sexta-feira, 11 de abril de 2014

Como apagar um pequeno raio de sol

Suzane era uma loira baixinha, linda, dona de um sorriso radiante e inesquecível. Seus pais a apelidaram de “o nosso raiozinho de sol”. Esperta, elétrica, alegre, e muito responsável, a garota jamais fugia de seus compromissos e obrigações, e os executava com aquele belo sorriso no rosto que a caracterizava.
Aos dezoito anos começou namoro com Edgar, rapaz gente boa da mesma idade, espinhento, viciado em jogos de computador e vídeo games. Camarada de paz, sujeito legal.

Suzane, o raiozinho de sol, estava para se formar em matemática, e ainda morava com os pais. Edgar, agora programador de games, já morava sozinho num confortável apartamento no bairro da Glória, Rio de Janeiro. O casal gostava de passar os finais de semana juntos no apartamento de Edgar, assistindo a filmes, séries, e também pedindo comida pelo telefone e namorando embaixo das cobertas. Às vezes até rolava um vinho nos dias mais frios.

Oto, o vizinho militar viúvo que morava no mesmo andar do rapaz, nunca entendeu como a bela moça namorava aquele bolo de carne podre (era assim que ele o chamava nas sombras) feio, molenga, e sem jeito de macho.
- Mulher dessas é boa pra homem de verdade, não pra fedelho veado! Isso aí é mulher pra macho!
Oto sempre olhava pelo olho mágico e, de vez em quando, saia ao mesmo tempo em que o casal para sentir o cheio de Suzane no elevador, observá-la de perto em cada detalhe. Edgar tratava o vizinho muito bem, e sentia pena dele desde que soube que sua esposa morreu com um câncer no útero. Mas o outro o tratava como um simples soldado raso.

Lá estava o casal no apartamento:
- Ed, você tem tara por botas de couro, não tem? – Ela quis saber.
- Não gatinha.. É só uma personagem dos games.
- Sei não, você coloca pôster dessa mulher usando botas de couro pela casa...
- Eu gosto do jogo, só isso.
- Sei não..
Suzane pegou parte da grana do seu estágio e comprou um belo par de botas de couros. Para combinar, apostou em uma minissaia de couro preta, e uma blusinha que deixava parte da barriguinha branca de fora. Logo ela, que sempre usava seus vestidos recatados, florais, ou a calça jeans que serve pra tudo, agora estava mais ousada. Sentiu-se bem assim, poderosa, de certa maneira mulherão, apesar do tamanho.

E lá se foi o raiozinho de sol aprontar uma surpresa para o namorado, o primeiro e único homem de sua vida até aqui. Para seu azar, pois a moça o detestava, Oto estava subindo pelo mesmo elevador com duas sacolas de compra do mercado. Aquele homem calvo, peludo, alto, fedendo a colônia de pinho, levava algo de assustador (sombrio) no olhar. Mesmo quando sorria não sorria. Mesmo quando falava não dizia.
- Boa noite moça! – Ele disse abrindo a porta do elevador.
- Boa noite.. Obrigada.
Os dois entraram no elevador. Suzane olhava os números se alternando na passagem dos andares, e Oto olhava sua botinha de couro. Oto olhava sua barriga, suas pernas. Ela percebeu o olhar do homem. Encarou-o com semblante enraivecido, mas ele sorriu de maneira cínica.
- Você é tão bonita quanto minha falecida esposa.
- Sou namorada do seu vizinho e dispenso elogio de estranhos.
- Namorados.. Aquele garoto não sabe o que fazer com tudo isso.
- O senhor está me desrespeitando!
- E você também está! Quer o quê? Se vestir como puta e jogar papo de santa?? Conheço mulher.
- Puta?? O que o senhor sabe da minha vida pra dizer isso??
- Sei que mulher que se veste assim tá querendo pau, tá querendo macho! E eu to aqui!

O elevador parou no andar, Suzane tentou sair o mais rápido possível de perto de Oto, mas ele a segurou com uma gravata bem ajustada. Enquanto o militar a levava, imobilizada, até o apartamento, a outra vizinha, Dona Gertrudes, viu toda a cena pela fresta da porta. Três horas depois Oto libertou Suzane, com o nariz quebrado, uma perna e um braço torcidos. Estado deplorável. Nem de longe aquele raiozinho de sol.
- Se contar pra alguém, morre. Vagabunda filha da puta. – Disse levantando o zíper da calça.

O casal deu queixa na delegacia. Edgar mudou-se dali três dias depois. E Dona Gertrudes entendeu que a moça estava vestida como piranha (palavras dela no processo), justamente para que aquilo acontecesse. Oto era um respeitável homem de família. A mulher tem que saber se comportar, disse a velha.
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