terça-feira, 10 de junho de 2014

Ela lavava louça o dia todo

Eu sabia por que éramos vizinhos de porta, como se diz. Eu sentava na área em minha casa e, a via na janela. Eu a cumprimentava e, muitas vezes tentava puxar conversa, mas ela respondia sempre a mesma coisa, que tinha muita louça pra lavar.
Achava estranho que nunca recebesse visitas, que nunca terminasse de lavar a louça, que nunca saísse pro seu pátio. Olhava o seu quintal com grama alta e, ficava pensando que ela não deveria ter ninguém por ela.
Era uma sensação estranha, a minha. Algo que eu nunca senti em toda a minha vida. Eu me pegava pensando qual era o motivo pelo qual eu pensava tanto nela. Um sentimento que vinha do meu coração, da minha alma, algo que me deixava agoniado mesmo. Então eu me policiava, afinal de contas, havia me mudado pra aquela casa tinha menos de um mês, eu não sabia nada da vizinhança e tal.

O tempo foi passando e, nada mudava, a grama crescia e, as árvores estavam sem poda, ficava claro que havia abandono na morada. Eu sentia que havia algo errado, até mesmo o carteiro se queixava comigo, dizendo que batia na porta pra entregar as correspondências e que ela não o atendia pra assinar o recebido.
Com o tempo, coisas ainda mais estranhas passaram a acontecer. Notei que corvos começaram a pousar ao redor da casa. Mesmo assim, eu olhava e via a vovozinha Eulália na pia, lavando a louça. Falei com ela a respeito dos corvos, eu pensava que havia algum animal morto no terreno dela, um rato, um cão, vai saber. Ela me disse que estava tudo bem, mas que precisava lavar a louça porque logo o seu marido chegaria pra almoçar.
Foi quando me dei conta de que nunca havia visto o marido dela e, ela também nunca havia me falado sobre ele. Não sabia dizer o que sentia, mas era como se algo soprasse em meu ouvido: derrube a porta. Isso ficou em minha cabeça. Lá pelas tantas a agonia quase que trancava a minha garganta. Sem pensar muito mais do que já havia pensado, saltei a cerca e fui até os fundos da casa. Vi uma porta grande. Apertei meu coturno e chutei com força. O trinco cedeu. Respirei fundo, me concentrei e mandei mais um chute, no mesmo lugar, então a porta escangalhou.
Logo que entrei, encontrei uma cena bizarra, havia uma carcaça no chão da cozinha e, vestia trajes masculinos. Sem muito pensar, chamei Eulália e perguntei sobre o cadáver, mas ela me disse que não havia corpo algum. Então eu perguntei onde estava o marido dela e, ela me respondeu que esperava por ele. Percebi que ela estava em choque. Olhei pras panelas e vi que estavam brilhantes como nunca havia visto.
Liguei pra polícia. Quando os homens da lei chegaram, ampararam Eulália. Em pouco tempo uma ambulância a carregou. Respondi algumas perguntas e, contei tudo desde o início. Eu não sabia como o marido de Eulália morreu, mas eu sabia que a singela vovozinha não aguentou o tranco e, por isso ficava lavando a louça o tempo todo, pensando em limpar tudo pra fazer o almoço pra quando o seu marido chegasse.

Fui pra casa e passei uma semana ruim, pensando onde estava a tal da vovozinha Eulália. Talvez estivesse internada em um lugar de loucos, quem sabe num asilo, talvez na cadeia, sei lá. Por um tempo, pensei em descobrir o seu paradeiro, mas depois de alguns dias, achei melhor não fazer isso. A cena que vi foi chocante demais e, eu tinha certeza de que preferia me lembrar da Eulália, como a vovozinha solitária que lavava louça o dia inteiro. Eu não aguentaria pensar nela como louca, como assassina, ou mesmo como uma sem sorte, simplesmente.
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