terça-feira, 13 de maio de 2014

Algumas coisas não mudam nem após a morte

O cara é do século passado, pensei.
Um cravo em seu peito me chamou atenção. Eu o vi como um homem distinto, como se diz, desde o século passado.
Em contrapartida, ele arregalou seus olhos e, rapidamente, depositou seu relógio de bolso no casaco.
Certo que é de ouro maciço. Se não fosse, não teria tanto cuidado, pensei.
Humanos são sentimentais com coisas que têm um bom valor em dinheiro.

O homem se aproximava mais e mais. Pelo canto do olho, prestava atenção nele e, ao mesmo tempo, fazia como quem tem olhos de camaleão pra rondar as redondezas.
Afinal de contas, poderia haver a alma penada de um policial a esperar pelo instante de me enquadrar.
Vivo ou morto, você está aqui, no mesmo lugar. A diferença é que normalmente os mortos veem os vivos, mas os vivos raramente conseguem ver quem perambula pelo mundo como alma penada.
Quanto mais perto chegava o cara, mais certeza eu tinha, eu sentia o cheiro de sua carne podre, embora ao olhar pra ele, não pudesse ver nada em decomposição.
A um passo de distância, sem perder um segundo que fosse, saquei o canivete. Encostei a lâmina em sua costela e, o abracei. Eu me mantive a caminhar ao seu lado, como quem o quisesse bem.
Ele não reagiu, mas senti o cheiro de merda misturado com o de defunto. Mesmo depois de morto, eu ainda meto medo. Gosto disso.
Passe o relógio, é só o que quero, falei.
Tudo bem, mas não me machuque, respondeu garboso.
Assim que me passou o relógio, percebi seu peso, era ouro.
O coloquei em meu bolso e, mandei o cagalhão seguir sem olhar pra trás. Do mesmo jeito que eu fazia quando vivo.
Algumas coisas não mudam nem mesmo depois da morte. É assim com o cheiro de merda, com os homens e, com o valor que o ouro tem.
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