador e o meu assassino, também chamado Ceifador. Os dois cercados pelos anjos das sombras, com seus olhos inundados de vermelho, de sangue. O mesmo que cobria as palavras do jornal que li. Eu sabia que tudo não passava de uma breve trégua.
Porém, agora eu sei, Deus e o Diabo existem. Eu sou os dois! E o meu assassino também os é! Pois desta vez, é ele quem tem de buscar remissão.
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