sexta-feira, 21 de março de 2014

As flores de plástico também morrem

Uma vida ordinária de plástico, dizem as janelas entreabertas e as grades de proteção da bela casa fechada onde o dinheiro não trouxe paz aos suicidas.

O engenheiro Heitor passa voando em seu carro blindado, feliz por conseguir pagar a oitava cirurgia plástica de sua esposa. Belos seios gigantes para aplacar o infinito vazio por trás da obra de arte de um cirurgião famoso. Belos seios para um coração comum.

O rapaz obeso observa as fotos do homem forte pela internet. Seu objetivo é ser assim no futuro, ter o corpo dos sonhos, mas ele devora sedento o terceiro pacote de biscoito recheado da tarde. Depois chora, apertando as gorduras laterais que lhe sobram antes de jogar online com seus amigos virtuais.

Anita resolve ceder sua virgindade ao garoto mais descolado da turma, para não ficar atrás das amigas que já se renderam ao mesmo cara e agora são mulheres. Ela se entrega, ele filma para guardar lembrança, a menina deixa (por inexperiência), e o mundo assiste sua primeira vez na tela de um computador. As bonecas pegam fogo no quarto cor de rosa. Seus pais não sabem explicar a morte da princesa... Nem das canetas coloridas com cheiro de chiclete.
Em outra parte da cidade, Janine tenta convencer o marido a comprar um fogão de inox, idêntico ao da vizinha. Assim como Leila junta as moedas para comprar um creme contra rugas e linhas de expressão que viu na TV. Érico corta a árvore centenária na calçada para que as folhas secas não sujem seu piso novo. Jairo comemora com refrigerante barato o ingresso de seu filho no funcionalismo público.

Dona Rose, talvez pela falta de memória, rega as flores de plástico do arranjo na esperança de ver brotar mais arranjos de plástico, ou na esperança de morrer, serena, como as flores reais no outono.
O homem chora pensando na esposa que se foi com outro durante o carnaval, enquanto o outro sorri pensando no que poderia fazer se ganhasse na loteria. O trânsito está congestionado, tiros são disparados em uma favela próxima. Eis o inferno capital: As pessoas precisam pagar o pedágio e as contas. As pessoas precisam suprir seus vazios com mais caixas de plástico vazias.

Os bêbados tentam esquecer a dor de andar a esmo em mais um dia de nada, e depositam suas frustrações no fundo falso de uma garrafa. Eu passo por uma avenida e os cartazes no alto dos prédios me dizem que eu deveria sorrir, festejar, torcer pelo país, comprar, e votar na mesma legenda. Talvez o cadáver ao lado pensasse o mesmo. O ambulante vende garrafas de água. Um garoto pega o celular da moça e corre. A viatura policial passa acelerando e as sirenes me confundem ao mesmo tempo em que percebo estar na linha de frente de um jogo perigoso. A mão do pedinte vem em minha direção: Um trocado, pelo amor de Deus..
Deus? Que Deus? O de plástico ou o real?
- Desculpe.. Não tenho trocado, meu camarada.

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