domingo, 6 de abril de 2014

Não me teste e pague o que me deve

Eu já tinha perdido a noção do tempo que estava ali parado fitando aqueles trocados amassados sobre a mesa. Poderia ser uma decisão simples para qualquer outro, mas para mim, era um terrível dilema que precisava ser resolvido o quanto antes.
O suficiente apenas para um macarrão instantâneo, um refrigerante, e a chance de dormir com a barriga forrada essa noite. Ou então, satisfazer o vício e comprar um desejado maço de cigarros. 
Não me direcione esse seu olhar de pena. Não preciso dele. Não sou nenhum pobre coitado! Só estou passando por maus momentos como qualquer pessoa normal. Não deixe meu estado deplorável te enganar, eu tenho dinheiro, na verdade, uma boa grana,... A receber. Um gordo pagamento de um trabalho bem executado, entregue no prazo, mas ainda não pago pelo contratante. Aquele filho da puta!
Chegou aqui cheio de atitudes e boas intenções. Elogiou meu trabalho e disse que pegou meu contato com um amigo. Apresentou um projeto ambicioso e, com uma fala mansa, me convenceu a deixar o pagamento para o final do processo. E para legitimar sua palavra, ele ainda achou necessário bater no peito e encher a boca para dizer: 'Pode ficar tranquilo, eu sou evangélico!'.
É claro que fiquei preocupado, mas por alguma razão que não sei explicar, me deixei levar. Ok! Podem me julgar.

Ah! Que se foda! Ficar aqui me lamentando sobre isso não vai resolver nada. Passei a mão nos trocados, enfiei-os no bolso e parti para a rua.
Comida ou Cigarro! Cigarro ou Comida! Comida ou Cigarro! Cigarro ou Comida!...'A gente não quer só comida!'
Foi logo que virei a segunda esquina que encontrei o malandro parado bem em frente a uma borracharia há poucos metros da minha casa. Estava com o pneu do carro furado, e se eu pudesse faria o mesmo com o salafrário.
Assim que me viu, o covarde olhou apavorado para os lados, como se procurasse alguém, ou alguma coisa, no que se apoiar. Mas não tinha ninguém ali, e nada além do picolé que derretia em suas mãos. Era só nós dois.
Comida ou Cigarro! Fome e Abstinência!
Eu daria toda a grana que ele me deve pela oportunidade de furar seus olhos com aquele palito.
-Que bom te encontrar por aqui! Não atende mais o telefone não? Cade a porra do dinheiro que você me deve?!
-Calma, cara! Calma! Vamos conversar direito, como duas pessoas civilizadas!
-Você perdeu a chance de conversar civilizadamente quando não atendeu a merda desse telefone mas milhares de vezes que te liguei essa semana.
-Eu sei! Mas é que ocorreu um problema...
-Não quero nem saber. Quero a porra do meu dinheiro!
-Você tem que ficar calmo! Não pode apelar pra violência.
-E porque não?
-Por que, por que,... Por que violência não resolve nada, cara.
-Com o Hulk funcionou. Você não assiste filmes?
-Eu estou querendo dizer que descontar sua raiva me batendo não vai resolver o problema.
-Pode ter certeza que 'te bater' é a coisa mais leve que estou pensando em fazer contigo. A minha vontade é pegar o palito desse seu picolé e enfiar bem no meio do seu...
-Eu vou te pagar cara!!!
-Agora?
-Agora eu não tenho como.
-Quanto você tem na carteira?
-Como?
-Quanto você tem aí no bolso?
-Pouco mais de 200 reais. Por que?
-Passa pra cá!
-Mas é pra pagar o serviço do borracheiro.
-Foda-se! Se eu esperei tanto tempo pra você me pagar, ele também pode esperar. Ou passa essa grana pra cá, ou se prepara pra gastar mais um bom dinheiro adaptando esse seu carro para deficiente físico.

Problema resolvido. Pelo menos por enquanto.
O dinheiro que o desgraçado carregava consigo mal pagava um quarto do que me devia, mas serviu para bancar um belo jantar em uma churrascaria, comprar os cigarros que eu precisava e até rendeu o luxo de algumas cervejas. E aquela foi uma noite quase perfeita.
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