sexta-feira, 9 de maio de 2014

Um domingo vazio para um vira-lata cansado

Estávamos naquele bar de esquina perto da minha casa, Ernesto e eu, contando as garrafas de cerveja sobre a mesa, e desnudando alguns sentimentos numa tarde amena de domingo.
- Escuta bem, cara, escuta bem: a vida pode ser uma merda quando a gente não tem tempo para viver. Um vazio existencial cheio de coisas nojentas e obrigatórias para fazer. Entende?
- Você não quer tempo para viver, Pitz, você quer tempo para vagabundear.
- E isso não é viver?!
- O que você quer para o futuro?
- Escrever, coçar o meu saco, amar uma boa mulher, escrever mais um pouco, e beber algumas.
- Algumas muitas.
- Ééé.. Incontáveis!

O dia estava do jeito que eu gosto... Meio cinzento, sem muitas cores a pipocar na frente dos olhos como um farol obsceno de novidades velhas. Batia, vez por outra, aquele vento frio, e era o suficiente para balançar as folhas secas da amendoeira. Ernesto pegava seu isqueiro Zippo, riscava, guardava, duzentas vezes, riscava e fechava. Bebemos umas seis garrafas de cerveja barata, nada demais, apenas esporte.
- Eu não quero ficar lembrando o passado, mas gostaria de ter uma máquina do tempo.. Uma maldita máquina do tempo.
Ernesto não gostou de ouvir isso.
- Cara, você quando está deprê mete esse papo de máquina do tempo, está ficando repetitivo.
- Eu sei.. Estou ficando chato, como a maioria dos escritores. E menos criativo também.
O celular do Ernesto tocou, ele atendeu e depois deu um pulo da cadeira. Sua mãe passou mal na rua, estava internada. Eu me ofereci para acompanhá-lo até o hospital, mas ele recusou. Correu até sumir na outra esquina. Na pressa, esqueceu o isqueiro sobre a mesa. Mas antes, porém, deixou duas notas de 10 reais para pagar sua parte no bar.

Mais um domingo se passa, velório certeiro de outra segunda feira cansativa e sem opções. As crianças brincam de polícia e ladrão, mas ninguém quer ser a polícia. A mulher xinga o marido e arremessa uma panela nele. O carro velho passa tocando funk nas alturas. Um bêbado de menos sorte tenta chegar até o portão de casa arrastando a bunda no chão da calçada. Os cachorros de rua me observam, eu olho para eles também. No fundo, os cães sabem que eu sou mais vira-lata que eles.

Espero que a mãe do Ernesto fique bem. E que a semana passe na velocidade de uma alegria.
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