terça-feira, 22 de abril de 2014

Não espero que acreditem em minhas palavras...

Um homem como eu, é muitas vezes visto, como um sujeito cheio de crendices. Talvez, o lugar onde vivo, inspire o lúdico na mente das pessoas. Daria tudo para afirmar, que sim, que tudo não passa de uma lenda, de um papo popularesco sem qualquer preocupação com a realidade.
Não direi quem sou, ou exatamente onde vivo, ou ainda a localização perfeita do lugar em que ocorreu o que narrarei. Não quero acordar pela manhã, com um jornalista mequetrefe batendo em minha porta, interessado em um furo de reportagem.

Não sei se você sabe, mas a maioria dos morcegos enxerga muito bem durante o dia. Mesmo assim, a experiência que tenho como homem da montanha, mostra-me que tais criaturas têm o hábito de saírem para procurar alimento a partir do final da tarde, quando a luz fica escassa.
A natureza é sábia. Assim que o sol falece, a escuridão é um ponto a favor do caçador, não é mesmo? Normalmente, morcegos estão sujeitos a predadores, como aves de rapina, cobras, ou mesmo felinos de portes variados.
Tudo começou quando eu ainda era menino. Morcegos encantavam meu ser, por conta da sua originalidade corporal, assim como, pela sua capacidade em voar no breu da noite, com velocidade desmedidamente habilidosa. Entendo o voo de tal criatura, como um balé camicase. De certa maneira, meu ponto de vista é de quem assiste uma façanha, até mesmo poética.
Não, não pense que contarei sobre vampiros e a respeito de donzelas apaixonadas, encantadas por um homem bonito a morder pescoços e sugar sangue. Não. Isso é coisa de cinema, de estórias de ficção que vão parar em livros e filmes de terror. Talvez até, seja coisa para entreter quem busca aventuras para agitar a própria vida, em um domingo frio ao pé de uma lareira em chamas, onde se reúne a família para contar anedotas e lendas acompanhadas de chocolate-quente.
Eu me interesso por morcegos há setenta anos. Costumeiramente, passei toda uma vida vasculhando cavernas e lugares escuros com intenção de aprender mais sobre eles. Seus sonares chamam minha atenção. Seus hábitos. Suas asas. Seus cinco dedos. Imagine você, a poder bater seus braços e ganhar o céu. Não. Não sou um piloto frustrado. Sou apenas um lenhador. Um homem das montanhas. Um eremita, se preferir. Não sei exatamente como me veem. Mas sei como vejo aos morcegos. Em especial, um deles.
O fato é que temos muitos casos curiosos por aqui. Embora não cheguem até a cidade em que você vive, são notórios pelas redondezas onde moro. Cresci ouvindo estórias curiosas a respeito do sumiço de animais e pessoas. Alguns dizem que são vítimas de avalanches ou felinos.
Eu o vi pela primeira vez, logo que minha barba começou a nascer. Estava sentado na beira de um grande lago, cercado por grandes árvores e formações rochosas. Um excelente lugar para observá-los. Já era tardinha. Havia notado as fezes em tamanho grande. Imaginei que fosse de um animal, mas não acertei de que besta se tratava, até que pude vê-la. O fato é que, percebi que algo voou muito próximo de onde eu estava.
A impressão que tive, foi de que ventara. Contudo, não era o vento. Intuí seu pouso mais ou menos uns cinquenta metros de onde acendi a fogueira. Peguei minha espingarda e tomei a direção de uma grande caverna. Eu carregava uma lanterna potente, com um grande ‘farol’ como chamamos, popularmente falando.
Imagine que, ainda na entrada da caverna, a criatura alimentava-se. Subjugava a visão total de sua presa com sua envergadura. Com a lanterna, identifiquei que se tratava de um bezerro, aproximadamente de uns trezentos e cinquenta quilos. Ainda estava vivo, esperneava e movia sua cabeça incessantemente.
Mais chocante ainda era ver que, o caçador de asas enormes, com uns vinte metros quando estendidas, sem exagero (eu sei, é difícil de confiar em minha afirmação, realmente não espero que acreditem em mim) segurava o bovino usando apenas uma de suas patas. Suas garras enterradas em sua carne, o matinha ali, com facilidade.
“Nossa!”, pensei. Foi uma mordida veemente, bem na garganta. Tal feito cessou os movimentos do animal instantaneamente. Sim, ele sugava o sangue do bezerro. Suas presas eram de considerável tamanho, não tenho como precisar tal informação.
Estava diante, de uma besta, provavelmente, responsável pelo sumiço de pessoas, de animais em fazendas. Uma criatura alada. Dantesca para alguns. Mas eu não o vi por um ângulo pejorativo. A sua existência me soou grandiosa.

Estarrecido, passei a recuar. Passo por passo, tomei meu caminho de volta para casa. Uma criatura com tamanho poderio precisa ser respeitada. Não seria eu, louco ao ponto de acuá-la e provocar um ataque, certamente fatal, contra eu mesmo. As montanhas me ensinaram a respeitar a natureza.
Eu o vi infinitas vezes, mas sempre mantive uma distância razoável. Desde então, quando ouço queixas quanto ao sumiço de animais e pessoas aqui por perto, escuto atento. Certamente, de todos que o viram, só eu sobrevivi.
O que me moveu a escrever toda a verdade é a certeza de que, todas as criaturas existentes têm o seu papel. Um morcego assim, tão incrível, também. A montanha é uma grande escola. Aqui, a vida e a morte, nada mais são que um caminho natural. Tenho comigo, que um homem de cabelos brancos e corpo sofrido como eu: pode dizer o que quiser, afinal de contas, eu não me importo mais, com o que pensam sobre mim.
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