terça-feira, 18 de março de 2014

Uma corrida pela vida em um Cadillac Assombrado

Chamou minha atenção. Estanquei. Não é todo dia que se vê um desses.
“Porra, isso não é verdade?!”, pensei, ao olhar o contraste negro da lataria reluzente com os cromados e a faixa branca na banda do pneu.
— É um belo Cadillac. Se interessa por ele? — perguntou.
— É muito bonito — respondi por entre os dentes.
— Se quiser, ele é seu — falou e me encarou.
“Que porra é essa? O sujeito quer me dar o Cadillac?”, pensei. Foi como se eu levasse um tranco nas ideias.
— Garoto, você é surdo? No meu tempo, se eu recebesse uma proposta dessas, eu pegava as chaves e sumia sem fazer perguntas. Mas a geração de vocês é um bando de paspalhos, querem saber tudo porque não entendem nada de porcaria nenhuma — disse zangado.
Sem dizer nada, peguei as chaves abruptamente de suas mãos, dei partida e acelerei.
O velhote manteve-se parado, na frente da garagem. Eu não tinha certeza, mas olhando pelo retrovisor, parecia que ele ria contente.
“Vai entender”, pensei.
Ao percorrer o painel com meus olhos e notar que o tanque estava cheio, tive uma ótima notícia. Do mesmo jeito que encontrar os cigarros e os documentos do Cadillac no porta-luvas, foi inacreditável.
O vento era frio. Mas eu não me importava. Estava fissurado naquele motor. Eu podia ouvir a gasolina fazendo redemoinho no tanque para encher o ronco daquela máquina.
Mesmo assim, quando dei por mim, os vidros subiram.
“Que merda é essa?”, pensei.
Então o rádio ligou.
— Gosta de Nina Simone? — perguntou de supetão.
Era o som que tocava no rádio. Ela cantava “I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free”.
Quem falava comigo era o velhote que me deu o Cadillac.
— Você, mas como? O que quer? — falei tremendo.
Ele estava no banco de trás. Do lado do carona, fumando um cigarro e segurava uma garrafa de uísque. Podia sentir o bafo que vinha da sua boca que ria como a de um louco.
— Eu não quero nada, garoto. Apenas aproveitar o caminho até sumir no além.
O vidro do carona baixou para que o velhote esticasse o braço sobre o banco e batesse a cinza do cigarro. Em nenhum momento qualquer um de nós tocou na maçaneta. Eu sabia que estava ferrado.
Ele continuou...
— Não tire os olhos da estrada, garoto. Agora não tem mais jeito.
No mesmo instante, tentei frear, debrear, e o Cadillac não obedeceu meus comandos.
— Que sujeira é essa, velhote? — gritei, apavorado.
— É como falei, garoto, esse Cadillac é tão bonito e potente quanto mal-assombrado. Um sujeito fez comigo, exatamente o mesmo que fiz contigo. Passei cinquenta anos aqui dentro, até morrer. E você fará o mesmo, vai dirigir a vida inteira... “Ohm...”, voando pelas estradas... Se parar o Cadillac, vai morrer. E quando morrer, o Cadillac vai encostar e você terá de entregá-lo para alguém, só assim poderá seguir o seu caminho no além. Se não entregar o carro, ficará morto, preso na terra, como uma alma penada sem sossego. É uma maldição — disse, soltando uma gargalhada infernal que foi sufocada por um grande gole de uísque, acompanhado de uma tragada das fundas.

Naquele momento, senti o suor escorrer pela minha testa.
— Pode ficar frio. Não faltará gasolina, nem cigarros. Vou nessa, a gente se vê no além, garoto — disse o velhote, que em seguida sumiu.
Pensei em abrir a porta e me jogar, mas não consegui soltar o trinco. Ao mesmo instante, notei que o vidro do carona subiu até lacrar totalmente a passagem do vento. Tive certeza de que o Cadillac se antecipava aos meus gestos. Foi fantasmagórico constatar que ele tinha vontade própria. Então o volume do rádio aumentou. Ainda soava Nina Simone.
Só me restava acender um cigarro, curtir o som, e acelerar até o fim.
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