terça-feira, 8 de abril de 2014

Norton, o engolidor de florete

O florete atravessou o pulmão de seu pai, Alith. Soou um gemido fundo, agoniado. O homem caiu. Norton sorriu. “É o que você merece, por todas as surras, por todos os xingamentos”, pensou.
Pode-se dizer que o defunto cometeu três erros. O primeiro, subjugar o filho como um escravo. O segundo, mostrar como usar um florete. O terceiro, dar suas costas a um ‘inimigo’.
Norton destacou um cavalo, o melhor florete e mais alguns trapos. Só que antes de fugir, incendiou tudo. Trotou o seu alazão rumo ao norte. Esperava uma nova vida. Longe do condado de Filander.
Queria dinheiro e fama. Contudo, em seu íntimo, guardava um desejo ainda maior. Algo muito mais sufocante do que riqueza e notoriedade. Só que ele, ainda não compreendia o que sentia, não em sua totalidade.

Depois de doze dias em galope, chegou a uma grande cidade, Aldhar. Percebeu que havia um bom número de tavernas pelo lugar.
As ruas eram cheias de transeuntes e comerciantes de todo o tipo de especiaria. Via prostitutas em quantidade e percebeu muitos nobres também. “Aqui, tem muito dinheiro”, pensou astuto.
Apeou do seu cavalo e chamou pela atenção dos caminhantes.
— Me chamo Norton, senhores. Eu vim do sul, terra inóspita como o inferno. Mas eu tenho um bom motivo para viajar tanto. Um número para mostrar aos senhores.
Aos poucos, suas palavras despertaram atenção.
— Engolirei este florete, bem diante dos olhos de todos.
Ardiloso como artista, movia seu corpo com desenvoltura e arriscava saltos complexos que arrancavam aplausos. Para finalizar, ajoelhou-se no centro da multidão com maestria e engoliu o florete até perto da entrada de seu estômago.
A aglomeração de homens jogou-lhe moedas de ouro, todos admirados com sua habilidade. Em dois tempos foi convidado a exibir sua arte para a corte. Prontamente, Norton aceitou.
Sua apresentação extraiu suspiros também da nobreza. As damas perderam o fôlego. Todos queriam beber uma taça de vinho em companhia do jovem Norton, o engolidor de florete.
Rapidamente, tornou-se artista de passe-livre na corte. Apresentava-se em grandes momentos festivos diante da nobreza local e seus convidados.
Todos o chamavam de prodígio. Em menos de um ano, abriu uma grande escola com o pretexto de formar os mais habilidosos engolidores de florestes dos quais já se sabia notícias. Jovens dos mais longínquos vilarejos formaram uma fila enorme para pleitear uma vaga.
Entre tantos aprendizes, Crispim se destacava, impressionava seu tutor com sua coragem em mover-se arriscadamente enquanto sua garganta servia de bainha ao florete. Ele tinha em mente, criar um número capaz de trazer delírio para as maiores multidões.

Certo dia, o aprendiz talentoso fazia suas piruetas e saltitava como nem mesmo Norton arriscava-se a fazer. O feito chamou a atenção do instrutor. Conhecedor do poder da lâmina, a sentir uma sensação funesta, ele teve uma ideia.
Olhou ao seu redor e percebeu que todos haviam saído. Aproximou-se lentamente de Crispim e permaneceu a observá-lo. Via beleza nos movimentos. Leveza, realeza.
Sentia que pensamentos sombrios tomavam conta de sua cabeça teimosamente. Imaginava e experimentava sua pele a embolar-se de arrepios fascinantes. “Será?”, pensou Norton. Era uma sensação que ele já conhecia.
Sabia que aquele era um momento mais que oportuno. O aprendiz era um mero camponês oriundo de muito longe, ninguém daria importância. Além de tudo, acidentes acontecem. Não é mesmo? A vida é cheia de tombos.
Devagar, aproximou-se, desta vez, de mãos vazias. Permaneceu muito próximo de Crispim, que sem perder a concentração, deu-se conta tardiamente. Pois Norton desferira um chute preciso, bem ao meio das costas de seu aluno, o qual teve seu estômago perfurado pelo florete e engasgou-se com seu próprio sangue.
Norton sorriu. Tinha dinheiro. Fama. Prestígio. E todas as oportunidades de que precisava para satisfazer o seu mais doce e louco desejo, matar!
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